Ele entrou no carro e desfrutou do conforto do banco de couro antes de dar partida. Não o couro quente do cavalo, mas aquele couro liso e macio, tratado e pintado. Há muito tempo não andava a cavalo ou a pé e gostava disso.
Deslizou pelas ruas movimentadas da grande cidade. Não sentia falta da vida no campo. Nem de seus odores frescos de grama molhada de orvalho. Preferia o cheiro da fumaça que saía do escapamento dos carros. Assim como o barulho dos motores, buzinas, alto falantes gritando alguma promoção, lhe eram mais prazerosos que o piar dos pássaros ao fim da tarde morosa.
O terno de risca de giz importado do alfaiate mais caro da cidade lhe caia melhor que a camisa e a calça jeans, sem falar dos sapatos envernizados que não se comparavam com as botinas cheirando a terra e esterco.
E ainda tinha os amigos. Os amigos de agora eram os melhores. Com eles compartilhava o chopp espumado no fim do dia, nas melhores petiscarias que o dinheiro poderia pagar. E ele sempre pagava. Não sentia falta das rodas de conversa em volta da fogueira, quando comiam queijo assado em pontas de varetas que vinha sempre acompanhado de músicas, ora nostálgicas ora animadas.
Mas hoje não encontraria ninguém. Estava sentindo-se triste, e nessas horas preferia ficar sozinho. Não tinha ninguém nessa sua nova vida em quem confiasse. Mas isso não era um problema para ele. Não sentia falta de seus antigos confidentes, nem do padre da capela que sempre estava disposto a ouvir quem precisasse falar. Não precisava deles.
Tudo que ele amava era seu imenso escritório com paredes de blindex para poder observar toda a cidade e sonhar com o dia em que toda ela lhe pertenceria. Tudo que ele desejava era mais um gole daquela bebida cara que ele nem sabia dizer o nome. Tudo que ele precisava era do que estava dentro de seu cofre de última geração, o melhor que o dinheiro poderia comprar. Se fechasse os olhos quase poderia ouvir o barulho do vento, tão nítido como naquele dia na floresta perto do riacho…
Dentro das paredes frias do cofre de aço a pequena garrafa guardava o saci que rodopiava em seu redemoinho particular, sonhando com o dia em que poderia finalmente destruir seu mestre.

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