O dia toma a noite, e lá fora as primeiras crianças começam a sair de suas casas a caminho da escola. Levanto e sento no sofá.

Um aroma de café quentinho sendo coado me atraí. Vou a caminho da cozinha.

Assim que entro sou recebido pelo doce aroma de café quente e a visão de uma mesa recheada com biscoitos, doces, geleias, manteiga, pão, presunto, queijo e mais uma infinidade de coisas.

– Bom dia, meu querido. Pode ficar à vontade. Seus irmãos ainda não levantarão. – Fala apontando para mesa.

Sento em silêncio. Estico a mão para pegar uma xicara vazia no centro da mesa. Dona Francisca vem logo atrás com o bule cheio de café.

– Não sei se vocês gostam de café com ou sem açúcar, presumi que seria com, afinal, nenhuma criança costuma ser chegada a coisas azedas.

– Não se preocupe, está tudo ótimo. Obrigado.

– Que isso, meu querido. Como passou a noite? Dormiu bem?

– Dormi, sim senhora.

– E você está melhor?

Levanto a cabeça para responde-la, mas fico engasgado com as palavras, ninguém é capaz de mentir e dizer que está tudo bem, logo após da morte da mãe.

– Me desculpe. Que pessoa faz uma pergunta dessas em um contexto desse. Me perdoa Júlio.

Balanço a cabeça indicando que está tudo bem e abro um forçado e discreto sorriso.

– Vou ser indiscreta mais uma vez, mas queria que soubesse que o enterro da sua mãe está sendo providenciado, uma tia distante de vocês está resolvendo tudo.

– Que tia? Não conheço nenhum parente próximo da mamãe.

– Ela não é irmã da sua falecida mãe. O nome dela é Amélia, uma irmã adotiva do seu pai.

– Nunca ouvi falar.

– Vocês vão encontrar com ela mais tarde. O enterro será as quinze horas. Vou a sua casa buscar algumas roupas para vocês. Tudo bem?

– Pode deixar que eu mesmo pego Dona Francisca.

– Tem certeza disso? Acho que é melhor você ficar aqui mesmo!

– Não. Está tudo bem. Só vou tomar um café e vou lá, até porque a Senhora não sabe onde ficam as coisas.

– Tudo bem, mas se desistir ou não quiser fazer isso sozinho, estarei aqui.

– Ok, obrigado – Falo enquanto ergo a xicara e começo a tomar o café.

 

*****

Encaro a porta da minha casa durante alguns segundos. Ergo a mão e toco a gelada maçaneta e giro. A porta se abre de forma vagarosa, e como sempre prende no meio do ciclo.

Pela pequena brecha aberta entro na casa. Vou até a cozinha, recolho os pratos que estão sobre a mesa do café da manhã de ontem e coloco na pia.

Pego um pano no armário, umedeço com detergente e começo a limpar a mesa. As lágrimas começam a brotar em meus olhos e simplesmente caem, à medida que passo o pano, elas se misturam com o sabão.

Pego a bucha e encho de detergente. Ligo a torneira e deixo a água cair, quando finalmente está bem encharcada e o sabão começa a forma espuma, desligo.

Pego um prato sujo e começo a lavá-lo com movimentos circulares, do jeito que minha mãe tinha me ensinado.

Quando a louça finalmente está limpa, guardado no escorredor, subo para os quartos.

Entro no meu quarto, arrumo a cama, coloco fronhas limpas nos travesseiros, troco o forro de cama e deixo tudo arrumado.

Pego a vassoura atrás da porta, varro o chão. Abaixo, estico a mão com a vassoura e puxo toda a poeira que está encrustada lá em baixo.

Olho para o chão e analiso. Parece está impecável. Abro as portas do guarda roupa e pego meu terno preto no cabide, uma sacola na mesinha de canto e guardo tudo.

Sigo pelo corredor até o quarto da Alice, faço o mesmo, uma limpeza seguida da escolha de uma roupa para o velório. No quarto do Júlio faço as mesmas coisas. Percebo que só falta um quarto da casa para limpar. Respiro fundo, seguro a vassoura com força e decido limpá-lo.

Entro no quarto da minha mãe, um cheiro de suor, e sujeita infesta o lugar. Começo varrendo o chão e encostando todo lixo no canto.

Pego um pano úmido e começo a limpar todo o pó acumulado nos móveis. Coloco os livros na estante, os produtos de beleza nas prateleiras e as roupas no balde roupa suja.

Toco na cama, talvez seja somente uma impressão, mas parece ainda estar quente. Meus dedos deslizam por cada calombo formado no edredom e no colchão. Pego no travesseiro, e tento tirar a fronha, mas não consigo. Sinto uma tontura e sento na cama.

Começo a respirar fundo para afastar o mal-estar. Ali, dominado pelo pânico, medo, frustração e principalmente saudade, me deito. Trago o travesseiro para perto e o abraço. E assim decido ficar abraçando o travesseiro enquanto as lágrimas descem.

 

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