Crônicas

Ensino Médio

– Quando eu estava na escola eu sempre tentava ser o melhor. Eu estudava sempre pra tirar nota máxima e sempre era o primeiro da sala – meu tio me dizia em uma de suas raras lições de moral, quando ele decidia mostrar que se importava.

– Hum – era 90% das respostas que eu dava a ele.

– Quando chegava no terceiro semestre eu já tinha passado de ano, os professores até falavam “aquele ali já não precisa vir mais, tá liberado até o fim do ano”, mas eu fazia questão de ir até o final do ano pra ficar com 10 em tudo

– Hum.

– Mas aí na faculdade eu lembro que fiquei puto, por que tinha um cara que era melhor que eu, e por mais que eu estudasse eu não conseguia mais ser o primeiro da sala.

– Hum.

– Mas você não sente nenhum prazer assim quando tira a nota máxima e tal?

– Não.

Eu sei que nada realmente importa na vida, o que me impede de fazer qualquer tipo de comparação entre a utilidade das coisas, mas se usarmos o bom senso, é fácil – e impressionante – notar o quanto as pessoas no geral se importam com coisas inúteis. É como John dizia:

– Nossa angústia existencial é tipo “qual o sentido da porra da vida?” e “será que ela vale a pena ser vivida?”. A angústia do povo é “ai, engordei meio quilo” ou “ai, fiquei de DP de anatomia”.

E nosso desempenho na faculdade não era desculpa para que pensássemos assim: Enquanto eu nunca havia ficado com uma média baixa na faculdade, John já tinha várias DPs, mas pensávamos da mesma forma, que aquilo tudo ali era uma merda. E acho que foi durante o ensino médio que tudo isso começou, talvez não por que antes daquilo a educação tivesse tido algum sentido e sim por que eu ainda não tinha consciência de que não tinha.

Os anos do ensino médio foram os piores anos da minha vida. Pelo menos nas minhas crises existenciais em São Paulo eu estava em boa companhia: Sozinho. Mas no ensino médio eu não tinha escolha, estava cercado de idiotas. As garotas idiotas que faziam cu doce, os garotos idiotas que competiam pra ver quem tira o pau maior, e eu, que era um tipo diferente de idiota que não encaixava em nenhum grupo.

O curso técnico de mecânica que eu fazia a tarde na mesma escola era um pouco melhor, talvez por que era aberto pra pessoas de outras escolas e classes sociais diferentes, talvez por que não houvessem garotas idiotas na sala, e sem elas para os garotos idiotas se exibirem, houve uma redução considerável na idiotice.

Aqueles garotos me contavam histórias de suas vidas que eu, um adolescente burguês com medo do mundo jamais imaginaria viver. Nessa época eu ainda não havia usado nenhuma droga, não fumava e tinha tido apenas uns dois porres de bebida. Também ainda não tinha beijado uma garota. Apenas por essas informações já dá pra imaginar o quão entediante minha vida era, e talvez por isso eu gostasse de ouvir as histórias dos outros, algo que me interessa até hoje.

Eu era um dos melhores alunos: Não causava problemas, e minhas notas só não eram maiores do que as dos alunos que realmente se importavam com aquilo. Pra mim era só um trabalho chato a ser feito, e que se eu fizesse bem não teria de fazer mais de uma vez, então isso bastava. Eu havia sido bem adestrado, mas aparentemente, não o suficiente pra minha família, que sempre dizia “se você quiser você tira mais que isso”. Verdade. Mas como noto hoje em dia, parece que eu sempre tive problemas em me obrigar a querer qualquer coisa.

Mas apesar de ter esse histórico, ultimamente estava em uma onda de levar ocorrências pelos motivos mais idiotas possíveis. Teve o dia em que jogamos ovos em um aniversariante na frente da escola, a assinatura da minha mãe que eu tentei falsificar pra que ela não soubesse, e o caso super grave em que colei um curativo de exame de sangue na camiseta de um filho da puta por trás. Eu me lembro que não acreditei que estava sendo chamado na direção de novo por causa disso.

– Seu colega disse que você colou isso nas costas dele, é verdade? – a coordenadora escrota me perguntou.

– É.

– Por que você fez isso?

– Sei lá.

– Se você fez, com certeza teve um motivo – por que? Qual o problema das pessoas que acham que as ações das outras, ainda mais de adolescentes têm sempre alguma motivação específica por trás?

– Sei lá.

– Você sabe como isso é perigoso?

– O que?

– O sangue transmite doenças!

– Uma gota seca num algodão grudado na camisa de alguém?

– É lógico! Se acha que não, pergunta pra sua professora de biologia!

Não discuti. A decisão já havia obviamente sido tomada.

Houve também o dia que furei o pneu da bicicleta de um amigo quando surtei devido à muita raiva reprimida, fui suspenso e comecei a fazer terapia. É, essa eu admito que eu mereci. Mas não era como se eu tivesse tido escolha. Era o pneu da bicicleta ou a jugular dele.

