Ele era mano,
curtia um rap num bom som.

Arcava com o próprio mé,

antes de trampar rezava com fé.

 

 

Ele era malandro,

mexia comigo sem causar dano.

Aquele dialeto desleixado,

boné virado pro lado.

 

 

Ele era parceria,

não tinha essa de largar na esquina.

Comprava conversa ,

pra caba com as intrigas.

Era paz!

 

 

Ele era salvador,

arrancava as pessoas das treta.

Era o jeito dele de amor

falar disso abertamente é careta,

ele me chamava de preta.

 

 

Ele era responsa,

com lona fez piscina pras crianças.

Simplicidade pra ele era nobreza,

falava assim…

– Etiqueta é educação, né não jão!?

 

 

Ele tinha um sorriso fudido,

tão lindo quanto atrevido.

Um homem menino.

Era meu amigo,

era pai do meu filho.

Ele era um bom maloqueiro,

era honesto,

era pedreiro,

era negro.

Era bonito.

Era querido!

 

Agora?

Pelo sistema,

esquecido!

Ele era, favela.

Ele morava,

lá… na nova senzala.

De super desfavorecidos, lotada!

 

 

Pra polícia?

Mais um drogado comum!

(mesmo sem droga)

Mais um tiro num peito comum!

Mais um bandido comum!

Mais um.

Um morto!

Um luto roxo de pobre.

Um dia que ninguém socorre.

Agora ele é,

mais um Zé.

Morreu,

todo sonho escureceu.

 

Ainda tenho que chamar de sinhô, de doutô?

– Oh doutô por que disparou?

– Só porque ele respirou?

 

 

Eu, como tô?

Perdi o meu amô,

viúva sem justiça

e com dor.

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