– Norman ficou puto por que os avós trouxeram a lasanha errada pra ele.

– Como assim?

– Eles foram viajar, perguntaram se ele queria que comprassem alguma coisa, ele pediu especificamente um sabor e trouxeram vários, menos o que ele tinha pedido. Disse que teve vontade de jogar tudo na parede.

– Pff. Queria ver se ele morasse na rua se ia ficar puto com algo tão idiota assim.

– Bom se vocês passassem mais tempo nas clínicas ao invés de nas ruas, talvez não pensasse dessa forma.

– “Vocês”?

– Psicólogos sociais.

– Você espera que eu sinta pena dele por causa de uma lasanha?

– Qual é, você acabou de sair da faculdade. Você acha mesmo que a lasanha é a causa principal? Ou que talvez fosse só a superfície de um sofrimento maior por trás? Você conhece Norman? Conhece a família dele? Talvez esteja faltando um pouco da empatia que vocês tão frequentemente criticam  não haver nos outros.

– Empatia desse povo que reclama de barriga cheia? Que não tem que lutar por nada na vida e fica fazendo drama por essas coisas?

Suspirei.

– Minha analista me disse algo interessante uma vez quando disse isso pra ela sobre mim mesmo.

– Sobre o que?

– As visões que eu tenho do mundo… Meus gostos e preferências… Como nunca tive um grande motivo pra pensar assim, nunca fui abusado, espancado, nunca passei fome ou tive grandes necessidades reais em minha vida.

– E o que ela disse?

– “O sofrimento psíquico não está ligado à realidade, ele não depende necessariamente do ambiente ao redor”… E que “em termos psíquicos, não existe ‘barriga cheia”.

– Típico dos psicanalistas que olham só pro indivíduo e não ligam para o que acontece na sociedade.

– Você é burro ou o que?

Ele pareceu surpreso.

– Você sabe que muitos dos maiores filósofos e escritores pessimistas que dedicaram suas vidas a falar o quanto a vida é uma merda vieram de famílias ricas e intelectuais, não é? Você acha que eles não sofriam? Qualquer autor decente desde Buda até Freud, passando pelos existencialistas, fala sobre o sofrimento e a insatisfação como inerentes ao ser humano. Não existe barriga cheia por que não existe nada que consiga preencher o desejo humano. A peça nunca é do tamanho exato do buraco, sempre sobra um resto. No começo esse resto é tolerável, você ignora. Mas com o tempo, para a maioria das pessoas ele se torna insuportável e deve ser preenchido a todo custo. E de emprego em emprego, família em família, parceiro em parceiro, vamos todos sempre procurando a peça certa, sem nunca a encontrar. TODOS, não apenas os pobres, os oprimidos, os miseráveis.

– Então você tá querendo comparar o sofrimento de um rico que tem de tudo com o de uma pessoa em situação de rua?

– Sabe… Uma vez uma mulher me contou que foi num analista que haviam indicado pra ela. Era um prédio luxuoso e ela gostou do cara, mas ele cobrava 400 reais a sessão e ela não pôde pagar.

– E daí?

– “E daí”? Quem você acha que paga o salário dele? Pela sala? Pelo prédio? Os pobres? Bom, talvez os ricos gostem de gastar dinheiro à toa, talvez fazer análise gere algum status… Ou talvez depois de conseguir “tudo o que eles queriam” eles continuaram se sentindo na merda e tiveram que procurar ajuda.

– Imagino o que poderia ser tão grave…

– Bom, dá uma lida no DSM*, quem sabe você encontra alguma coisa.

– Vai se foder.

– Qual é? Vocês, acham mesmo que se a tal revolução Marxista acontecer e todos nos tornarmos iguais num mundo livre de classes e corrupção nós seremos felizes? Todos os transtornos mentais, toda a angústia e as crises existenciais irão passar como num passo de mágica? Por que não dá uma olhada nos países comparados os “mais felizes do mundo”, “menos corruptos do mundo”, com maior riqueza, igualdade e IDH e então compara com os que tem o maior número de suicídios. Talvez você note alguns nomes em comum.

– Tá, e o que a gente faz então? Deixa tudo na merda como tá?

– Schopenhauer disse que o mundo é habitado por almas torturadas e demônios torturadores. E que um termo adequado para chamar as pessoas à nossa volta seriam “irmãos de dor”, ou de sofrimento.

– É isso o que as minorias tentam fazer: Se unir e se fortalecer para lutar contra um inimigo em comum.

– Não, cara, é isso que vocês não entendem: Nós não somos irmãos de sofrimento por sermos pretos, pobres, mulheres, minorias. Somos irmãos de sofrimento por que estamos todos presos nessa merda de pedra gigante flutuando na porra do espaço até morrermos, sem ideia do que fazer enquanto isso. Somos todos uma grande minoria e a vida é a grande opressora. Prazeres externos escondem isso, mas sofrimentos externos também. Se você tem que lutar diariamente para não ser morto, não tem tempo para ter uma crise existencial. Mas tire os assassinos das ruas e as pessoas começam a se matar dentro de casa.

– O que você sugere então?

– Bom, pra começar, que parem de tratar qualquer sofrimento humano que não venha de um mendigo ou de uma minoria como sendo insignificante. Não é assim que nós juntamos as pessoas, é assim que separamos elas. Precisamos de acolhimento, não exclusão.

– É, por que não foi isso o que as classes dominantes fizeram com as minorias durante todos esses anos, não é? – ele disse com ironia – agora você quer que elas os incluam?

– Depende. Você quer se vingar ou resolver o problema?

Ele ficou calado.

– Vai pensando. Vou dar uma andada pela rocha flutuante e fumar um cigarro.

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