Deus de Sangue

O tempo passa, as horas correm. O ponteiro é o Deus que governa a ilusão que chamamos de vida. O barulho do relógio é o prelúdio que define o início e o término de uma vida. Somos simples animais presos no zoológico governado pelo senhor do tempo.

Na pele sentimos as marcas de uma vida, ao olharmos para nossas mãos conseguimos ver cada nódulo que se formou com o tempo. Somos perenes, perecíveis, descartáveis, criações de um Deus que tirou de nós o direito a eternidade. No fundo somos simples sombras do que um dia fomos destinados à ser.

Cara senhora Adelaide, escrevo lhe esta carta para informar que sua filha Amélia está morta. Sim, eu a matei. Da maneira mais ridiculamente torturante e indigna que encontrei, e tudo isso para que enquanto o barulho do relógio continue a soar, vidas vazias e sem sentido, como a dela, encontrem finalmente o motivo pelo qual o criador permitiu sua existência.

Ontem vi que estava aos prantos em uma reportagem no horário nobre da televisão. As lágrimas escorriam como uma cascata sem fim, aos soluços e com a câmera dando close nos olhos vermelho de tanto chorar, pediu, na verdade, implorou para que o monstro que raptou sua filha devolvesse-a. Prazer, eu sou o monstro.

Não pense que suas lágrimas me tocaram, despertaram algum tipo de remorso ou tristeza no meu coração, muito longe disso, minha mente chegou à fantasia a possibilidade de que a senhora chorasse a ponto de suas lágrimas se tornaremcascatas, e eu pudesse afogar você e sua filha nelas, mas como disse antes, ela já está morta, então só posso alimentar essa deliciosa fantasia.

De alguma maneira sádica (Sim, tenho total consciência de que sou assim, e fico feliz por assim ser) seu vexame em rede nacional, aliado à incapacidade dos policiais concluírem um caso consistente para me pegar, tem tirado o tesão e o propósito dos meus atos.  Para reverter a situação decidi fazer um pequeno jogo com vocês, ele se chama: “ Ache o Corpo da Garota Morta”, ou ACGM para abreviar. Mas antes preciso contar como matei a sua filha, cada um dos detalhes sórdidos, afinal, não era isso que você queria? a verdade?

Conheci Amélia a três meses atrás. Estávamos em uma festa, ela queria ser o destaque, o centro das atenções, isso era visível e risível. Ela estava vestida com um curto vestido vermelho que mostrava até o seu âmago. Seu rosto em destaque pela forte maquiagem de festa, mas o que realmente realçava sua beleza vulgar eram os grandes e carnudos lábios vermelhos.

Ela parecia uma máquina de beber, virava loucamente um shot de tequila atrás do outro. Toda a situação era um jogo pra ela, e se conseguisse chegar ao final, ela ganharia prestígio e amor.

Nas semanas que se seguiram, mas especificamente três, me aproximei dela. Esbarrei nela durante uma balada e começamos a conversar. Ela, sempre fácil e carente, logo se entregou a alguém que mostrou um pouco de interesse em sua vida.

A pele dela me atraia, a juventude de suas mãos, a ausência de marcas de envelhecimento ou a menor das rugas em sua pele.  Em contraponto, minhas mãos ficavam cada vez mais ásperas, as rugas começavam a aparecer abaixo dos meus olhos. Eu precisava do meu ritual, de uma oferta de juventude.

Na noite do dia 10 de Abril convidei-a para minha casa. Ela entrou, ficou encantada com meu requinte estilístico impresso em cada detalhe do ambiente. Como sempre, abriu um belo sorriso, e pediu uma bebida, providenciei um copo com vinho chileno.

As horas correram apressadamente, ela estava fogosa, enquanto se embebedava descia, sua mão pela minha calça e apertava firmemente o volume que se formava. Em um movimento de vai e vem, ia me excitando e fazendo-me deseja-la.

Peguei-a no colo, levei-a para a cama e começamos a nos beijar. Tirei sua roupa e começamos a transar. O tesão e o desejo inundaram o meu corpo, a juventude do ato libidinoso me alimentou, e por alguns segundos fui transportado para o meu verdadeiro propósito, ser eterno.

