Sentou na sarjeta e tirou da bolsa o pequeno espelho para olhar o rosto machucado. Sorriu. Não estava tão feio quanto pensara. As ruas estavam ficando cada vez mais perigosas para gente como ele. Passou o algodão molhado em demaquilante ao redor dos olhos tomando cuidado com os ferimentos. Repetiu o processo até que toda a maquiagem, purpurina e brilho que enfeitavam seu rosto estivessem no algodão no chão.
Desafivelou as sandálias de salto alto e descansou os pés cansados no chão fresco. Buscou o canto mais escuro do beco para trocar a calça de couro e a blusa de lantejoulas pelo terno batido de risca de giz. Abotoou a camisa até em cima e jogou por cima o paletó surrado.
Olhou para o céu que ficava cada vez mais claro enquanto a neblina densa subia do chão e viu que tinha que se apressar. O sol não demoraria a surgir. Antes de sair dobrou com cuidado a peruca de cabelos vermelhos e a guardou na mochila, substituindo-a rapidamente pelo chapéu, escondendo o pequeno buraco atrás da cabeça.
Saiu pelas ruas quase desertas, os sapatos cantando nas pedras lisas. Quem o olhava desaprovava o sujeito malandro que com certeza se envolvera em alguma briga na noitada. Mas ninguém o incomodava, assim vestido como um homem deve se vestir.
Alcançou o rio Araguaia ao mesmo tempo que o sol olhou por cima do morro. Deixou a mochila escondida entre as moitas da margem, junto com os sapatos envernizados e o terno.
A água beijou sua pele e ele sentiu amor. Bem mais puro do que recebia quando deixava seu lar. Mergulhou oferecendo seu corpo cansado e ferido ao rio e este, o recebeu com saudade.
No fundo do rio ninguém percebeu os olhos arroxeados que se confundiam com o rosado da pele lisa.

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