Textos

Leve como brisa

Teresa, a louca de pedra como era chamada, encontrou a pequena menina perdida próxima ao rio. A criança não pareceu ter medo dela. Na certa não soube reconhecer a demência no rosto magro e envelhecido ( apesar da pouca idade) e nas longas saias as quais usava. Talvez a perdida fosse jovem demais.

Tomou-lhe a mão e partiu rumo às montanhas onde vivia. Lá não escutava os rumores sobre sua conduta. Havia enlouquecido aos dezoito anos, junto com sua maioridade. Não foi como a loucura de Ismália. Não queria saltar de nenhuma torre, nem buscava a lua.

Então, o que buscou Teresa na demência? Buscou, assim como Zaratrusta, os silêncios arraigados nas pedras, a sabedoria da terra que aninhava a vida em seu ventre, os segredos das plantas que cresciam e morriam em completo desapego e, principalmente, buscava a paz na harmonia das entranhas das montanhas onde vivia, completamente sozinha. Sozinha até aquele dia. A partir de agora, teria uma discípula. Ensinar-lhe-ia todos os mistérios encontrados na solidão.

A menina, no entanto, emagreceu rapidamente. Mal os dias se transformaram em semanas, seu corpo frágil deu amostras de doenças. Não gostou do sabor das ervas amargas, das raízes mal cozidas e dos chás não adoçados os quais lhe eram oferecidos.

Mas, encantou-se com as noites estreladas, com as folhas salpicadas de orvalho e com a chuva que lhe chegava, às vezes fortes, às vezes leves como flocos de algodão. Nunca mencionava a antiga casa e seguia sua companheira sem a questionar ou interromper.

Teresa amou-a desde o início. Era meiga e afável como um cãozinho. E o melhor, o mais maravilhoso, a compreendia. Passeavam de mãos dadas e muitas vezes Teresa a carregava, sentindo-lhe o corpinho magro e pálido transmitir-lhe algum calor.

Quando, naquela tarde, ouviu o alarido de vozes e os latidos dos cães, soube que a hora havia chegado. Apanhou a mãozinha, entrelaçou-lhe os dedos e correram. Juntas alcançaram o limite da montanha. Ao longe, mas nítidos, os rumores de pessoas nervosas e apressadas. Lá embaixo, nem lua, nem mar. Apenas a lógica das rochas e o convite para a solidão eterna.
A brisa transformou-se em vento, contra os corpos suspensos no ar.

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Nasci e cresci em uma cidade bem pequena no interior do Paraná. Sempre gostei muito de ler e ainda muito pequena comecei a escrever minhas próprias histórias. O gênero que mais gosto de escrever é fantasia, inclusive tenho dois livros publicados com essa temática, um romance ‘Sete dias de Lázaro’ e um livro de contos ‘Contos de Quase Fadas’. Minha mente é povoada por inúmeros seres fantásticos, mas o meu preferido são os dragões. Escrever para o blog “Saco Cheio e Mau Humor” está sendo uma experiência ótima. Ter um canal para externar algumas das minhas inúmeras ideias que se acumulam dentro de mim. Abro meu mundo para vocês. Sejam bem vindos!

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