Teçá fazia jus ao nome que o chefe da tribo, seu pai, lhe dera no dia de seu nascimento. Seus olhos corriam pela mata e, mesmo no escuro, conseguia distinguir pequenos animais escondidos entre as árvores. Atrás dele a comitiva formada por jovens e fortes guerreiros e alguns mais experientes se espremiam entre um tronco e outro tentando abrir passagem sem fazer muito barulho.
Estavam agora muito próximos da montanha do morcego e qualquer deslize poria toda a missão por terra e as vidas daqueles homens estariam perdidas.
Todos sabiam que lutar contra uma tribo de cupendiepes não era fácil e conheciam o perigo que enfrentariam. Pintaram os corpos com urucu e sangue de porco do mato para disfarçar o cheiro humano e confundir o olfato apurado dos monstros. Escolheram os melhores homens, aqueles que sabiam caminhar pela floresta em silêncio, para tentar uma chegada surpresa, enganando os ouvidos de morcego. Mas depois que se iniciasse a luta, nada poderia defendê-los das garras que rasgavam até mesmo a pele dos jacarés que habitavam o grande Araguaia. Por isso o plano era matar quantos cupendiepes conseguissem antes que a tribo pudesse se organizar para o embate com seus machados e garras.
Achegaram-se o mais próximo da entrada da caverna que se atreviam e aguardaram a chegada do sol. Com o findar da noite vieram os gritos das bestas que se preparavam para dormir após saquear alguma tribo dos arredores. Alguns guerreiros taparam os ouvidos quando perceberam que o grupo trazia um refém e este gritava por socorro. Uns queriam ajudar, mas Teçá sabia que não poderiam salvá-lo. O sabor do sangue já estava na boca de todos os cupendiepes o que só faria com que lutasse mais ferozmente. Não podia arriscar a vida de seus homens, por mais que também quisesse salvar o pobre cativo, eram seus guerreiros que estavam sob sua responsabilidade e a eles que deveria proteger. Aquela era a única chance que tinham de vencer os cupendiepes e acabar com o tormento que assolara em suas vidas depois da chegada deles por ali.
Então esperaram. Os gritos não duraram muito, logo cessaram, e o silêncio era quebrado apenas por sons guturais de ossos sendo mastigados. Um dos guerreiros vomitou. Teçá, assim como todos os outros, fingiu não ver, e esperaram mais. Até o momento em que acreditaram que os monstros tinham todos dormido.
Esgueiraram-se silenciosamente até a boca da caverna, cada um levando consigo uma tocha acessa. O fogo era a arma mais eficaz contra aquela besta. Deixá-los-iam cegos e confusos dando tempo para os índios atacá-los. Sem isso, não teriam chance de vitória.
Uma linha humana foi feita na entrada da caverna, e todos os homens ergueram suas tochas acima da cabeça, com cuidado, como tinham feito no treinamento. Os cupendiepes estariam dormindo do teto e não poderiam errar.
– Agora!
Teçá gritou ao mesmo tempo em que dava o primeiro passo para dentro da caverna. Os outros o seguiram atiçando fogo em qualquer coisa que encontrassem. Atingiram as cabeças dos monstros, já que dormiam dependurados e, seus gritos preencheram toda a caverna.
Os pelos curtos que cobriam todo o corpo fizeram com que o fogo se alastrasse rapidamente e em instantes havia uma dúzia de tochas voando desesperadas pela caverna. Os índios se agacharam para se protegerem enquanto os cupendiepes investiam contra eles. Os corpos besuntados na baba da babosa os protegeram de morrem todos queimados e os machados esquecidos no canto da caverna não serviriam de arma naquela luta. Ainda assim os cupendiepes tinham suas garras. E eram absurdamente fortes.
Teçá viu Joaci e Araruna serem arremessados contra a parede de pedras pelo mesmo cupendiepe em chamas. Os índios atacavam com suas lanças de pontas envenenadas, mas as bestas eram difíceis de matar, mesmo estando pegado fogo, e perderam muitos homens na batalha. Mas venceram.
Aos poucos os monstros foram caindo um a um, agonizantes se contorcendo e gritando e os índios iam lhes tirando a vida, mergulhando as lanças em seus peitos desalmados.
O sol ainda não tinha atingido seu ponto mais alto quando a comitiva liderada por Teçá iniciou a decida para casa. Menos da metade dos homens retornavam, mas estavam felizes, pois as mortes não tinham sido em vão. Todos os cupendiepes tinham sido mortos e sua tribo dizimada.
Não é fácil um índio se transformar em cupendiepe, a maior parte morre antes da transmutação, então estariam livres dessa praga por muito tempo.
Ao chegarem na tribo foram recebidos com festejos e honrarias, mas naquela mesma noite mais dois guerreiros morreram, tinham sido arranhados. Ainda assim estavam em festa.
Na madrugada Teçá, sem conseguir dormir, deixou sua oca e foi conversar com a lua, agradecer os espíritos antigos pela vitória. Os cheiros das comidas do festim ainda impregnavam suas narinas, apesar das fogueiras já estarem apagadas há horas. Sons dos insetos lhe chegavam claros e perfeitos aos ouvidos, e o pio de uma coruja soou tão perto como se estivesse na árvore a sua frente, mas ele tinha certeza que ela estava a quilômetros dali.
Entrou na mata e quando teve certeza de que ninguém o veria tirou a vestimenta de penas de arara e procurou o que tinha certeza estar ali. Encontrou abaixou da coxa direita. O rasgo que lhe perfurara a carne não doía ou sangrava. Mau sinal. Com aquele ferimento já era para estar morto, mas para seu desespero, percebeu que isso não aconteceria. Era jovem, forte e valente. Aguetaria a transformação.
Respirou fundo e correu. Não olhou para trás. Não se despediu de ninguém. Não teria coragem. Apenas correu. Parou na caverna onde no dia anterior tinha acontecido a batalha mais importante de sua vida e escolheu o maior e mais afiado dos machados ali esquecidos. Demorou seus olhos nas árvores tão suas conhecidas e nas águas do seu querido Araguaia, depois foi-se embora. Tinha chegado a hora de ser chefe. Formaria sua própria tribo.

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