Textos

Tempestade.

Eu o observava com certo desdém em minha alma. Suas feições cansadas e secas, tal qual o leito vazio de um rio. Seu dedo áspero risca o solo árido de terra vermelha e dura. Ele atrita o polegar e o indicador e dá um sorrisinho de hiena, um sorriso interno, saído do peito. Podia-se contar nos dedos de uma mão a quantidade de dentes que ele tem na boca, mesmo assim ele sorria, um sorriso maldoso e insultante, como se escondesse um segredo. Ele olha para mim com seus olhos amarelados e pesados e ainda sorrindo diz:

– Teremos chuva hoje.

Eu tinha dezesseis anos na época.

O velho olha para cima, uma pequena brisa desgrenha seus cabelos secos e cinzas. Noto que seus olhos um dia já foram azuis, porém a catarata tomou conta de grande parte do que pode ser visto. Eu o vejo como um louco, alguém que um dia teve tudo e agora não tem nada. Um louco sorridente que diz que vai chover olhando para o barro vermelho no chão. Na época, eu tinha dezesseis anos.

E aos dezesseis anos você sabe de tudo.

Minha bisavó tinha uma pequena casa em uma cidade do interior do ceará, do qual prometi não mencionar. Era a primeira vez que eu a visitava, um lugar longe de tudo e de todos, algo perfeito para mim, que na época tinha um espírito mais antissocial.  Era curioso como o agreste passava pelo seu maior período de estiagem. Grande parte das plantações já haviam sido destruídas e o gado estava quase morto, quando aquele velho disse que ia chover, eu ri e desdenhei como qualquer ser normal faria.

Na madrugada, uma das maiores tempestades assolou aquela terrinha castigada.

Não seria nada que salvaria as lavouras e faria o gado engordar, porém uma chuva destas enchia as cacimbas, e logo teriam água para toda uma semana. Minha bisavó me perguntou se eu tinha falado com o velho, e eu afirmei que sim. Ela perguntou se ele previra a chuva da madrugada e eu afirmei novamente.

– É assim mesmo, todas às vezes. Depois temos que levar algumas coisas para ele no alto da colina.

Eu indaguei o motivo disto, mas minha bisavó disse que era necessário. Ele sempre sabe quando chove.

Mas para mim era impossível. Como um homem pode prever acontecimentos tão aleatórios. Como imaginei, aquilo deveria ser um palpite que dera certo. Você diz várias vezes que algo pode acontecer e quando acontece, te chamam de vidente. Acompanhei minha bisavó. Ela me dissera que todas as vezes que chove eles levam comida para o velho da colina.

Não era uma colina alta, uma das poucas que poderia ser vista. O estava bem destruído, um dos cômodos tinha ruído, sobrando apenas a sala e o banheiro. Minha bisavó disse que era da filha do velho, e ela tinha ido embora e deixado este resto de casa para ele. Ela também disse que ele havia enlouquecido após a morte da esposa, mas nada disto era confirmado. Eu carregava uma cesta com pães e bolo. Também carregava duas garrafas de cinco litros com água.

O velho fumava um cigarro de palha, a fumaça saia por suas narinas e boca. Estava sentado em um batente, na porta de entrada de seu pequeno casebre. A única sombra que ele possuía. Ele nos viu chegar, porém não se movimentou. Minha bisavó sorriu e disse que trouxe alguns presentes pela última chuva. O velho sorriu com seus dentes faltando e apontou um lugar onde eu poderia descarregar a pesada e valiosa carga.

– Foi chuva da boa não é senhorinha!? – disse o velho sorrindo um sorriso de gralha. O cheiro do cigarro de palha era muito forte que me deixou um pouco tonto.

– Foi sim, foi sim – minha bisavó era muito amável. Ela morrera com noventa e nove anos. Já não tinha mais a casa do interior, nem saúde. A trouxeram para a cidade grande, onde ela pereceu em meio a família e fumaça. Eu estava em seu leito de morte, eu ouvi suas últimas palavras. Ela me chamou de teimoso e me deu um sorriso, disse que queria mais tempo para me ver mais crescido. Eu sorri e disse que a amava, assim ela pereceu.

– O menino não acredita – disse o velho – nunca ninguém acredita. Mas daqui a três noites, choverá ao amanhecer. Disto eu sei.

O velho se recolheu em seu cigarro e fitou o horizonte. Minha bisavó agradeceu e partimos.

Depois de três noites, amanhecera chovendo. Eu olhei pela janela, o velho estava parado em frente ao nosso pequeno portãozinho de madeira. Como se quisesse me convencer de algo, ele gritou:

– Não disse!?