Mas uma das ocorrências aconteceu por um dia em que uns garotos da mecânica decidiram fugir da escola, outra dessas ações sem um motivo por trás. Eu decidi ir com eles. Um deles disse que sabia um jeito de passarmos despercebidos, era só não levarmos nossa carteirinha de identificação. Infelizmente eu havia me esquecido disso e já havia entregue a minha à inspetora. Mas eu não ligava praquilo e decidi ir mesmo assim. Fomos para os fundos da escola, por onde as crianças menores saíam, e então por um portão manual de carros que ficava destrancado e sem ninguém vigiando. Saímos facilmente e decidimos o que fazer.

Alguns deles decidiram que iríamos ao shopping comprar bebida e então encher a cara em algum lugar. Eu e outros que tínhamos bicicletas demos carona para os outros e fomos: Um bando de menores-de-idade com uniforme da escola pedalando juntos, dois, três em uma mesma bicicleta, indo comprar bebida pra se livrar do tédio.

Paramos perto do shopping, onde tinha um supermercado, juntamos uma grana e alguns que pareciam mais velhos compraram o goró: Duas vodkas de 7 reais e um refrigerante de dois litros. Essa seria a receita de várias aventuras minhas com Norman Rocha alguns anos depois na faculdade.

Bebi pra caralho, me gabando que aquilo não causava efeito em mim, mas eu ainda não sabia como as coisas funcionavam. Meia hora depois, levando um de meus colegas no quadro da bicicleta pela subida de uma avenida movimenta eu descobriria o real significado de 37% de teor alcoólico.

Mas, incrivelmente, nesse dia chegamos sãos e salvos até o bar onde havíamos combinado de ir. Ironicamente, anos depois estando sóbrio e atravessando uma avenida deserta perto de casa de bicicleta uma moto me mandaria para o hospital todo esfolado e com cinco pontos na cara. E é aí que você percebe que foda-se a lógica.

Tomamos mais algumas cervejas, jogamos sinuca e depois fomos cada um para sua casa.

No outro dia, quando entrei, a inspetora disse que a coordenadora estava esperando na sala dela com a minha carteirinha para que eu pudesse entrar na escola nos outros dias. Ela marcou meu nome, e se eu aparecesse mais duas vezes sem ela não poderia mais entrar. Normalmente eu iria logo falar com ela, eu não me importava mais com aquilo, mas como estávamos na semana final de provas, eu quis jogar um jogo.

Nesse primeiro dia eu fiz as provas e fui embora. No segundo dia eu entrei na escola pelo portão de trás e fui para a sala. Enquanto estava fazendo uma das provas a inspetora apareceu na sala me procurando e quando me viu marcou meu nome e disse que era a segunda assinatura. Isso significava que elas haviam aceitado jogar: Elas sabiam que eu havia entrado sem ser visto de novo, mas ao invés de me mandarem direto para a diretoria, iriam esperar que eu fosse obrigado a ir para lá, ou não poderia entrar para fazer as provas. Malditos.

No terceiro dia eu fiz o mesmo processo, e o mesmo aconteceu. A inspetora me encontrou e marcou mais uma assinatura. Meus colegas que sabiam o que aquilo significava davam risada. Aquela era minha última prova do ensino médio normal, mas eu ainda teria uma de mecânica no dia seguinte. Decidi não arriscar que os malditos tentassem me foder ainda mais e fui até a direção. A coordenadora estava lá, com seu sorriso sarcástico cheio de dentes podres à mostra.

– Por que você fugiu da escola? – de novo a insistência em um motivo. E de novo eu virei os olhos.

– Você sabe que nós somos responsáveis pelo que acontece com você no período em que deveria estar aqui dentro, não? Sabe que se acontece alguma coisa nós somos os culpados?

Não sei se ela achava realmente que faria algum sentido eu ligar praquilo ou se era apenas algum texto padrão que ela aprendeu na formação de pedagoga de merda que ela devia ter tido. Também não sei se ela sabia que não pega bem pra imagem de uma coordenadora de escola dizer para um aluno que se importa mais com o próprio rabo do que com ele no caso de ele se foder no seu turno.

– E você sabe que temos funcionários que são pagos pra impedir que isso aconteça né? E pra manter a organização dos alunos e que nenhum deles corra riscos. Como você acha que fica pra esses funcionários ser repreendidos por não estarem fazendo seu trabalho direito?

– E estão? – e agora ela queria o que? Que eu criasse empatia pelos funcionários? E aquilo me mostrou o quão bosta eles eram, sendo que em nenhum momento consideraram que eu poderia ter encontrado outra maneira de entrar na escola que não pelo portão vigiado.

– Você sabe que não é obrigado a estudar, né?

– O que?

– Você não é.

– Bom, eu… Sou… Se não meus pais vão presos.

– Mas você não é obrigado a estudar aqui.

Lembrando novamente que eu era um dos melhores alunos com as maiores notas e que dava menos trabalho. Imagino o que alguns outros ouviam naquele lugar.

Uns anos depois durante a faculdade soube que uma equipe de especialistas em educação teve de ser chamada para salvar aquela escola por que a quantidade de alunos estava em apenas um terço de sua capacidade total. Não nego que senti certa satisfação ao saber disso. Uma satisfação egoísta mesmo, não aquela tipo “fico feliz pelos novos alunos”.

Fodam-se esses alunos idiotas.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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