Meus olhos estavam escuros e vazios. A neblina assumiu seu lugar de direito, minha amiga constante. Uma vida sem luz carrega ao seu lado a densa névoa da tristeza e aceita caminhar acompanhado dela a todo instante.

Minha pele era fria e insensível. Uma grossa camada de escamas assumiram e tragaram toda a sensibilidade ao toque, a capacidade de sentir inerente a cada ser.

Quando abria minha boca só era possível escutar grunhidos. Sons sem sentido de alma calejada pelas dores que trouxeram a inerciam e a dormência.

Meus dedos tateavam pelos rostos que encontravam na frívola tentativa de sentir, identificar-se ou simplesmente ser capaz de ler os sentimentos de uma pessoa pelo toque.

Um dia desisti, e atirei-me no precipício insólito da depressão. Deixei que cada alma atormentada do abismo me consumisse, e se apoderasse do que deveria ser minha alma.

Na densidade da escuridão que cobria o caos do abismo, uma luz surgiu. Um lampejo de luminosidade resplandeceu na densa superfície.

No céu, uma voz doce e suave surgiu. Ela inicialmente chamou meu nome, mas eu não respondi, e uma vez mais, ela clamou por mim, mas o retorno que recebeu foi o silêncio.

A luz se apagou por um momento, e meus olhos fechei, acreditando que o derradeiro fim havia chegado.

Segundos se passaram, e de repente, os céus se abriram. Uma calejada mão se estendeu, agarrou minha alma e puxou para fora do abismo.

Quando cheguei a superfície, uma doce senhora me aguardava. Ela era alva como a neve, uma luz encobria seu corpo, e seu sorriso era resplandecente. Ela agarrou-me com toda sua força, juntou meu corpo ao seu e me abraço.

Minhas lágrimas tornaram-se as dela, e em questão de segundos estávamos soluçando. Pela primeira vez na vida, me sentia feliz de chorar, tirar de mim toda a tristeza entulhada. A frieza foi domada pelo calor do abraço, e depois de longos anos, finalmente me senti seguro. Foi como se o direito de pertencer a algo ou alguém tivesse retornado ao meu corpo.

Algumas coisas marcam nossas vidas. Sentimentos, memórias, pessoas, paisagens e principalmente gestos. O abraço de Maria me envolveu naquele dia, e pela primeira vez percebi que o abismo não me pertencia, e eu não pertencia a ele.

 

 

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Sobre Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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