Entre um respirar profundo e outro, o sentimento de eternidade foi abandonando meu corpo e percebi que, mesmo que transasse intensamente com ela todos os dias, ainda estaria distante do propósito de existir. Naquele momento deixei-a adormecida na cama, fui até a garagem, peguei minha maleta de ferramentas e retornei.

É normal após o sexo as pessoas adormecerem, e com ela não foi diferente. Enquanto ela dormia, amarrei seus braços e pernas na cama, preparei minhas ferramentas e então finalmente decidi acordá-la.

Ela me encarou assustada tentando se soltar, mas depois de alguns minutos percebeu que aquele seria o seu fim. Tenho que admitir que a postura dela me impressionou, ela implorou pela morte poucas vezes, era como se já estivesse preparada.

Com minha mão esquerda, segurei firmemente seu rosto,tapando sua boca, enquanto seus olhos marejados se encontravam com os meus, com a outra mão, peguei um bisturi na caixa de ferramentas, pressionei na lateral do seu rosto, fiz uma pequena incisão e comecei a cortar até o centro superior da cabeça. A dor foi tão intensa que ela logo desmaiou.

Tirei a mão da boca dela, afinal, ela estava desmaiada, e continuei a cortar o restante do rosto, depois de uns 10 minutos, consegui circundar todo o perímetro com o bisturi.

O que mais me interessava vinha a seguir. Peguei o bisturi com a mão direita e com toda força que consegui, pressionei na lateral direta do pescoço dela, atingindo precisamente sua artéria carótida comum direita. Quando retirei, uma fonte de sangue jorrou atingindo as paredes e o lençol.

Era belíssimo, vivo, jovem, viscoso, a manifestação de tudo que é eterno. Aquela cena me atraiu, tomado pelo impulso, me joguei na frente daquele jato intenso, e todo meu rosto e corpo foi banhado pelo líquido da vida.

Levei as mãos até o meu rosto e comecei a espalhar todo o sangue em cada parte, sentia meus cabelos tomados pela umidade, era como se eu tivesse 25 anos novamente.

Depois de 10 longos minutos, o líquido foi secando e aderindo a minha branca pele. Sentia que precisava de mais, muito mais. Voltei ao rosto dela e terminei de arrancar a pele da carne, segurei-a firmemente em minhas mãos, estava quente, e me chamava, e a voz era como a do criador, que me guiava para o propósito da existência.

Coloquei o rosto dela sobre o meu e senti sua juventude transpassar minha pele, inundar a rugas abaixo do meu rosto, e preencher a velhice que me atingia.

A futilidade da vida da sua filha cumpriu seu propósito, afastar de mim o senhor do tempo, e transformar um simples homem em um Deus.

Somos todos humanos separados dos deuses por algo chamado mortalidade, mas para alguns, um seleto grupo, do qual faço parte, ela pode ser afastada, e isso porque seres asquerosos e sem propósito, encontram na cruel morte um sentido para a vida.

Dentro da caixa encontrará a minha mensagem, o rosto da sua filha (ele não tem mais propósito para mim, já tenho uma nova vítima em mente) e como prometido o código para achar seu corpo. Mais uma dica: você só tem 24 horas, depois disso sua filha será um  monte de excremento, em vida e na morte.

O corpo da sua filha está dentro de uma cobra no rancho do javali. Na cidade do Gama, na Ponte alta norte. Corre, você só tem 24 horas até a cobra terminar de digeri-la.

 

etnop atla etron. erroc, ecov os met

amu arboc on ohcnar od ilavaj. Na edadic od amag, na

42 saroh eta a arboc raimret ed al-irgeid.

O oproc ad aua ahlif àtse ortned ed

 

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Autor: Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

3 comentários em “Deus de Sangue”

  1. Uau! Então eu paro e penso: – Em que lugar e com quem o escritor estava? Será que vendo uma série? Observando jovens ou velhos? Cozinhando o jantar… Na companhia de alguém que lhe atraia… inúmeras possibilidades.

    Curtido por 1 pessoa

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