Eu esperava o ônibus. Eram 18:00 horas.

Do outro lado da rua um homem, meia idade, moreno, magro, vestia-se com uma camisa social cinza, muito suja, uma calça social menor que ele, chegando apenas nas metades das canelas, um sapato social marrom, também bem desgastado. Os cabelos ensebados, brilhosos nas brancas luzes dos postes. O homem estava munido com uma velha vassoura, o homem  varria a calçada e gritava:

– A alegria e a felicidade é uma mentira! Todos nós vivemos a grande mentira! É impossível ser feliz, é impossível encontrar a felicidade pura. Ser feliz não existe, não dá para ser feliz! Devemos viver cada dia, cada hora, cada minuto, devemos aproveitar o máximo. A verdadeira felicidade deve ser compartilhada.

Ele agitava os braços, levava a vassoura para cima, gritava a plenos pulmões. Existe uma regra não escrita de conduta sobre gritar em ambientes públicos, falar alto em ambientes movimentos e etc. Todos irão acreditar que você é louco por estar pregando suas loucuras a plenos pulmões. Aquele homem, varrendo a calçada, não estaria distante disto. Todos na parada de ônibus comentavam sobre a loucura. Garotas com idade entre quatorze e quinze anos soltavam seus risinhos frouxos, tapando a boca com suas mãos. Homens vestindo roupa de malhação, existe uma academia de musculação próxima a parada, comentavam sobre a loucura do varredor.

– Ele sempre foi assim! Tem vez que ele sai de casa vestido de bailarina – riam os homens.

– Ele mora com um casal de idosos, parece que os velhos cuidam dele – riam os homens.

Deviam ter cuidado, vai que um dia deste este louco dá um ataque e mata os velhos – riam os homens.

Todos comentavam a gritaria do louco. O louco por sua vez, continuava a varrer freneticamente a calçada, indo até o meio do asfalto, atrapalhando o trânsito. A poeira levantava em uma fina névoa amarronzada, resultado de um dia inteiro de acúmulo de fuligem. O louco varria como quem varre um deserto, a poeira subia e voltava a acomodar-se por onde o louco varreu, tornando aquele trabalho inútil e infinito.

– Vocês riem! Isso, tirem sarro! Mas eu sou feliz, eu sou feliz porque respeito todo mundo. Não ligo se homem casa com homem, se mulher casa com mulher, não ligo se você é cristão ou ateu, não ligo se é rico ou pobre, não ligo! Não ligo! Não tenho celular, não ligo! Se você quer amar a uma pessoa, se você quer amar a três pessoas, se você quer viver aqui ou lá, não ligo. Eu amo todo mundo, não importa como!

Todos na calçada começaram a rir novamente. Os homens musculosos começaram a gargalhar. Senhoras prestes a subir nos seus ônibus faziam tal gesto aos risos. Todos apontavam o dedo para o louco varrendo a calçada. Todos comentavam o que o louco dizia:

– Como seria possível amar seu semelhante!? Em um mundo onde existe discórdia e traição? Ameaça e morte? Amar o próximo!? O louco é louco porque não sabe o que diz! – uma senhora comentava.

– Eu vou postar uma foto no Face, o louco muito doido – disse uma das garotas colegiais.

– Vocês zombam de mim! – grita o louco do outro lado da rua, agitando sua vassoura – vocês acham que são melhores do que eu, vocês acham que suas faculdades, seus empregos, seus bens materiais, suas famílias, seus nomes, seus vícios e suas doenças podem definir quem vocês são? Quantos de vocês já mentiram? Quantos de vocês já machucaram quem vocês amam? Quantos de vocês entram em uma igreja, se dizem praticantes e depois pecam!? O pecado está na alma daquele que se diz santo!

Um homem ao meu lado caiu na gargalhada, ele ria tanto que sua face corou. Uma mulher que descia do ônibus olhava para todos os presentes na parada, rindo e gracejando, ela não entendia o que estava acontecendo, tinha acabado de chegar, pegou o filme na metade, o texto quase no fim.

– O mundo está acabando – continuou o louco – o fim dos tempos chegará em breve! Estamos nos matando, sufocando em nosso próprio lixo! Posso varrer o dia inteiro, mas nunca conseguirei limpar nossas mentes da destruição, da depressão e da ansiedade! Estamos esperando por algo grande, roemos nossas unhas, queremos que dias melhores cheguem, mas estes dias nunca chegam. Envelhecemos, apodrecemos, nossos filhos crescem e nos abandonam! Não existe fim do caminho, não existe final feliz. Acordem! Acordem! Acordem antes que seja tarde.

Notei que o louco começou a chorar, mesmo assim ele continuou varrendo. Ele varria, varria, varria. Mecanicamente. Empurrara a sujeira até o meio da rua e depois voltava para a calçada, voltava a empurrar a sujeira até o meio da rua, e voltava novamente a empurrar a sujeira até o meio da rua. Todos observavam embasbacados a atitude do louco. Ele gritava, ele berrava, suas palavras o faziam chorar. Lágrimas brotaram dos seus olhos enrugados. Grandes e amarelados, vidrados, fortes. Ele fungava e se lamentava, porém não parava de varrer. Logo voltou a gritar:

– Esse lixo que se acumula sou eu, são vocês, somos nós. Restos das nossas células mortas que se unem em um monte de morte e perdição. Eu sinto o câncer se alastrando, eu sinto a dor dos nossos filhos ao ver nosso mundo ruir, eu sinto que não há mais esperança. Eu poderia salvar vocês! Eu sei salvar vocês, eu só preciso de uma chance – todos na parada, neste momento, começaram a gargalhar fortemente, um homem chegou a desequilibrar e cair de tanto rir – eu sei que a princípio posso parecer ridículo, mas escutem, eu posso salvá-los. Eu tenho a chave para a salv…

O louco foi atropelado por um ônibus. Apenas o barulho do baque, a batida, o freio forte e o ínfimo corpinho daquele ser, voando tal qual sua vassoura quebrada, e estatelando-se no asfalto cruel alguns metros na frente.  Todos pararam de rir e olhavam incrédulos para o que tinha acabado de acontecer. O motorista saiu do ônibus, ele estava pálido.

– Vocês viram não é? Ele se jogou na frente do ônibus – disse o motorista que tinha furado o sinal e falava ao telefone.

Todos ficaram em silêncio, todos se sentiram culpados. O cadáver do louco, uma massa de ossos quebrados e sangue, jazia ao solo, inerte, apático. O sangue correu para um bueiro, deixando um rastro escarlate. Ninguém fez algum comentário. Todos estavam tão chocados que nem os celulares levantaram para registrar o acontecimento. Talvez no coração de cada um, que zombava do louco, tenha ficado a grande curiosidade da vida, a grande dúvida de saber qual era a chave da salvação daquele eremita das calçadas. Todos aqueles que viram aquele acontecimento levaram para suas vidas uma lição primordial, todos eles não riram da mesma forma, todos eles não pensaram da mesma forma, todos eles tornaram-se loucos de alguma maneira. Talvez tenha ficado uma grande lição nisto tudo. O louco sacrificou-se, jogou-se na frente do destino, dando sua vida por aqueles que zombavam de si, salvando a todos que ocupavam a calçada de serem sãos.

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