“As pessoas de hoje em dia são muito individualistas”.

Eu ouço as pessoas dizerem. “Ninguém se importa mais com o coletivo”, “todo mundo só pensa em si mesmo”, “perdemos o espírito de comunidade”, seja lá o que signifique isso. Eu concordo com a parte de que somos todos egoístas. Só não acho que isso seja algo novo.

Eu vejo Bauman, do final do século passado, falando sobre o amor fluido e as relações sociais que não se mantém. Aí leio Cioran, Camus e Sartre, três autores do período pós guerra que falam do sentimento de exílio existencial, de se sentir como um estrangeiro entre as pessoas, e como nem os humanistas se importam com as pessoas. Já antes da guerra, temos Freud, que escreveu “O Mal-Estar na Civilização”.

No século anterior a esse Nietzsche já falava da decadência humana gerada pela hipocrisia da moralidade cristã, Schopenhauer falava da vida como um teatro repetitivo e sem graça e Dostoievski escrevia sobre um personagem misantropo que desprezava a falsidade das relações humanas. Falando em “misantropo”, uma peça com o mesmo nome foi escrita em 1666 por Molière sobre as falhas humanas e a hipocrisia da sociedade parisiense da época. Para eles, aparentemente, nada disso era novidade.

Quando disse esse argumento à uma pessoa que acreditava piamente no individualismo como algo novo, ela me respondeu “mas nas cidades do interior, nos bairros, nas vizinhanças havia um sentimento de união, as pessoas cuidavam umas das outras, se importavam com elas, os valores eram diferentes”. É, eu já ouvi falar sobre os valores daquele tempo, como as pessoas eram unidas, e você pode ver isso em diversas expressões populares e o que elas significam:

“Talarico morre cedo” – matar (ou pelo menos espancar) alguém que comeu sua namorada é questão de honra.

“Mexeu com um, mexeu com o bairro inteiro” – alguém bate em fulano e fulano chama mais 15 pessoas pra se vingar (bela união essa, não?).

Alguns outros, que mostram a generosidade da população da época, são auto-explicativos:

“Crianças foram feitas para serem olhadas e não ouvidas”.

“Mulheres são seres de cabelos longos e ideias curtas”.

“Homem que é homem não chora”.

“Homem de verdade tem calo na mão”.

Realmente, os valores eram muito melhores naquela época, não? As pessoas se importavam, tinham “honra”, principalmente aquelas que andavam armadas e resolviam suas questões “de homem pra homem”. Ou os cristãos, exemplos do “espírito de comunidade” que claro, quando não estavam pecando, julgando e difamando uns aos outros, iam à igreja e faziam caridade.

Claro que muitos desses valores mudaram hoje em dia por percebermos que eram construídos pela sociedade. Mas por que será que ao mesmo tempo em que houve tamanha desconstrução, tamanha liberdade dada às crianças e às minorias, as pessoas parecem cada vez mais egoístas? Talvez seja coincidência. Ou talvez elas nunca tenham sido tão altruístas assim pra começar. Talvez a única coisa que as mantinham “unidas” (ainda que de forma hipócrita) eram esses mesmos valores construídos que as levavam a dizer os absurdos citados acima.

A desconstrução não é controlável. Ou as pessoas se mantém “unidas” acreditando em papai noel (sexismo, homofobia, etc), ou você as liberta e elas eventualmente caem no niilismo. Não dá pra você desconstruir valores “até a página dois”. Se parte do sistema começa a desmoronar, com o tempo, todo o resto vai junto: Você livra as pessoas do autoritarismo da família e elas começam a questionar qual o valor dela, você liberta as pessoas da obrigação do casamento e elas se perguntam se o amor em si é real. E aí chega uma hora que todos caem no vazio e se sentem exilados, estrangeiros, por que elas percebem que se a moralidade e as relações sociais foram construídas, talvez elas não sejam reais. Talvez nunca tenham sido.

E é aí que você percebe que está sozinho no mundo. E se está sozinho, para que se importar com o próximo? Nada é real, ninguém é confiável e não existem garantias, e você começa a descobrir o que os filósofos já sabiam 300 anos atrás, mas como nunca tinha olhado dessa forma antes, você fala:

“As pessoas de hoje em dia são muito individualistas”.