– Ah, Conatus, os padrões de beleza impostos pela sociedade são fodas, cara. Sempre que eu vejo uma mulher alta, magra, branca, com peito pequeno eu já penso “gostosa”, de tanto que isso tá imbutido em mim – ele disse zoando, enquanto passávamos pelo metrô e avistávamos belas mulheres que se destacavam na multidão de pessoas que passava pelo catraca.

– Você não precisa usar essas teorias sociais de bosta pra justificar seu gosto de boceta pra mim, Corvo – disse e soltei fumaça do cigarro – pode ficar tranquilo.

Eu já morava com Corvo fazia um ano, e uma ou duas vezes por semana nós íamos na biqueira comprar erva. Na maioria das vezes eu ia sozinho, por que ele não curtia se meter no meio da favela, então eu ia, ele me pagava uma coca e estávamos feitos.

Eu nunca havia ido em uma favela antes de me mudar pra São Paulo, e tenho que dizer que as vezes que fui foram mais enriquecedoras do que eu imaginava que seriam. Eu não sabia onde era a biqueira exatamente, e o povo de lá não confiava em mim, então eu normalmente encontrava algum morador que levava meu dinheiro pra dentro da favela e depois voltava com a droga. Enquanto ele fazia o trajeto eu era obrigado a conversar com as pessoas que moravam ali, que eram muito gentis, me ofereciam cadeira, suco, cachaça. Um dia que estava chovendo eu até entrei na barraca de um deles, fumei um baseado e assisti um filme, enquanto o morador fazia vários discursos de como ele me achava gente boa por estar ali com eles mesmo tendo dinheiro. Mas eu estava chapado demais para lembrar da maior parte.

Nas minha várias idas até aquele lugar eu ouvia diversas histórias que ampliaram minha visão do mundo, algo que sempre busquei:

Como Jacira, a mulher que me ofereceu o suco. Me contou que apanhava do filho por causa de crack e preferiu sair de casa ao invés de mandá-lo pra cadeia.

– Tô dividindo a barraca com um cara aí gente boa. Você tem que fazer amizade, tem que ter proteção, se não os homem abusa. Semana passada mesmo, uma mulher foi estuprada e morta ali no parque.

– Moradora de rua?

– É, morava aqui com a gente. Mas eu fiz amizade então fico mais tranquilo. Vou arranjar um emprego, pegar uma grana e alugar um apartamento barato. Mas por enquanto eu tô aqui.

Ou do Mineiro, que veio de BH e tinha vários dentes quebrados e um buraco na cabeça por causa de acidentes de moto.

– Eu sou mineiro mineiro mesmo! Tem gente que fala que é mineiro, mas tem mineiro mais perto de São Paulo, mais perto do Rio… Eu sou mineiro de BH!

Um dia fui lá e uns crentes estavam distribuindo sopa. Uma das mulheres veio distribuir para o nosso grupo e não conseguiu me diferenciar. O homem que estava falando comigo disse:

– Muito obrigado, moça, mas a gente acabou de comer. Tô cheio, mas obrigado, viu?

A mulher sorriu, nos entregou alguns panfletos bíblicos e foi embora. Assim que saiu, o homem disse:

– Ah, esse povo é muito gentil, mas comida aqui é o que não falta, a gente sempre come bem.

– Então o dinheiro vocês usam só pro goró, né? – eu disse, acendendo um cigarro e dando um a ele.

Outra das vezes um dos moradores, conhecido como Jamaica, me fez uma pergunta:

– E aí, gordinho, você tem celular? Não liga pro apelido não que aqui é tudo assim, viu? É gordinho, jamaica, louro, menor… Tudo nos apelidos.

– Ah sim. Pô, não tenho, cara – eu nunca levava meu celular ou minha carteira pra esses lugares.

– Ah beleza, senão ia pedir o cartão de memória pra pegar umas músicas.

Então era assim que eles conseguiam as músicas. Isso sim é compartilhar.

– Então vocês têm celular?

– Temos… – ele disse – pergunta pra ele pra você ver… Minha família não tem meu número, só o dele. Aí quando querem falar comigo ligam pra ele.

– E por que você não passa seu número pra eles?

– Por uma coisa chamada “encheção de saco”, tá ligado?

– Ô se tô…

Adriano, um cabeleireiro me contou que tinha um salão na favela mas que foi fechado pois foi preso por não querer entregar amigos pros policiais. Agora dizia que tentavam arranjar trabalho pra ele mas que ele não queria trabalhar, tava de boa desse jeito.

No dia da chuva havia uma garotinha no barraco junto com os homens que compartilharam o baseado comigo. A maioria das pessoas poderia criticar isso, mas aqueles homens tratavam aquela menina muito melhor do que já vi muita gente rica tratar. O dono do barraco dizia que ela era perfeita e que o cabelo dela era lindo, ela não tinha que ter vergonha. E eu me lembrei das mães que desde novas, alisam o cabelo de suas filhas para se adequar a um padrão estético.

Ele me disse que um dia já passou por aquela rua, de carro, quando tinha um emprego, e julgou aqueles moradores, chamando-os de vagabundos.

– Mas agora eu sei, parça, você tem que ser humilde. Que nem você, sentado aqui com nois, de boa. Isso é humildade, parça, e isso ninguém tira de você. Você tem que ser humilde por que ninguém sabe o dia de amanhã. Eu chamei eles de vagabundo, julguei, e olha agora pra mim: Agora eu sou um deles.

– Pode crer – eu disse, concordando sinceramente, mas chapado demais pra fazer qualquer coisa além disso.

Num dos dias eu voltei para o apartamento e conversei com o Corvo sobre eles, e me perguntei sobre o que estávamos fazendo de nossas vidas. Pobres, nos matando de trabalhar para tornar outras pessoas ricas e ter uma casa, um teto, uma sensação de segurança. Criticávamos tanto o capitalismo, nós, os poderosos intelectuais, mas mamávamos nas tetas dele para sobreviver, e sempre sendo explorados.

Esses homens eram, à sua maneira, livres. Completamente inúteis para a sociedade, e por isso mesmo livres da cadeia utilitarista que aprisiona todos nós nesse sistema perverso. Você já pensou sobre isso? Sobre o quanto sacrificamos em nossos trabalhos e famílias em troca de segurança? Conforto? Luxo?

Diógenes, o cínico, era um mendigo filósofo da Grécia Antiga. Ele andava à luz do dia com sua lanterna, dizendo procurar um homem honesto, sem nunca encontrar. Ele também acreditava que uma vida seria mais virtuosa, e portanto, feliz, quanto mais desapegados fôssemos das pessoas e das coisas materiais. Eu não sei se concordo totalmente, mas acho que todos nós temos uma coisinha ou duas para aprender com ele. Assim como com esses cínicos modernos das favelas.

Anúncios