julho 4, 2017

A Grande Piada

“Ozymandias – Nós podemos fazer muito mais do que isso. Nós podemos salvar o mundo. Com a liderança certa.

Comediante – E esse seria você, não é, Ozy? O homem mais inteligente do mundo.

Ozymandias – Não é preciso ser um gênio para perceber que o mundo tem problemas.

Comediante – Não. Mas é preciso de uma sala cheia de idiotas pra achar que eles são pequenos o suficiente para você dar conta. Então Moloch aparece na cidade e vocês vão correndo vestir seus uniformes. Vocês acham que realmente importa se o pegarem?

Rorschach – Justiça importa!

Comediante – Justiça? Justiça está vindo pra todos nós, não importa que merda nós façamos. A humanidade tem tentado se destruir desde o início dos tempos. Agora nós finalmente temos o poder para terminar o trabalho. Nada mais vai importar quando as bombas (nucleares) começarem a voar: Todos viraremos pó. E Ozymandias aqui será o homem mais inteligente do cinzeiro”.

Watchmen – Alan Moore

A revolução é uma piada. A única revolução que poderia dar certo é se um meteoro extinguisse a humanidade e tivéssemos que começar do zero. E eu digo “poderia” por que não duvido que cometeríamos o mesmo erro de novo e de novo.

Não ouse me chamar de pessimista. Ouça um pouco da minha história e depois me diga o que acha. Eu não quero que você concorde comigo. Eu quero que você prove que eu estou errado. Mas quero que prove com evidências, e não com qualquer tipo de “fé” ou “esperança” de que um dia isso irá mudar. Enquanto as pessoas continuarem sendo covardes, isso estará longe de acontecer.

Escola: Eu estudei minha vida toda em escolas particulares. No final do ensino fundamental fui escolhido junto com outros quatro dos “melhores” alunos da sala (um deles o representante de classe) para ser representante dela numa avaliação que faríamos dos professores. Um dos critérios a ser avaliado era se o professor conseguia manter o controle da sala e ensinar a matéria. Obviamente, haviam vários que não conseguiam. Eu disse então que deveríamos dar uma nota baixa a eles. E nisso, o REPRESENTANTE DE SALA respondeu:

– Ah não, se a gente der uma nota baixa ela vai começar a cobrar a gente. Vamos dar uma nota alta que aí a gente fica de boa.

Os outros três concordaram. Não sei se fui claro: Aquele não era um aluno problema de uma família oprimida da periferia que tinha que trabalhar para viver. Era um dos melhores alunos daquela escola particular, adorado por todos os professores, evangélico, certinho, que nem falar palavrão falava. E não foi ele que cedeu, foi ele que deu a ideia.

Havia uma professora no entanto que passava dos limites e o grupo “permitiu” que eu desse notas baixas por ela intimidar os alunos e humilhá-los (as vezes) quando estes faziam perguntas. Todos os cinco tinham a mesma opinião sobre ela, então nós demos notas baixas.

A tal professora então um dia, no meio da aula começou a dar um sermão aos berros à toda a sala, dizendo que ela tentava ser nossa “amiga”, mas que os representantes da sala não valorizavam nada do que ela fazia e que de agora em diante ela teria que ser mais rígida.

Depois do sermão os quatro representantes se levantaram e fizeram o que a maioria das pessoas de hoje em dia fariam se estivessem no lugar deles: Pediram desculpas e botaram a culpa em mim. Como disse Karnal em uma palestra: “É sempre assim: Na hora da cruz, ao lado só dois ladrões”.

Falar do assunto na direção não adiantou por que como veremos mais pra frente no texto, a menos que você ameace essas pessoas financeiramente ou por favores políticos, elas não se mexem. De fato, essa escola só melhorou anos depois que eu saí, quando os políticos responsáveis ficaram desesperados pelo fato de só haver restado um terço da capacidade máxima de alunos e aí decidiram mudar a gestão¹.

Faculdade: A faculdade em que estudei (também particular) era repleta de “feministas”, ou de mulheres que se definiam como tal. Elas reclamavam e denunciavam várias injustiças sofridas por mulheres, como por exemplo o fato de serem obrigadas a usar maquiagem ou tomar banho todos os dias. Sério.