Dai ele deu meia volta eu foi embora, pisando nas poças de lama.

Todos comentavam o estranho fato de estar chovendo muito neste período de estiagem. Os agricultores começaram a animar-se com este fato, diziam que se continuasse assim, logo o solo estaria perfeito para o plantio e o gado estaria forte e sadio. Eu não aceitava o fato daquele velho acertar eventos aleatórios. Eu decidi ir atrás dele e inferir sobre o ocorrido.

E lá estava ele, sentado ao batente, fumando seu cigarro.

– Como você faz isso? – perguntei.

– Menino, eu não faço nada, apenas chove.

– Sei da história deste casebre e da sua família. Mas eu não consigo acreditar.

– Menino, tem histórias que vão além do que achamos. Olha isso – o velho mostrou toda a natureza árida em volta – tem lugar melhor do que este? Não se vê nada durante quilômetros. Apenas o silêncio e o barulho da própria voz. Eu consigo ouvir este cigarro queimar, eu consigo ouvir as gotas da chuva caindo ao longe. Me diz, de onde você é?

– Da cidade.

– Por isso eu gosto do povo da cidade, eles não acreditam, e nunca vão acreditar. Você acredita em Deus?

– Vai me dizer que você é Deus agora. Velho louco – eu sorri.

– A praga do monoteísmo que prejudicou a todos nós. Tinha que ter um único deus para tudo, controlando todas as arestas do mesmo cubo. Menino, as coisas não funciona do jeito que está no livro. Eu ainda preciso mostrar o meu valor para todos estes ingratos, mas gosto de fazê-los sofrer um pouco pela ingratidão. Você menino, você é diferente. Um incrédulo de marca maior. Seus olhos julgadores são tão tristes.

– Do que está falando, velho? – penso que ele é um velho louco, só isso. Penso que estou perdendo meu tempo. O velho levanta-se jogando fora a ponta do cigarro de palha. Ele se espreguiça. Suas roupas puídas se esticam junto.

– Antes de só existir um Deus, todos os outros acreditavam que existia uma entidade para cada coisa: uma para noite, outra para o sol, outra para a chuva, outra para colheita. Os homens que habitaram esta terra antes que as construções fossem assentadas acreditavam que a chuva dependia da felicidade de um deus. Garoto, você não sabe como é delicioso ser temido e venerado.

– E por acaso você já foi temido e venerado algum dia?

– Estes são outros tempos. São tempos imemoriáveis – o velho sorri, seus poucos dentes amarelados formam ainda mais aquele sorriso sinistro – olha esta terra batida, olha estas nuvens avermelhadas. São meu sangue, minha carne, minha história. Garoto, os homens não sabem pedir, os homens não merecem a felicidade. Por isso eu trago sofrimento. Dou para eles um pouquinho de chuva, vez ou outra, para que não morram na mingua. Mas é tão bom esmagar estas baratinhas uma a uma.

Meu coração aperta, aquele velho trazia uma serenidade em suas palavras, parecia se transformar em outra pessoa. Seus olhos amarelados brilhavam, uma chama acendia em sua face. Seu peito nu, brilhoso e bronzeado pelo sol, parecia vivo, mais vivo do que nunca.

– É você quem faz chover? – indago ainda incrédulo.

– Eu posso fazer muitas coisas, garoto. Muitas coisas. Metade delas ainda desconhecidas. Mas olhe como o céu enegrece. Hoje a chuva vai ser em homenagem a esta conversa que não tenho há muito – o velho ria um riso de bêbado. Chovera aquela noite, chovera no dia seguinte também, talvez uma das chuvas mais fortes dos últimos tempos. Depois parou de chover.

O velho havia desaparecido e há muito ficou assim.

Minha bisavó disse que ele tinha disto, desaparecer e aparecer. O velho, aquele velho louco que dizia que fazia chover. Nunca consegui entender de fato o que acontecera, aquele deus da chuva caído, exilado em meio ao nada. Ele sorria mesmo no esquecimento daqueles que um dia o seguiram. Em seus olhos as saudades dos sacrifícios feitos pelos indígenas, por aqueles povos que o veneravam. Agora esquecido, bêbado, brincando com o sofrimento alheio. Eu prometi para ele que o veneraria e que manteria o seu segredo. Agora sei que ele deve estar sentado em meio a terra batida, esfregando os polegares e fumando seu cigarro. Preparando a alquimia da chuva, fazendo cair a esperança em meio a dor e o sofrimento daqueles que estão perdidos no seco e duro deserto das aflições.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

2 comentários em “Tempestade.

  1. Grandes memórias da sua infância Rhuan!

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  2. Pingback: Tempestade. – Só palavras

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