Textos

A sombra no espelho.

O que eu quero contar?  Talvez seja o maior dilema de um escritor. Quem é escritor? Quem estou querendo enganar? Talvez este seja o outro maior dilema de um escritor. Eu poderia ficar horas e horas vendo vídeos inúteis no Youtube, quem não gosta de gastar o precioso tempinho vendo os vídeos inúteis no Youtube? Este é o terceiro maior dilema do escritor. Eu realmente queria fazer uma história grandiosa, algo nunca pensado pela humanidade, igualzinho o cara que escreveu a bíblia. Escrever O livro é complicado, você precisa ter muita vivência, saber gramática direitinho para colocar os pontos e as vírgulas no lugar. Mas se você, por acaso, se você não tem a cabeça no lugar, dificilmente irá colocar estes sinais gráficos tão bem situados. Bem, pode-se começar com alguma história simples, personagens carismáticos. Nunca me falaram que eu era carismático, sempre tive poucos amigos, poucos e bobos, poucos e loucos. Talvez não fossem meus amigos de verdade. Tinha uma excursão na escola, realmente coisa de escola, íamos para o parque. Na minha fantasia juvenil, o legal era a viagem, e eu tinha um melhor amigo. Digamos que esta amizade era unilateral, sua mãe o obrigou a ir comigo na viagem. Eu era uma criança, talvez mais criança do que todas as outras. Tudo bem, sempre fui um idiota.

Mas ainda sou um idiota, um idiota com um tacape na mão, igual a um torcedor de futebol ou um homem das cavernas. Um idiota com um teclado na mão, em ambas as mãos. Os escritores de verdade usavam máquinas de escrever. Pesadas, sujas e barulhentas, errar uma palavra no fim da página deixava toda a ideia inviável. Agora posso apagar sempre que quero, basta apertar um botão idiota e puf tudo está apagado. Seria o infanticídio do texto, estou matando aquilo que mal criei e dei asas. Seria como afogar um bebê numa banheira, cruel, satânico, humano, mesquinho. Descritivo? Outros escritores teriam feito melhor, porém eu não deixo de ser um idiota humano com ares de grandeza. Visto minhas roupas e vou para o meu trabalho, volto e me enclausuro no escuro/úmido da minha caverna e começo a bater nas teclas tal qual os antigos faziam. Eu não morrerei de tuberculose porque a santa medicina resolveu esta pequena rusga.

As pessoas gostam de solilóquios. Tudo bem que tem muita gente que parou este texto para pesquisar o que é um solilóquio. Eu não quero me parecer inteligente, talvez até queira, mas o solilóquio faz parte da ideia central. Eu estava andando, eram nove da noite, eu voltava da casa de minha noiva. Escrevo no passado porque faz algum tempo que isto aconteceu. Eu voltava da casa da minha noiva e senti que estava sendo seguido. Era uma sombra, não via seu rosto, não via suas roupas, apenas a forma obscura, o contorno lúgubre atrás de mim. Eu tinha sido recente-assaltado, ainda estava temeroso pelo pouco nada que tinha. Quis correr, mas se corresse não duraria muito, sou gordo, estou gordo e pesado, noventa quilos de pura banha e alegria momentânea. A sombra manteve seu passo frio e silencioso, meu coração ululava em meu peito, queira sair pela boca, não faltava muito para eu estar na segurança de meu lar, mas ainda sim, poderia ser morto. Estripado, degolado, morto. Morto. Morto. Consegui chegar em casa ofegante, minha testa brilhava de suor. A noite estava tão quente, era um pedaço infernal de nada. Minha casa escura, ninguém, haviam saído? Eu tateei pelo interruptor e não encontrei. Também não conhecia aquele carro, aquela porta, aquela sala, aquelas roupas, aquela televisão. Aquelas fotos não eram de minha família, aquele lugar não era meu lar, meu descanso, meu ópio. Eu não sabia onde eu estava, entrei na casa errada? Não sei. No sofá a sombra me esperava. Não pude ver seu rosto, mas vi seu sorriso, negro, fétido, mortal. Ele me seguiu até aqui, eu entrei em seu lar, em sua casa, naquilo que a sombra acreditava. Ela disse para mim; “desista, você é um inútil”.

– Vá à merda! Eu não sou um inútil! – eu disse, tão heroico, tão bravo. Eu me cagava de medo, a sombra ficou puta da vida, levantou-se e encarou-me também. Eu queria chorar, eu queria minha mãe.

– Você precisa relaxar, tome – a sombra me deu uma arma, o metal frio machucava minha mão – encontre sua razão.

Eu ouvi o barulho do disparo. Vi no rosto da sombra, seus olhos amarelados, o que aconteceria.

Eu acordei, era domingo, dormi com os fones de ouvido. Três da manhã de domingo, eu deveria ainda continuar dormindo. É o único dia que eu tenho de pura felicidade. Eu deveria estar dormindo. A ideia surgiu, e se eu escrevesse sobre o dia que uma sombra me perseguiu? E se eu escrevesse sobre isso? Seria fantástico, seria maravilhoso.

Seria? São meros devaneios tolos, apenas ideias perdidas em um mar maluco de sonhos imperfeitos. Lembro-me do rosto da sombra, lembro-me da sombra no espelho. Lembro-me dos seus olhos amarelos e das suas palavras frias. Sorria ela disse, sorria. Sorria com sinceridade, seu lado sombrio também é o seu amigo.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “A sombra no espelho.

  1. Vc conseguiu escrever isso. Obrigado.

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