“Por que pela forma que as mulheres são criadas… Eu não consigo ficar um dia sem tomar banho sem me sentir nojenta… Ou sair de casa sem passar maquiagem, por que aí todo mundo fica olhando pra você. Homens não passam por isso”.

Inspirador. As mulheres da primeira onda do feminismo, as heroínas que servem de exemplo para as mulheres de hoje estavam dispostas a lutar nas ruas, serem espancadas, presas, demitidas ou expulsas de suas casas se isso fosse o necessário para lutar por seus direitos de voto, salários melhores e igualdade. Essa pessoa (e acredite, existem muitas como ela, óbvio que não todas) não estava disposta a sair de casa sem maquiagem, não por medo de ser apedrejada, presa ou morta. Mas por medo de ser julgada pelos outros. E considerando que nunca vi homens se importarem com a maquiagem de uma mulher a ponto de intimidá-la (mas tudo é possível nesse mundo) acredito que a pressão desse julgamento não viria deles, e sim de suas próprias “amigas”.

As mesmas “amigas” que pregavam a regra do “meu corpo, minhas regras”, mas que quando viam uma garota gorda usando um top na faculdade faziam comentários como “não sei como ela tem coragem de vestir isso”, “podia esconder, né, ninguém é obrigado a ver isso”. As mesmas “amigas” que passaram toda a faculdade dizendo que eu deveria cortar ou alisar o cabelo, fazer a barba, emagrecer, usar roupas melhores, fazer academia. As mesmas “amigas” que eram sustentadas pelos pais e achavam escroto um homem reclamar de peitos pequenos, mas que se recusavam a namorar um homem que não tivesse carro e/ou que sustentasse a si mesmo.

Mas eu sou homem, então não importa, não é? Homens nunca sofrem com esse tipo de coisa. Deve ser por isso que o número de suicídios de homens é quatro vezes maior que o de mulheres, por que estamos encarando isso muito bem.

As mesmas “amigas” (mas também alguns professores(as) universitários) que falavam coisas como “mulher não é machista, reproduz machismo”, como se fizesse alguma diferença. O que elas acham, afinal? Que o homem é o lobo do homem, mas a mulher nasce boa e é corrompida pelo meio (masculino)? Elas querem usar Hobbes para descrever os homens e Rousseau para definir as mulheres², e ainda acham que estão defendendo a igualdade entre os gêneros? Na verdade acho que elas nem sabiam quem foram Hobbes e Rousseau, talvez isso explique algumas coisas.

Da mesma forma que antes, falar não adiantava: Qualquer um que ousasse discordar de suas ideias ou apontar incoerências nelas era automaticamente chamado de machista, opressor, privilegiado. Eu fui um deles.

São Paulo: Eu fui para São Paulo junto com idealistas que queriam continuar seus estudos sobre marxismo e revolução para melhorar o país. Nos mudamos em uma época onde diversas manifestações contra o governo aconteciam. Pessoas estavam dispostas a faltar no trabalho e paralisar o metrô para mostrar ao governo quem é que manda.

Mas só por um dia. E se o patrão deixasse.

Thoreau foi um filósofo que escreveu “Desobediência Civil”, se recusou a pagar impostos e foi preso por causa disso. Ele abriu mão de sua liberdade para defender seus ideais, assim como as feministas da primeira onda. Mas hoje em dia ninguém arrisca abrir a mão nem do salário.

Esses idealistas, no entanto, concordaram comigo quando disse que os moradores de favela que se recusavam a trabalhar³, ou mesmo ciganos  estavam sendo mais coerentes do que os intelectuais universitários em sua “resistência contra o capitalismo”. Mas é claro que nenhum deles estava disposto a tomar o lugar deles.

No filme Escritores da Liberdade (baseado em fatos reais), uma professora idealista que não recebe ajuda de ninguém arranja mais dois empregos e faz projetos com os alunos para levantar fundos para ajudar em sua educação como cidadãos. Quando o marido diz que não aprova todo esse sacrifício, ela segue em frente e isso acaba lhe custando um divórcio, mas ainda assim ela não desiste.

