Textos

Desaniversário.

 

Eram três da tarde do último dia de sua vida. Ela passou os últimos anos da mesma vida contando quantos minutos ainda restavam. Ela ainda se perguntaria, mais tarde do mesmo dia, se aquele tempo que passara valera de fato a pena. E se nada tivesse realmente o verdadeiro valor? Todos os seus amigos chegariam em breve, comemorariam o último dia com sua presença, depois dali nada mais existiria além de memórias e fotografias. Ela estava ansiosa, roía as unhas, respirava fundo, e se viesse ninguém? Todos os amigos e parentes fossem grandes falsos mentirosos, não ligassem de fato, não se importassem. Este era o seu último dia! Não estaria mais aqui para ouvir as desculpas.

As horas daquele dia se passavam tão rápido! Não era assim quando ela trabalhava, não mesmo! As horas demoravam-se intermináveis, arrastando-se com pesadas correntes pelos ponteiros dos relógios. Ela viveu de sextas-feiras em sextas-feiras, viveu de pequenas festinhas e opacos relacionamentos, viveu uma vida em trabalhos pequenos, coisas corriqueiras. Ela não viu o tempo passar, e nossa, passou realmente muito rápido. Agora, este agora seria a sua eternidade, hoje era o seu último dia de vida, o seu desaniversário. Seus amigos e familiares viriam (se viessem) e comemorariam com ela este último dia de vida. Depois, quem sabe o que acontece depois? Ninguém sabe. A vida pode se abreviar em um borrão negro de nada, ou pode-se vir a vida após morte, ou poderá ir para um multiverso da teoria das cordas ditas por Hawking (era Hawking!?). Deus! E suas coisas inacabadas? Ela deixará de existir, devanescerá como uma folha no primeiro dia de outono. Quem alimentará seu gato? Quem resolverá as suas pendências? Sua mãe, eu pai, seus irmãos? Agora ela pensou muito bem, penso de fato, ela não queria desaparecer. Porém era tarde.

O mal havia sido feito.

Ela desejou desaparecer.

Ela não tinha mais nada aqui. Empregos idiotas, relacionamentos idiotas. Os mesmos filmes no cinema, os mesmos livros dizendo as mesmas coisas, o salário curto, a falta de expectativa. Teria bebês um dia, seria uma boa mãe? Talvez. Tomaria seus remédios, morreria velha e cansada, ela não queria envelhecer, queria morrer jovem tal qual seus ídolos. Jovem e bonita. Mas, vendo deste ângulo, porque morrer bonita? Os vermes vão come-la de qualquer forma. Mas ela desejou, e a data foi marcada no dia que ela mais odiava.

Seria o seu aniversário, mas a idade pouco importa.

Ela emagreceu. Ela não pode mais voltar atrás. Isto assemelha-se  a excluir um arquivo indesejado do computador, depois que se diz “sim” não tem mais volta. Adeus arquivo indesejado. Agora ela era a indesejada, ela tinha apertado sim e o processo tinha iniciado. Dia tal, ano tal, depois da décima batida do relógio.  Mas para aonde vou? Ela perguntou, porém não houve resposta, ninguém sabe para aonde vai depois que morre, por isso existem tantas religiões.

Viveu a vida normalmente até aquele dia. Mesmo sem esperanças de um futuro melhor ela, ainda sim, viveu normalmente sua vida redundante. Contar para a família sobre o que se sucederia foi uma dificuldade, todos choraram muito e perguntaram pelo motivo, mas ela nunca respondeu. Logo todos se acostumaram com a ideia que ela não estaria mais ali, não faria mais parte daquele mundo.  Não sairia mais com os amigos, não tiraria mais fotos, não teria seus relacionamentos e seus trabalhos, teria abreviado o tempo, morreria bonita, como desejou, morreria jovem tal qual seus artistas favoritos.

Mas ela não seria boa o bastante para ter ido tão cedo? Isso seria suicídio? Ou de alguma forma seria algum tipo de assassinato? Talvez só burrice. Se tivesse pensado melhor ela poderia ter pedido felicidade, ter pedido dinheiro, ter pedido a eternidade, mas o que ela faria com estas coisas? Tudo que se depende de outra pessoa para que precise existir, torna-se tão vazio quando não se tem ninguém.  Seus sorrisos tinham sido borrados quando ela ainda era uma adolescente. O dinheiro um dia acaba. Ninguém quer ser eterno, não vale a pena.

Não valeria?

Agora ela agia como se tivesse feito uma tatuagem por impulso. Uma onda de arrependimento recheou seu corpo. Ela que teria tanto para viver, ela que queria tanto ver uma aurora boreal. Ela abreviou seu tempo, pedira sem pensar, ou pensara tanto em pedir que acabou acontecendo.

Ela chorou, finalmente.

Mas os amigos estavam chegando. Ela precisava parecer feliz, parecer que tinha feito a escolha certa. Os familiares chegaram logo após. Tinha bolo, refrigerante e salgadinhos. Era o desaniversário, a festa de despedida, o ano de vida que não existirá. Ela ouviu as histórias de sua avó que viverá mais do que ela, ela viu o sorriso da sua mãe, sentiu o abraço do pai pela última vez. Ela brincou com seu irmão menor, e abraçou o irmão mais velho. Ela sorriu e festejou com os amigos.  Ela comeu bolo, bebeu refrigerante, não se preocupava com peso, com estrias, com celulite, com cabelo, com maquiagem, com roupa, com faculdade, com dinheiro, com trabalho, com relacionamentos, com doenças. Tudo ficaria quando ela partisse.

Todos foram embora. Ela os viu pela última vez.

Seus pais deram o último abraço e a agradeceram pela ótima filha que ela tinha sido.

Choraram.

Mas a hora chegou. A porta se fechou pela última vez. Ela decidiu esperar de olhos fechados. Eram os seus últimos minutos. Sua mente não conseguia formar pensamentos reais, apenas memórias profundas e sentimentais. Ela sentiu paz, sentiu o macio da cama e o frio do oxigênio entrando em seus pulmões. Pela última vez, ela pensou. Sua vida finalmente entrara na contagem regressiva. Agora seria apenas esperar, descobrir o que viria a seguir, o maior mistério da humanidade.

A escuridão tomou conta do céu. Uma chuva viria na madrugada para molhar a terra e deixar o ar pesado. Ela gostaria de ter visto esta chuva, mas chegaria tarde demais, tarde para ela. Seus últimos suspiros foram lentos e delicados, como uma flor deixando a vida. Em sua mente os pensamentos não formavam mais sentido, apenas uma paz interior e profunda tomava conta de si. Uma última lágrima escorrera pelo rosto. Ela ainda tentou dizer uma última palavra, porém seu tempo havia se esgotado. Ela desaparecera deixando apenas o silêncio para trás.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

2 comentários em “Desaniversário.

  1. Pingback: Desaniversário – Só palavras

  2. Que aura de mistério! Escritores maravilhosos e sua criatividade incrivel! Não tem explicações adicionais? Socorro! Como na vida sem maiores explicações que façam algum sentido, só aceitação.

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