Eu pensava nela. Era amargo. Eram duas horas da manhã. Eu preciso acordar cedo, eu preciso viver minha vida, mas não consigo dormir, não consigo parar de pensar nela. Eu já tomei tudo o que eu tinha aqui em casa, já tomei todos os remédios que encontrei, já joguei meu notebook na parede, porcaria, agora tenho comprar um outro computador. Agora tenho que comprar mais bebidas, agora tenho que alimentar mais um pouco meus vícios. Estou sem cigarros. Porcaria, estou sem cigarros. Meu quarto fede a fumo e vômito, acho que deve ter algum inseto por aqui, algum bicho que irá subir pelo meu rosto e cagar na minha boca, roer com suas boca nojenta a sujeira presa entre meus dentes. Eu sei que ele me espreita, só quer que eu durma para fazer seu trabalho safado.  Eu queria sair de casa, mas está muito tarde, eu preciso trabalhar amanhã. Queria ir à praia, esquecer, ver o negro mar ir e voltar, molhar a areia, mas areia e mar me fazem lembrar ela, seu corpo escuro, seus olhos de dor, sua reclamação. O cheiro daqueles cabelos, porcaria, por que fui lembrar-me do mar? Por que arrebentei meu computador na parede? Agora lá está ele, morto, tristonho, torto, fedido. Eu estarei tão próximo dele? Mas isso tudo porque eu pensava nela, seu sorriso, seu corpo, seu sexo úmido, o escorrer de sua saliva… Porcaria.

Também tive vontade de jogar o smartphone na parede, perdão pai Jobs, mas eu não quero mais seus brinquedos. Ainda tem calcinhas dela pela casa, ainda tem aquele perfume que não irei devolver, ainda encontro um ou outro sinal dela. Jornais espalhados, quem lê jornal nos dias de hoje? Eu não lembro quando os comprei. Eu queria ser igual ao meu gato, que dorme despreocupado. Nunca me preocupei de dar um nome a ele, apenas chamo-o de gato, ele não parece se importar. Realmente não acho que ele se importa. Ele apenas dorme, coisa que eu deveria fazer, mas eu rodopio na cama, ainda vejo… Ainda sinto. Mas amanhã, o amanhã está ai para me esbofetear, me chamar de puto e me corroer, quero mergulhar em uma piscina de ácido, sentir minha pele largando dos ossos, meus olhos derretendo até que me transformasse em uma caveira amarga. Era amargo. Ainda sinto o gosto de sua boceta na minha boca, era amargo, amargo como Campari, mas eu bebia, eu bebia, eu lambia, eu morria, eu renascia.

Fui criado apenas com minha mãe e minha avó, uma geração inteira criada por mulheres. Meu pai nos abandonou, teve outra família e sumiu. Eu às vezes o via, eram poucos os contatos, da maioria das vezes era no natal. Ele teve outros filhos, teve outra vida, preferiu  a vida nova, a antiga dava muito trabalho. Minha mãe deu muito trabalho para meu pai, ela era ciumenta, às vezes um pouco mesquinha, continuou assim, nunca a vi com outro homem, talvez isto tenha sido uma mágoa nunca curada, algo que foi descontado em mim, eu era a imagem de meu pai, talvez um mini clone dele e isto a incomodava. Minha avó foi um pouco mais serena, soube dividir o joio do trigo, sabia que eu não deveria ser culpado pelos erros de meu pai, mas, minha mãe era teimosa. Não me lembro de quantas vezes ela disse que me amava, alias, minha melhor memória era quando ela rasgou o presente de dias das mães que eu fiz.

Eu preciso de algo mais forte. Talvez se eu ligasse para meu amigo, talvez, ele conseguisse algo mais forte. Eu precisava ir à lua e voltar em uma única viagem. Minha cabeça rodopiava, meu estomago queria saltar, eu queria saltar junto a ele. Amanhã tenho trabalho, amanhã tenho trabalho, mas que se foda, mas que se foda. Que se foda o mundo, minha mãe deveria ter avisado, meu pai, quando vivo, deveria ter avisado. Mas a vida não é justa, muito menos fácil. Minha avó, do caixão onde tu habitas, do qual mil vermes roem seus ossos, seus avisos não tardaram, mas aconteceram. Ela sempre me disse: “mantenha o pau nas calças”. Mas nunca obedeci.

Ela, eu a conheci no mercadinho próximo a casa de meu pai. Ele já havia falecido. Fumava como uma locomotiva. Seu grandioso emprego de caixa não diminuía a beleza de seus olhos. Eu comprava cigarros, agradecia e partia, de tantas vezes que fiz este gesto maquinal, acabamos puxando assunto. Nunca falávamos sobre nossas vidas, talvez a irrelevância das nossas rotinas fosse desinteressante demais para nós mesmos. Começamos a trepar no nosso terceiro encontro, que se foda os meios termos, o importante era o final. Ela tinha uma vida tão fodida quanto eu, ela queria escapar, ela era viciada em alguma coisa injetável, talvez morfina, não sei. Ela era louca e também queria enlouquecer, saiamos para beber, fumávamos, trepávamos e assistíamos ao Faustão. No outro dia a vida continuava, porém eu ia busca-la no trabalho. Eu ia busca-la na faculdade. Administração, disse ela, administração era o curso que seu pai queria que ela fizesse.

– Seu pai? – eu disse – o meu era um puto. Desistiu da gente e fez outra família.

Estávamos nus na cama. Eu sentia o calor da sua boceta na minha perna.

– Engraçado, meu pai me disse que ele tinha outra família, uma ex-esposa que era muito trabalhosa e um filho que ele via uma vez por ano. Um ingrato, dizia ele, como a mãe tinha sido uma vez. Mas devia ser boa pessoa, todos aqueles que meu pai não gostava, normalmente era boa pessoa.

Me senti em plena queda livre.

– Meu pai morreu– disse ela – fumava como uma locomotiva.

Me senti como um passageiro de um trem prestes a descarrilhar.

– Qual era o nome do seu pai?

Sim ela confirmou. Eu estava comendo a minha irmã.

Não sei em que página da bíblia está escrito que irmãos não podem foder um com o outro, mas na moral Kantiana isto era um pecado absurdo. Eu me senti mal, me senti péssimo. Ela pediu demissão, ela sumiu do mapa. Todos no bairro ficaram sabendo, não sei como. Agora sou o homem que comeu a própria irmã. Talvez o que me incomode tanto não seja este fato, talvez o que me incomode que meu pai fracassou, ambos os filhos eram fracassados por completo, viciados bêbados e putos tal qual sua imagem e semelhança. Tornamos-nos bêbados imbecis que não sabem se estarão vivos no próximo round.

Ele falhou miseravelmente, mas não devia esperar tanto de meu velho.

Eu deveria estar dormindo, o dia está amanhecendo, que se foda, não irei trabalhar. Bem, minha sorte estava mudando, encontrei um cigarro solitário perdido no chão. Ela não tinha terminado de fuma-lo, ainda tinha sua marca de batom. Eu sorri, eu o acendi, seu brilho iluminou meu quarto nas primeiras horas da manhã (quando o sol ainda é um morto-vivo). Eu apenas sorri e disse em voz alta:

– Merda de mundo pequeno.

Anúncios