Existem algumas coisas simples que não damos valor, talvez por isto exista a nostalgia: um punhado de memórias boas de coisas que ficaram lá trás, em um tempo que pode ser pintado com cores diferentes. Nós, humanos, vivemos uns cem anos, talvez. Sinceramente, creio eu, que este tempo é muito desperdiçado em frivolidades, em discussões banais para descobrir quem está certo ou errado de assuntos que nunca serão inerentes a nós. Perdemos nossa vitalidade em preocupações que não nos levarão a nada, ou nas batalhas eternas para pagar dívidas tão longas quanto a vida do mais velho dos homens.

Por isso os cães são felizes, vivem no máximo dezesseis anos.

Eu era criança quando ganhei meu primeiro cachorro.

Vim de outra cidade, trouxe em minha bagagem muita solidão. Eu tinha meus doze anos, em um lugar novo, completamente diferente. As outras crianças zombavam de meu sotaque, de minha forma de expressão. Curioso que existia uma espécie de inveja velada nesta zombaria que, mesmo eu infante, conseguia entender. Logo, nunca me aborreceu deveras, tais zombarias, porém mesmo para os mais forte dos garotos, a solidão é uma companheira amarga.

Meus pais me presentearam. Ele, tão pequeno e forte. Uma raça que não cresce muito. Tinha um nome estrambólico. Tenho muito apreço aos animais, sua amizade é sincera e fiel, mesmo que não seja bilateral (da parte dos humanos, os animais sempre irão nos amar). O pequeno cachorro tinha um jeito engraçado, por ser magrinho e pequeno, corria rápido pela casa, e sempre estava tremendo. Seu latido estridente poderia espantar, porém nada muito preocupante. Mas quando ele ameaçava ele cumpria, por diversas vezes ele mordeu visitas indesejadas de parentes chatos, por dentro eu ria, as vezes ria por fora também.

Digo que os cães sabem aproveitar a vida. Eles vivem com muito pouco, quase nada. Seus únicos pertences são duas tigelas, uma com água e outra com ração, e alguns brinquedos de morder que não duram para sempre. Em todos seus dezesseis, no máximo, de anos, eles terão o mínimo possível. Se pudessem sorrir eles sempre sorriam, porém seus sorrisos ficavam próximos as suas bundas, abanando a inquieta cauda.

Brincávamos. De alguma forma eu conversava com ele, eu sei que ele não entendia, os cachorros não conseguem entender a nossa linguagem complexa, porém, mesmo assim, eu sentia que ele dava aquela atenção, como se quisesse dar uma opinião sincera sobre aquilo. Sei que ele sentia-se bem cuidado, um amor que poderia ir além do instinto de eu ser o “humano que o alimenta!”. Suas brincadeiras, seus latidos, seus abanares de rabos. Existe de fato uma sinceridade que nasceu com cães, algo neles que realmente pensa no nosso bem.

Pude retribuir parte disto na primeira vez que ele adoeceu. Não entendo qual doença era, porém quase morrera. Passou meses alimentando-se de comida moída e água sendo injetado diretamente em sua boca por uma seringa. O protesto dos animais contra as indústrias farmacêuticas se formava na dificuldade de dar um remédio a um cachorro. Talvez esta tenha sido a época em que mais chorei. A morte estava levando precocemente o meu melhor amigo, o amigo que não reclamava da vida.

O amigo que não contava vantagem.

O amigo que não falava de mim pelas costas.

O amigo que sempre estaria sorrindo, não importa o quão duro tenha sido a queda.

Mas este amigo estava morrendo, e isto me sufocava, me apertava a garganta.

Ele não latia mais, não movia-se mais.

Estava desenganado.

Mas, um dia, ao voltar do colégio. Lá estava ele latindo, ainda um tanto rouco, mas enérgico. Ele era mais forte do que se imaginava, conseguiu curar-se sabe-se lá do que.  Curou-se para viver mais muitos anos. Curou-se para reproduzir-se com uma cadelinha da mesma raça que minha vizinha tinha. Suas filhas, três no total, também moraram comigo. Uma casa feliz com quatro cachorros.

Os cachorros sempre estão felizes.

Os cachorros não mudam.

