O Cantos dos pássaros Solitários – Capítulo 02

O dia toma a noite, e lá fora as primeiras crianças começam a sair de suas casas a caminho da escola. Levanto e sento no sofá.

Um aroma de café quentinho sendo coado me atraí. Vou a caminho da cozinha.

Assim que entro sou recebido pelo doce aroma de café quente e a visão de uma mesa recheada com biscoitos, doces, geleias, manteiga, pão, presunto, queijo e mais uma infinidade de coisas.

– Bom dia, meu querido. Pode ficar à vontade. Seus irmãos ainda não levantarão. – Fala apontando para mesa.

Sento em silêncio. Estico a mão para pegar uma xicara vazia no centro da mesa. Dona Francisca vem logo atrás com o bule cheio de café.

– Não sei se vocês gostam de café com ou sem açúcar, presumi que seria com, afinal, nenhuma criança costuma ser chegada a coisas azedas.

– Não se preocupe, está tudo ótimo. Obrigado.

– Que isso, meu querido. Como passou a noite? Dormiu bem?

– Dormi, sim senhora.

– E você está melhor?

Levanto a cabeça para responde-la, mas fico engasgado com as palavras, ninguém é capaz de mentir e dizer que está tudo bem, logo após da morte da mãe.

– Me desculpe. Que pessoa faz uma pergunta dessas em um contexto desse. Me perdoa Júlio.

Balanço a cabeça indicando que está tudo bem e abro um forçado e discreto sorriso.

– Vou ser indiscreta mais uma vez, mas queria que soubesse que o enterro da sua mãe está sendo providenciado, uma tia distante de vocês está resolvendo tudo.

– Que tia? Não conheço nenhum parente próximo da mamãe.

– Ela não é irmã da sua falecida mãe. O nome dela é Amélia, uma irmã adotiva do seu pai.

– Nunca ouvi falar.

– Vocês vão encontrar com ela mais tarde. O enterro será as quinze horas. Vou a sua casa buscar algumas roupas para vocês. Tudo bem?

– Pode deixar que eu mesmo pego Dona Francisca.

– Tem certeza disso? Acho que é melhor você ficar aqui mesmo!

– Não. Está tudo bem. Só vou tomar um café e vou lá, até porque a Senhora não sabe onde ficam as coisas.

– Tudo bem, mas se desistir ou não quiser fazer isso sozinho, estarei aqui.

– Ok, obrigado – Falo enquanto ergo a xicara e começo a tomar o café.

 

*****

Encaro a porta da minha casa durante alguns segundos. Ergo a mão e toco a gelada maçaneta e giro. A porta se abre de forma vagarosa, e como sempre prende no meio do ciclo.

Pela pequena brecha aberta entro na casa. Vou até a cozinha, recolho os pratos que estão sobre a mesa do café da manhã de ontem e coloco na pia.

Pego um pano no armário, umedeço com detergente e começo a limpar a mesa. As lágrimas começam a brotar em meus olhos e simplesmente caem, à medida que passo o pano, elas se misturam com o sabão.

Pego a bucha e encho de detergente. Ligo a torneira e deixo a água cair, quando finalmente está bem encharcada e o sabão começa a forma espuma, desligo.

Pego um prato sujo e começo a lavá-lo com movimentos circulares, do jeito que minha mãe tinha me ensinado.

Quando a louça finalmente está limpa, guardado no escorredor, subo para os quartos.

Entro no meu quarto, arrumo a cama, coloco fronhas limpas nos travesseiros, troco o forro de cama e deixo tudo arrumado.

Pego a vassoura atrás da porta, varro o chão. Abaixo, estico a mão com a vassoura e puxo toda a poeira que está encrustada lá em baixo.

Olho para o chão e analiso. Parece está impecável. Abro as portas do guarda roupa e pego meu terno preto no cabide, uma sacola na mesinha de canto e guardo tudo.

Sigo pelo corredor até o quarto da Alice, faço o mesmo, uma limpeza seguida da escolha de uma roupa para o velório. No quarto do Júlio faço as mesmas coisas. Percebo que só falta um quarto da casa para limpar. Respiro fundo, seguro a vassoura com força e decido limpá-lo.

Entro no quarto da minha mãe, um cheiro de suor, e sujeita infesta o lugar. Começo varrendo o chão e encostando todo lixo no canto.

Pego um pano úmido e começo a limpar todo o pó acumulado nos móveis. Coloco os livros na estante, os produtos de beleza nas prateleiras e as roupas no balde roupa suja.

Toco na cama, talvez seja somente uma impressão, mas parece ainda estar quente. Meus dedos deslizam por cada calombo formado no edredom e no colchão. Pego no travesseiro, e tento tirar a fronha, mas não consigo. Sinto uma tontura e sento na cama.

Começo a respirar fundo para afastar o mal-estar. Ali, dominado pelo pânico, medo, frustração e principalmente saudade, me deito. Trago o travesseiro para perto e o abraço. E assim decido ficar abraçando o travesseiro enquanto as lágrimas descem.

 

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Autor: Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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