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Definitivo Adeus

A madrugada estava fresca e as ruas desertas. Os cheiros chegavam de toda parte e sendo-lhe o olfato seu melhor sentido, sorvia-os generosamente.
Caminhava solitário. Ia reparando que muita coisa havia mudado na pequena cidade de sua infância e adolescência. Muitos anos haviam se passado. Talvez anos demais. Teria sido certo voltar? Teria errado em procurar vestígios do seu passado? Por décadas tinha adiado aquele momento.
Concentrou-se nos cheiros. Dos jardins, fragrâncias de flores ora sutis, ora inebriantes… Dos poucos pomares, o aguçado odor das frutas cítricas e maduras. Mas eram das casas que lhe chegavam os melhores. Cheiros de alimentos mornos, carne misturada com alho e mostarda, doces açucarados, caramelizados, lambuzados de mel e delícias. Aspirava lentamente.
Procurou pela sua rua e pela sua antiga casa. Reconheceu-a, embora muitas mudanças a envolvessem. Postou-se em frente ao portão e escutou. Nenhum latido de cão, nenhum gato moroso a pular nos muros.
Buscou pelos cheiros. Alguns lhe chegaram, mas tão estranhos às suas lembranças e tão insípidos que não soube distingui-los. Puxou então pela memória. E as imagens, de tão reais, se tornaram palpáveis, concretas: bolos quentes com margarina a derreter sobre eles; pães doces cujo aromas despertavam a fome e a gula. Comidas simples: a omelete de espinafre com ovos; a pipoca doce grudando nos dedos e nos dentes; o doce de leite derramando da panela… E uma voz tão sua conhecida ecoando pela cozinha: ”Mãe, faça um bolo simples, pra eu comer com margarina”…
De olhos fechados foi se afastando. Não queria guardar nas retinas as mudanças. Queria guardar o passado. O passado longínquo, o passado que era dela e que amava.
Caminhou de volta. Sabia que não percorreria mais aquela cidade. Não mais lhe pertencia. Não levou tristeza. Não sabia mais senti-la.
Empurrou o portão e os cheiros, agora familiares, lhe chegaram. Andou sem pressa até o lugar tão seu conhecido. A mãe o esperava sobre a laje fria e úmida de sereno. Sorriu-lhe. Não se falaram, tinham o tempo da eternidade. Juntos esperaram os primeiros acordes da manhã. Juntos voltaram aos cheiros acres e primitivos da terra.

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Nasci e cresci em uma cidade bem pequena no interior do Paraná. Sempre gostei muito de ler e ainda muito pequena comecei a escrever minhas próprias histórias. O gênero que mais gosto de escrever é fantasia, inclusive tenho dois livros publicados com essa temática, um romance ‘Sete dias de Lázaro’ e um livro de contos ‘Contos de Quase Fadas’. Minha mente é povoada por inúmeros seres fantásticos, mas o meu preferido são os dragões. Escrever para o blog “Saco Cheio e Mau Humor” está sendo uma experiência ótima. Ter um canal para externar algumas das minhas inúmeras ideias que se acumulam dentro de mim. Abro meu mundo para vocês. Sejam bem vindos!

2 comentários em “Definitivo Adeus

  1. Pingback: Dia de Reblogagem – ESTRANHAMENTE

  2. Olá, gostei muito do seu texto. Acabei o compartilhando com mais pessoas através do meu blog. Sucesso!

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