Sua primeira decepção.

Ela era aquela garota que se apaixona rápido. Uma amante a moda antiga, que escutava John Coltrane enquanto fumava seus cigarros e bebia seu vinho barato. Vinho barato, vida barata. Ela tinha aquela filosofia de viver com o mínimo possível, dizia-se vegana aos domingos, porém aos sábados se entregava a carne como nenhuma outra mulher um dia já o fizera. Mas ela tinha este defeito de se apaixonar rápido e de gostar de um tipo de música que ninguém mais ouvia. Ela tinha disto, gostava das coisas que ninguém gostava.  Este seria seu diferencial?  Ouvir tal palavra estremecia sua alma inquieta. Buscara um diferencial quando adolescente queria ser A diferente, mas acabara isolada e triste, aprendera na solidão encontrar a si mesma, aprendera a ser ela mesma quando se desiludiu a primeira vez.

E não foi um amor.

Não foi um amor, ela pensou em uma madrugada qualquer. A tosse e o engasgo veio fazê-la levantar. Malditos cigarros, malditos. Era um vício, um por vez, nunca era bom misturá-los. Ela não queria viver eternamente, precisava fazer a grande roda girar, mesmo se matando daquela forma. Talvez a chegada do final de semana, a animação do descanso, a porcaria do subemprego, que porcaria. Trabalho sem um futuro pré-definido. Por que ela definiria este futuro? Não sabia a resposta, nunca saberia. Talvez viver um dia planejando apenas o outro fosse um modo novo de viver, quantos jovens não fazem isto e estão felizes?

Ela não estava feliz.

Mas tirava sorrisos dos cabides, trabalhava como vendedora de uma conhecida franquia de óculos estilizados. As meninas bonitas faziam parte da vitrine, uma beleza exótica, com tatuagens e cabelo cortado de maneira extravagante, seu estilo ajuda a vender, sua beleza ajuda a vender. Mas a sensação de vazio, seu rostinho bonito, nada mais do que isso. Ela lia, ela escutava, ela assistiu filmes de grandes diretores, ela conversava sobre política, falava sobre qualquer assunto, porém o assustador rostinho bonito, aquilo que a transformaria em um troféu.

Talvez se contentasse em ser uma vitrine, se contentasse em amores banais. Ela, esta romântica a moda antiga, esta pessoa que bebia e sofria. Ela, com toda esta sua intensidade de adolescente, alguém jovem e enérgico (apenas 21), alguém que pinta os cabelos de cores além da paleta comum. Ela não se importaria com o amanhã? E quando ela envelhecesse? E quando o mundo deixasse de ser mundo? Ela e seu gosto bizarro por garotas morenas, ela e seu gosto bizarro por homens estranhos, ela e seu gosto bizarro por Jazz. Ela e suas palavras cruzadas, suas decepções.

Naquela madrugada ela pensou em seu pai. Um herói caído fez de tudo para tentar colocar sua família nos eixos. Fracassou, o trajeto do homem fracassado, com um filho indesejado, um casamento conturbado, e com um alcoolismo que ceifaria sua vida. Porém, no turbilhão daqueles milhares de problemas, ele ainda sorria para ela. Ela nunca conseguiu saber de fato se estes sorrisos também eram tirados de cabides, talvez não. Talvez fossem sinceros. Os momentos, poucos, que passara com seu pai vinham a tona em forma de lágrimas e saudades. Aqueles momentos ímpares, onde ela viveria o dia da marmota, aquele momento infinitamente sem uma resolução. Ela viveria esta rotina para todo o sempre, porém tudo acabou e agora ele estava no cemitério, junto ao avô.

Ela se decepcionou com o único e verdadeiro homem de sua vida.

Ela se decepcionou com os outros homens de sua vida.

Ela se decepcionou com as mulheres que, por sua forma, foram homens por alguns momentos.

Agora estava só no mundo, longe de tudo e de todos. Tinha sua garrafa vazia e o resto da noite para sobreviver, os pensamentos obscuros e o ambiente lúgubre, as pesadas portas que se fechavam nas delongas de sua micro vida. Ondulava-se, pendurava-se na obscuridade de suas semanas, com seus sorrisos falsos, mas esta era a dura vida, a dura verdade, a verdade que todos um dia terão que encarar, não existe a eternidade, e tudo será o vácuo escuro do nada e da perdição.

Ela acendeu seu cigarro, iluminou o obscuro de seu quarto, tateou o móvel até encontrar o celular. Sim, ela estava viva, aquele pequeno  lampejo eletrônico a trouxe de volta para o mundo dos vivos. Na tela uma foto dela criança no colo de seu pai. Sua primeira decepção.

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