Meus olhos estavam escuros e vazios. A neblina assumiu seu lugar de direito, minha amiga constante. Uma vida sem luz carrega ao seu lado a densa névoa da tristeza e aceita caminhar acompanhado dela a todo instante.

Minha pele era fria e insensível. Uma grossa camada de escamas assumiram e tragaram toda a sensibilidade ao toque, a capacidade de sentir inerente a cada ser.

Quando abria minha boca só era possível escutar grunhidos. Sons sem sentido de alma calejada pelas dores que trouxeram a inerciam e a dormência.

Meus dedos tateavam pelos rostos que encontravam na frívola tentativa de sentir, identificar-se ou simplesmente ser capaz de ler os sentimentos de uma pessoa pelo toque.

Um dia desisti, e atirei-me no precipício insólito da depressão. Deixei que cada alma atormentada do abismo me consumisse, e se apoderasse do que deveria ser minha alma.

Na densidade da escuridão que cobria o caos do abismo, uma luz surgiu. Um lampejo de luminosidade resplandeceu na densa superfície.

No céu, uma voz doce e suave surgiu. Ela inicialmente chamou meu nome, mas eu não respondi, e uma vez mais, ela clamou por mim, mas o retorno que recebeu foi o silêncio.

A luz se apagou por um momento, e meus olhos fechei, acreditando que o derradeiro fim havia chegado.

Segundos se passaram, e de repente, os céus se abriram. Uma calejada mão se estendeu, agarrou minha alma e puxou para fora do abismo.

Quando cheguei a superfície, uma doce senhora me aguardava. Ela era alva como a neve, uma luz encobria seu corpo, e seu sorriso era resplandecente. Ela agarrou-me com toda sua força, juntou meu corpo ao seu e me abraço.

Minhas lágrimas tornaram-se as dela, e em questão de segundos estávamos soluçando. Pela primeira vez na vida, me sentia feliz de chorar, tirar de mim toda a tristeza entulhada. A frieza foi domada pelo calor do abraço, e depois de longos anos, finalmente me senti seguro. Foi como se o direito de pertencer a algo ou alguém tivesse retornado ao meu corpo.

Algumas coisas marcam nossas vidas. Sentimentos, memórias, pessoas, paisagens e principalmente gestos. O abraço de Maria me envolveu naquele dia, e pela primeira vez percebi que o abismo não me pertencia, e eu não pertencia a ele.

 

 

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