Chegar em casa e tirar os sapatos era um ritual. Os escravos faziam isto com suas correntes, como uma maneira representativa de dizer que o trabalho (ou o pior) havia terminado. O pequeno apartamento no lugar mais distante da cidade trazia alguns confortos únicos: morava vizinho a uma funerária e uma fábrica de papel, por um lado havia silêncio perpétuo, por outro sua casa sempre cheirava a gaiola de hamster. Sabia que talvez morresse mais cedo pelos anos mergulhados nesta mistura química doentia, mas só a velhice o faria pagar a conta que estava sendo acrescida na juventude. Claro que na velhice esperaria estar aposentado e morando de vista para um belíssimo mar azulado, ou melhor, morando em outro país, mas isso agora se tornara inatingível, ele com seu empreguinho de vendedor, ele como o pária da família, o garoto que não quis estudar, que era burro e tirava notas baixas, que não se esforçou o bastante para ser igual, igual ao vizinho, sim o vizinho que formara-se em filosofia e agora era professor de faculdade, com seu salário gordo e formal. Ele escolhera pela vida difícil de alguém que pega ônibus todos os dias, por carregar os sapatos apertados tal qual as bolas de metal que os escravos carregavam em seus tornozelos.

Respirou o pesado ar, aquela noite em especial era muito quente. O ventilador não conseguia vencer a espessa névoa de mormaço, aquilo seria a prova que irá chover? Não gostava da chuva, seu apartamento ficava no quarto andar, a chuva não deveria o incomodar, porém o bairro alagava, ir para o trabalho no dia seguinte seria um estorvo. Teria que acordar duas horas mais cedo para chegar atrasado e ter um decréscimo em seu salário. Só de cuecas foi até a janela, pequena e tímida, do seu quarto. O fato dela estar aberta não diminuía em nenhuma porcentagem visível o estado do calor. Apenas era uma janela aberta mostrando o espetáculo do escuro céu sem estrelas. A cidade ofuscava todos os pontos brilhantes extra-solares, lugares onde nunca iremos pisar em nossa pífia vida.

Ao debruçar-se na janela ele pode acompanhar a chegada de um carro funerário, era tarde para ainda estarem funcionando, ele mesmo nunca notara nenhum tipo de movimento neste sentido. O carro cumprido com cor azulada, um anúncio um pouco desgastado com o nome da funerária e o telefone, faziam plantão 24 horas para quem tivesse a deselegância de morrer tarde da noite. Dois homens bem gordos, vestindo uniformes brancos, desceram do carro sem desligar o motor. Pareciam nervosos demais, eram gordos demais. Um deles acendeu um cigarro enquanto o outro tentava comunicar-se com alguém em seu celular, a rua deserta poderia amedronta-los de estarem assim tão indefesos, mas como quem não teme o perigo, apenas ignoraram de maneira estúpida.

Eles tentavam retornar ao parco trabalho, desistiram de se comunicar com alguém e queriam entrar na funerária que estava com as portas fechadas. Aquela cena pitoresca tinha se tornado interessante demais para passar desapercebido, visto que ele era os únicos olhos a observarem tão acontecimento. Talvez deveria ter ido dormir, não sabia que horas eram, não importava, horas!? Quando novo passava noites em claro, agora pensava como um velho cansado e rancoroso, mesmo na flor de sua juventude.

Mesmo assim foi ver que horas eram.

Talvez fosse a desistência da vida, era tarde para estar acordado, porém também era cedo demais para ir dormir. Ficaria pensando, na madrugada, o que se sucedera com os homens e o carro da funerária. Talvez a vida parada e corriqueira destes pequenos prazeres de acontecimentos bizarros quando se menos espera, muito de um pensamento imperfeito sobre qualquer coisa. Era aglomerar-se em volta de um carro batido, ou ver acidentes fatais na internet, uma tragédia aqui uma tragédia lá.

O barulho de madeira quebrando chamou sua atenção.

Ele já estava prestes a desistir e dormir, o barulho o fizera saltar da cama e correr para a janela. O vizinho iria reclamar dos barulhos feitos em hora tão dentro da madrugada, porém aquilo poderia ser importante. O barulho fora alto o bastante para fazer os cachorros latirem tirando da inércia aquele silêncio pecaminoso. Da janela pode ver muito bem, os homens estavam com as mãos na cabeça, em seus rostos um desespero misturado com uma dúvida, o que fazer em uma situação destas? Talvez por desalinho ou desalento eles soltaram o caixão de madeira frágil, o fazendo cair e quebrar, o morto, que nada tem haver, deslizou para o asfalto, deitando docilmente em uma sarjeta. Talvez paralisados pela estranheza da situação, ainda tentando processar o acontecimento, ambos apenas olhavam para o morto, sereno em seu estado de anti-espírito. Nada faziam, nem pensavam em fazer.

Observou de sua janela querendo rir-se, era uma situação complicada. Quando se morre realmente toda a dignidade se vai com a história. Aquele que um dia respirou e falou jazia ali, nu e desesperançoso em uma sarjeta qualquer de uma rua distante. Também era um rapaz, tinha feições leves, tranquilas, cabelos curtos, mão grandes, corpo ossudo. Realmente parece muito comigo, pensou, pensou de maneira assustada. Poderia dizer que aquele homem era seu irmão, talvez mais novo. Por um instante pensou que poderia ser ele mesmo e descobrir-se morrido em um acidente, preso a rotina de voltar pra sua própria casa, fazer as coisas como se estivesse vivo, não entraria neste clichê, mas atormentou-se chegando a beliscar-se, constatou que dói, logo estou vivo.

Mas poderia mesmo ser ele? E se fosse ele de fato. Teria morrido sem conquistar nada. Teria morrido do câncer contraído naquela gaiola de hamster que era seu apartamentinho. Teria morrido de acidente de trabalho, ou outra coisa miserável. Teria dois gordos levando o seu caixão, fazendo trapalhadas e expondo o seu corpo para a rua fria e imunda, para que pudesse ainda ter a última sensação do que era ser miserável? Poderia realmente ter morrido e isto não o deixaria dormir. Se fosse um fantasma estaria preso no cotidiano, se fosse morto estaria livre do cotidiano mas largado no asfalto sem dignidade, o que ele era então? Um morto-vivo? Estaria morto para a vida e vivo para morrer? Morrer era muito simples, precisava apenas um deslize e deslizaria para dentro da terra.

Mesmo depois dos homens terem resolvido sua pendega e conseguido de fato dar o descanso merecido para o morto, dando o desfecho final, mesmo com a madrugada no seu auge, ele não conseguia dormir. O morto estava em sua mente, deixando-o vivo quando precisava dormir. Todas suas escolhas se tornaram um tanto banal, abandonaria os caminhos tortos buscando uma linha reta, ou iria na linha reta fugindo dos caminhos tortos. Notara que estava há cinco anos no emprego, notara que morava naquele lixo há uns quatro anos, notara que a velhice encaminhava para sua verdade, sim, realmente, seus dezoito anos se foram. Todos estavam partindo. E ele? Ficaria ali? Aceitaria seu destino tal qual os velhos esquimós que são largados pelas famílias em icebergs? Ele não conseguiria dormir naquela noite. O que precisaria fazer para sair desta trilha já feita? Era a faculdade, estudar de novo? Mudar tudo? Ou seria o próximo corpo no caixão, vendo a terra se amontoar o enterrando de vez. A noite se faria eterna naquele dia, porém ele conseguir encontrar uma solução antes de sua consciência o abandonar.

Pedirá demissão no dia seguinte.

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