Eu me lembro das aulas de filosofia na faculdade quando aprendemos, bom, eu aprendi, sobre as ideias de Heráclito e Parmênides do Mobilismo e Imobilismo. Para Parmênides, nada realmente muda, a mudança é uma ilusão, pois o Ser permanece sempre o mesmo. “O ser é e não pode não ser e o não-ser não é e não pode ser de modo algum”. Eu sempre achei isso meio “duh” até começar a ler sobre Heidegger e entender (um pouco) o tamanho da profundidade disso.

Já Heráclito tinha uma ideia oposta, de que o ser está em constante mudança, nada é estático, tudo é dinâmico, como mostra naquela famosa frase “não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois o rio e a pessoa já não são os mesmos” ou algo do tipo.

– Estamos mudando o tempo todo, sem perceber, a cada segundo – meu professor disse – mas quando é então que damos conta dessa mudança? Quando agrupamos todas as características que já fomos ou concordamos um dia mas que agora desprezamos ou não gostamos mais, congelamos todas elas em um bloco estático e então dizemos “eu não sou mais isso”, “eu mudei”.

Imagino que para isso sirvam os rituais de passagem. E cara, como eu odeio rituais de passagem. Psicólogos tentam te fazer engolir que trata-se de uma necessidade do ser humano de possuir marcos que delimitem etapas em sua vida. Para marcar as mudanças pelas quais passamos no tempo, e causar uma profunda mudança interna.

Só que não existem etapas, velho, o tempo é contínuo. Não existem horas, minutos e segundos, manhã, tarde e noite, dias, semanas, meses e anos… Nós criamos tudo isso. Nós decidimos que o tempo seria dividido e organizado seguindo essas frações, o tempo em si simplesmente passa, ele não se importa com qual delas você está.

Você não deixa de ser uma garota e vira uma mulher – outras palavras arbitrárias – por que têm um baile aos seus 15 anos, assim como não deixa de ser um garoto e vira um homem por que completa 18.

O que exatamente você comemora no seu aniversário? Ou no ano novo? Que enquanto a terra deu outra volta em torno do Sol você conseguiu a enorme façanha de continuar respirando? “Tempo de recomeçar”? “365 novas chances”? O que exatamente você acha que muda da noite de 31 de dezembro para 01 de Janeiro? O que de tão grandioso você pretende fazer no dia 1º de Janeiro ou na segunda feira da semana que vem que não poderia começar a fazer no dia 15 de maio, numa quarta feira ou mesmo hoje? Por que não começar hoje?

Uma colação de grau também não significa nada. “Significa que você se formou, conseguiu um diploma”. Não. Em uma colação de grau você recebe um canudo vazio, tão vazio quanto a cerimônia inteira ou as pessoas que participam dela. Em uma dessas discussões, uma colega, que estava na faculdade me disse:

– É claro que significa algo! Significa que eu vou deixar de ser uma estudante e passar a ser uma trabalhadora, ter um trabalho, assim como quando você tem um filho, passa a ser mãe.

Ao que eu respondi:

– Tá, mas você trabalha – ela fazia um estágio remunerado em uma instituição do governo –  você pretende continuar estudando depois que se formar – ela pretendia fazer um mestrado e seguir carreira acadêmica – e, quando tiver um filho, não deixará de ser uma filha, de ter uma mãe, mesmo que ela morra. Então o que muda realmente?

Nada. Ou tudo. Para Parmênides isso não representaria uma grande mudança pois o Ser continua sendo e para Heráclito, não representaria uma grande mudança, pois seria apenas mais uma entre as centenas que vivemos diariamente sem nos darmos conta. Então por isso importa?

O que realmente importa?

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Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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