Agora eu te pergunto: Quantos de vocês estariam dispostos a passar pelo que ela passou? Quantos de vocês conhecem alguém disposto a fazer isso? Pessoas já deram suas vidas para defender uma causa, botaram reis na guilhotina e tomaram o poder. Mas hoje mal conseguem pedir licença pra alguém que bloqueia o lado esquerdo da escada rolante no metrô por que “ah, fica um clima chato, né?”.

Conclusão: Em resumo, é covardia. E hipocrisia, o que acaba sendo a mesma coisa. Todo mundo quer mudança, mas ninguém está disposto a pagar o preço. Todos exigem justiça e honestidade, contanto que não tenham que mudar seus comportamentos injustos e desonestos. As pessoas se vendem por tão pouco. Não venha me dizer que isso é culpa do governo, da sociedade ou da puta que o pariu: Isso não impediu as feministas – as verdadeiras feministas­ – de sair e lutar. Isso não impediu Martin Luther King ou Gandhi.

Você vê professores ou administradores de escolas abaixarem a cabeça para corruptos para não perderem seus empregos. Mas esperam que seus alunos ou filhos façam diferente.

“Mas melhor eu ceder e manter meu emprego para ensinar as pessoas do que ser demitido e não poder fazer isso” é o que muitos pensam. É, estamos vendo como todos esses idealistas vendidos estão fazendo a diferença. “Mudar o sistema por dentro”. Outra piada. Como disse André ao Capitão Nascimento em Tropa de Elite 2: “A única coisa que vai mudar é o senhor. Isso se já não mudou”.

“Fácil pra você falar”, alguns devem pensar. “Por que você não vai e faz diferente?”. E eu respondo: Por que eu estou sozinho. Lembram-se no filme 300 quando Leônidas não permite a entrada do corcunda no exército? Lembra do que ele diz?

“Um espartano confia a vida no homem ao seu lado. Confia que seu escudo o protege do ombro ao joelho”. E assim eles conseguiram derrotar os Persas (não os 300, claro, os que vieram depois inspirados pelo rei). Espartanos davam a vida para proteger o homem ao seu lado com seu escudo. Hoje em dia nós vendemos o homem ao lado pra comprar um escudo mais bonito. Honra? Empatia? Solidariedade? Não me faça rir, isso não passa de uma piada ruim, como disse o Coringa:

“Você vê, a moral deles, seu código, é uma piada ruim. Usada ao primeiro sinal de problema. Eles só são tão bons quanto o mundo os permite que sejam. Eu vou te mostrar: Quando as cartas estiverem na mesa, essas pessoas civilizadas vão devorar umas às outras”

The Dark Knight, Christopher Nolan

Então antes de me achar pessimista, egoísta, antes de me achar um sádico que sente prazer em tirar a esperança das pessoas, tire a cabeça do cu e olhe em volta. Não me venha com seu moralismo de merda, não me venha com sua “fé na humanidade”, com o seu “o ser humano é um ser de luz que está em busca da transcendência”, não me venha falar de deus ou de um sentido, algum objetivo nobre nessa ou em outras vidas. Quanto a isso, faço minhas as palavras de outro personagem de Watchmen para ver se você entende:

Rorschach – Você vê, doutor, não foi deus que matou aquela garotinha. Não foi a sorte que a esquartejou ou o destino que a deu de comer para os cães. Se deus viu o que qualquer um de nós fez naquela noite, ele não pareceu se importar. Daquele dia em diante eu soube… Deus não fez o mundo ficar desse jeito. Nós fizemos.

Boa noite.

.

.

¹Para ter uma noção de como era a gestão da escola, ver conto “Ensino Médio”

²Thomas Hobbes: Autor da frase “O homem é o lobo do homem”, acreditava que o ser humano é naturalmente “mal” e que é necessário que seja educado pela sociedade para se tornar civilizado.

Jean-Jacques Rousseau: Autor do conceito do “bom selvagem”, da famosa frase “o homem é bom, é a sociedade que o corrompe”. Evidentemente essas são opiniões opostas sobre a natureza humana.

³Ver conto “O Cínico”.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

CATEGORIA

Textos

Tags

, , , , , , , , , , , , , , , , , , ,