O ser humano é engraçado: Com o tanto de pessoas que não consegue viver no presente, sempre remoendo o passado ou ansiosos com o futuro, seria de se esperar que nossa espécie já fosse expert em analisar as consequências de suas ações a curto, médio e longo prazo de maneira a conseguir tomar decisões melhores.

Mas não é isso que acontece. As pessoas enxergam o futuro como algo distante, desconectado do presente, e não como algo contínuo, um caminho que vai sendo construído aos poucos, dia após dia depois de cada ação ou decisão que você toma em sua vida.

Um exemplo disso é como lidamos com a educação. Me refiro à etiqueta, politeness, e não ao ensino, education. E é graças a ela e seus defensores que inicia-se o que chamarei agora de

O Processo da Polidez:

1 – Uma pessoa, um filho, um amigo, um cônjuge, alguém importante para outro alguém pergunta para esse outro alguém sua opinião sobre alguma coisa: “O que você achou?”, “ficou legal?”, “ficou bom?”, “você gostou?”.

2 – A outra pessoa não gosta, não acha tão legal, tão impressionante, ou talvez não sinta nada específico, aquilo simplesmente não a afeta de nenhuma forma significativa, mas, por causa da educação, ela responde: “Que legal!”, “que bonito!”, “muito bom!”, “gostei!”. Ao fazer isso, essa pessoa pensa duas coisas:

a) “Dar a minha opinião verdadeira não trará nenhum benefício, poderá ferir os sentimentos da outra pessoa e pra que? Qual seria o sentido de fazer a pessoa se sentir mal apenas para expressar o que eu senti de verdade? Não vale a pena”.

b) “Quando for minha vez de pedir a opinião dessa pessoa, ela fará o mesmo. Ela irá pensar em mim e não irá expressar algo que pense que poderá ferir os meus sentimentos, por que essa é a base da etiqueta social”.

3 – A outra pessoa, cumprindo seu papel nesse contrato social não-dito, faz a mesma coisa. Quando tem sua opinião pedida pela primeira, irá dizer o que espera que a outra pessoa queira ouvir para com isso, evitar um conflito “desnecessário”.

4 – Isso é generalizado em vários aspectos das vidas dessas pessoas. Uma delas faz algo que incomoda a outra, mas a outra fica em silêncio por que “é falta de educação”, por que “não vale a pena”, por que “não trará nenhum benefício”, por que “fica um clima chato”. E a outra pessoa pensa e age da mesma forma. E as duas pessoas vivem em paz, ou pelo menos acham que estão vivendo.

E é aí que a preocupação que essas pessoas têm com o futuro acaba. Elas evitaram um conflito por mais um tempo, conquistaram mais alguns dias de paz. Mas fazendo isso, se mantém em um relacionamento baseado em mentiras. Mentiras “pequenas”, “mentira branca”, como falam ridiculamente, ou como já dito antes, “educação”.

E por dias, meses, anos, tudo permanece “em paz”. Mas com o tempo essas mentiras vão se juntando, se acumulando, criando novos níveis, novas camadas, virando uma bola de neve que cresce com cada mentira nova.

Aí então um dia, esse processo falha e um outro inicia-se em seu lugar:

O Processo do Rancor:

1 – Um dia uma das pessoas se cansa, está estressada com outras coisas, perde o controle racional – e ilusório – que tem sobre suas emoções e “deixa escapar” algo que “não deveria”.

2 – A outra pessoa não entende, não sabe por que a outra está agindo assim, não entende o por que de tudo isso “ela nunca disse nada antes”, “não me deu nenhuma pista”. Essa pessoa se sente atacada, sente raiva e nessa hora todas as pequenas coisas que a outra pessoa fez que a irritaram, todas as pequenas falhas que ela relevou todo esse tempo por “educação” vêm à tona.

3 – Essa pessoa vomita na cara da outra todo esse conteúdo que veio à tona. E a outra pessoa devolve na mesma moeda. Nesse momento – que não costuma durar muito – as duas percebem que essa tão adorada educação não serviu pra porra nenhuma. A outra pessoa é ingrata, é egoísta, “não aprecia e nunca apreciou tudo o que fiz por ela” e, se tiverem sorte, o relacionamento delas, que nunca existiu de verdade – por ter sido fundado em cima de uma mentira – é destruído.

“Sorte?” você pensa. Sim. Por que o mais comum de acontecer é que essas pessoas desabafem, gritem, briguem, descarreguem toda a energia acumulada nesse tempo todo… E então recomecem o processo de novo. E de novo. E de novo. E já na velhice, ao comemorarem suas bodas de ouro, se questionam se existe realmente algo a se comemorar.

Pode acontecer, é claro, de depois de algumas brigas dessas o casal consiga evoluir e ser espontâneo e honesto “daqui pra frente”, mas não consigo chamar isso de “sorte” e sim de “milagre”.

E é claro, hoje em dia o lance das bodas de ouro é muito mais incomum. Os relacionamentos são mais rápidos, superficiais, rotativos… Mas aí a repetição recomeça com pessoas novas: Novos relacionamentos, novos namoros, poliamor, relacionamentos abertos, novos casamentos, filhos e famílias. Mas os processos continuam sendo os mesmos.

“Casal”? Mas do que estou falando? Como eu disse no começo, isso acontece em qualquer tipo de relação humana existente: Pais, filhos, parentes, amigos, colegas de trabalho, colegas de quarto… “Por que onde estiverem dois ou três reunidos…” vai ser uma merda do mesmo jeito.

E a triste ironia, que pode te fazer rir ou chorar, é que se as pessoas tivessem sido honestas umas com as outras desde o começo, elas poderiam perceber que a outra não se importa tanto assim com a sua opinião honesta. Não era tão ofensivo, tão cruel, tão desrespeitoso quanto você imaginou todos esses anos. No final das contas ela poderia até ter te agradecido por ela, e a poderia ter usado para melhorar a si mesma.

– Mas você sabe que não é assim, David. Nem todas as pessoas são tão tolerantes, algumas ficam sim ofendidas por pouca coisa e se afastam. E aí você corre o risco de ficar sozinho.

Você está sozinho.

Você pode estar no meio de dezenas de pessoas e ter milhares de amigos nas redes sociais, mas se nenhuma delas sabe o que você realmente pensa, se nenhuma delas te conhece, sabe realmente quem você é, o que você sente, quais são seus valores, você está sozinho.

Quanto a mim, você pode achar que estou literalmente sozinho (não estou, tenho poucos mas bons amigos, o que é mais do que suficiente) mas eu te garanto: Sozinho ou não, com certeza estou em melhor companhia do que você.

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