Textos

A Resposta

Vocês nunca irão entender como eu penso por que pra isso vocês precisam perder tudo. Não estou falando de bens materiais ou das pessoas à sua volta, eles são apenas objetos. Não, não num sentido egocêntrico, sociopata ou de uma “objetificação do ser-humano”, no sentido gramatical: Você é um Sujeito e o resto do mundo, Objetos, e a sua realidade é aquilo que você faz dela.

O que vocês precisam perder é a sua fé, sua esperança, a confiança que têm em que existe algo que possa explicar a realidade, seja ela a religião, a filosofia ou a ciência, por que não há, nunca houve.

“O sol é bom”, “o sol é mau”. O sol é uma bola de fogo que emite radiação que possibilitou o surgimento de vida em nosso planeta. É só isso. Mas “sol”, “sun”, “soleil”, “sonne”, ou “fogo”, “fire”, “feu”, “feuer” são só palavras escolhidas arbitrariamente por culturas diferentes para descrever alguma coisa. Na linguística, são chamadas de “significantes” que, ironicamente, não significam nada.

As árvores que bombeiam oxigênio no ar que preenchem nossos pulmões de vida e possibilitam as trocas gasosas não significam nada.

A água que bebemos e que cai do céu possibilitando a continuidade da vida não significa nada.

A vida humana não significa nada. Copérnico, Darwin e Freud já nos ensinaram isso muito tempo atrás.*

Mas vocês não conseguem perceber isso. Não conseguem nem ao menos pensar a respeito. Vocês não conseguem lidar com o inexplicável, o não-sentido, o Real, o irracional. Qualquer coisa acontece e vocês imediatamente já têm que atribuir um propósito, uma razão a isso. Tudo tem um motivo, uma causa, uma consequência. Um espirro significa uma gripe, uma posição de relaxamento muscular facial significa um descontentamento com algum evento, um sentimento “negativo”, que inclusive é chamado de “negativo” por que vocês o consideram como tal.

Tudo tem que ter um sentido, e algo só deve ser dito, feito ou expressado se tiver uma razão, se servir a um propósito. Mas se a vida por si própria não tem um propósito, como esperar que qualquer gesto o tenha?

“Mas o que você está dizendo? É claro que a vida tem um propósito”, você deve pensar. É claro. A simples hipótese de que nada tenha um sentido já é assustadora demais para seguir em frente com esse questionamento. Agora mesmo você deve estar querendo pular para o final do texto para saber logo qual será a conclusão dele, qual será a solução que darei para esse problema, para a angústia que provoquei em você ao fazê-lo pensar sobre a existência. Afinal, o texto se chama “A Resposta” e não “A Pergunta”, não é mesmo?

Ou talvez você esteja querendo parar de ler agora e fugir desse sentimento estranho, como faz nas vezes em que está sozinho e em silêncio e busca desesperadamente uma fonte de estimulação para livrá-lo deste incômodo. Você então coloca seus fones de ouvido, assiste a algum filme, visualiza, curte e compartilha fotos e memes ou começa a cantarolar para si mesmo.

A escolha de seguir em frente ou não é sua, mas qualquer que seja sua escolha, sei que assim que terminar de ler irá fazer outra coisa. Ficará remoendo essa ideia por mais algum tempo, alguns minutos, talvez alguns dias, o tempo que for necessário para sua mente racional erguer novas defesas e fazê-lo esquecer de toda essa bobagem.

Como eu sei disso? Por que a vida raramente permite esses momentos de auto-reflexão por muito tempo. E você tampouco os deseja. Você tem que trabalhar e/ou estudar, pagar suas contas, checar seu e-mail e seu smartphone, cuidar das tarefas domésticas, cuidar de sua família ou, se ainda não tem uma, pensar se vale ou não a pena começar uma nova com a pessoa em que está interessado. Você tem que se preocupar com o clima, com a política, com as causas sociais, com a sua sexualidade, com seus problemas de relacionamento, sua saúde (mais física do que mental, até por que, você não é louco), seu perfil nas redes sociais e sua pontuação nos jogos online que agora fazem parte dela.

Você não tem tempo para pensar sobre a vida, por que pensar não bota comida na mesa, não termina seu TCC, não te ajuda a conseguir a promoção que tanto sonhou ou a desfrutar das férias que tanto esperou. Pensar não ajuda em nada, não te dá prazer, muito pelo contrário. Então você recorre a meios para evitar isso. Você bebe, fuma, reza, transa, gasta seu tempo em academias, cursos extra curriculares ou simplesmente em conversas superficiais e repetitivas com pessoas que não conhece de verdade, por que nunca teve tempo ou uma vontade real de conhecê-las. Não fique chateado com isso. Ninguém conhece ninguém – ou a si mesmo – de verdade.

Ainda por aqui? Você quer saber a resposta, não é mesmo? Quer saber o que eu tenho a dizer sobre a vida. “Como alguém que pensa como ele consegue viver no dia a dia?”, “como, e para quê então continuar vivendo?”. Parece difícil, eu sei, mas na verdade não é. A Resposta para esse grande problema é incrivelmente simples, e todos são capazes de chegar até ela: Para isso, tudo o que você precisa fazer é

 

 

 

 

*“A humanidade passou por três feridas narcísicas em seu ego em seu curto período de existência: O primeiro golpe veio com Copérnico, quando afirmou não sermos o centro do Universo. O segundo, com Darwin, quando afirmou não sermos o centro das espécies. E o terceiro e derradeiro golpe, que nos faz sangrar até hoje, veio de Freud, que afirmou não sermos o centro nem de nós mesmos”

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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