Os homens mudam, temos novos interesses, novas vontades, novos sonhos. Eu mudei, e continuo em mudança. Quando crescemos e tomamos por conta o tempo que ainda temos, tudo se torna um tanto quanto enfadonho. Eu tinha dezessete, com uma vida toda pela frente, por que precisaria de pressa? Eu poderia passar o resto destes meus dias ociosos com coisas ociosas. Vídeos na internet, livros ruins, filmes ruins, reality shows, entre tantas outras coisas. Era o aval para desperdiçar este tempo.

Também aprendi a ter outros tipos de amigos, os do trabalho, os da faculdade, os do curso. Aprendi a ter romances, relacionamentos que iniciavam e terminavam. Aprendi que não precisava mais morar com meus pais, aprendi que poderia ir embora, poderia tomar meu rumo, aprendi que não havia ninguém insubstituível nesta vida…

Mas elas começaram a morrer, as três cadelinhas foram vitimadas por uma doença chamada Calazar.

Porém meu cachorro sobreviveu a mais esta onda, forte, vigoroso e solitário. Não pude aplacar sua dor, não pude estar com ele neste momento difícil de sua curtíssima vida. Eu estava em outro lugar, estava me importando com pessoas que não valiam o meu tempo de vida extenso e desperdiçável. Eu tinha me tornado aqueles que um dia me deixaram só, e aquele que ouviu meus lamentos com a mais nobre paciência, agora estava só.

Sonhei com meu cachorro. Ele latia, eu não sabia de onde vinham os latidos.

O tempo de dificuldade sempre surge, nesta hora precisamos saber quando parar e quando recomeçar.

Voltei a morar com meus pais. Meu cachorro estava velho, cego, cansado. O pouco movimento que conseguia fazer era ir de um sofá para o outro com ajuda. Eu senti que ele não era mais meu cachorro, e sim apenas cachorro. Cão. Existia um ressentimento, eu o abandonei quando ele mais precisava, e agora, estava aqui, vendo-o quase partido para a desconhecida viagem. Mesmo assim, ele se esforçou para me receber como sempre me recebeu. Mesmo depois te tanto tempo, ele sabia, ele lembrava do meu jeito de abrir o portão. Seu latido rouco, cansado, fraco, ainda expressava a mesma alegria dos tempos que éramos tão amigos. Ele, mesmo sem forças, ainda tentou movimentar-se para receber-me da melhor forma.

Como nenhum outro amigo um dia o fez.

Creio eu que ele esperava este momento.

Creio eu que ele queria sentir esta última alegria.

Creio eu que ele queria dizer para mim, em sua linguagem pouco complexa, que estava tudo bem e ele me perdoava, estava tudo bem e as coisas eram assim mesmo. Se conhece outras pessoas, se esquece de outras, a vida sempre continuaria.

Ninguém era insubstituível, eu sempre disse isto.

Talvez o meu cachorro esperava apenas para dizer-me tais coisas.

Numa manhã de um dia da semana ele partiu. Acordei com as batidas no quintal. Era muito cedo, eu me prepararia para o trabalho. Meu pai cavava a cova, o barulho da enxada até hoje ecoa em meu subconsciente. Ele estava no quintal, próximo aos seus únicos bens (os potes de água e de ração) deitado de lado, frio e duro. Acho que foi a única vez que ele não me recebeu com alegria.

Meu coração estilhaçou.

Enrolei-o com uma velha toalha e enterrei-o em meu quintal.

Lá está, a última morada do meu melhor amigo, viveu seus dezesseis anos de maneira plena e pura, como qualquer outro semelhante de sua raça poderia viver. Ele nunca poderá ser substituído. Talvez estes sejam o verdadeiro receptáculo da sapiência, por isso vivem tão pouco. Talvez a verdadeira amizade é aquela que dura apenas uns quinze anos ou menos. Não sei, mas sinto que o tempo que desperdicei ele soube aproveitar a seu modo.

Talvez, como uma maldição pela longevidade humana, podemos passar mais anos das nossas vidas lamentando dos nossos erros, ou buscando alguma verdade que no fim, não existirá. Julgamos os animais como seres inferiores, mas este julgamento também nos faz um tanto inferior, visto que não conseguimos receber com a alegria verdadeira aqueles que nos fazem felizes. Muito menos aproveitar cada dia como se fosse o último. Talvez este seja o segredo da alegria dos cães, uma vida curta, porém muito bem aproveitada.

 

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