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Cantos dos pássaros solitário, Capítulo 03 – Falha na Eternidade

A falha da eternidade

                Lembro de ter lido uma vez em uma revista, que o ser humano não foi feito para tirar sua própria vida. Na verdade, chegar a tal ato é reflexo de uma série de situações frustrantes que ocultaram a beleza do que seria o ato de viver.

                Agora, diante de um preto caixão reflito sobre isso. A existência vaga, a dor pungente e as lembranças que deveriam confortar que se tornaram um peso.

                Encaro a lateral escura do caixão, e me perco, não sei se na cor, no tom mórbido de tudo, ou simplesmente, porque desejo fugir.

                Meus irmãos estão ao meu lado. Júlio e Alice estão visivelmente abalados. Choram o tempo todo, e assim como eu, evitam passar perto do caixão. Acredito que ninguém quer ter como última lembrança, um corpo sem vida, ornamentado com flores póstumas.

                As horas seguintes parecem travar uma batalha que definirá quem caminha mais devagar. Os ponteiros do relógio pouco se movem. Encosto na parede e fico olhando como a morte pode sim, ser uma festa fúnebre. Velada a lágrimas de crocodilo, flores sem vida, e pessoas que buscam justificar sua ausência derramando água sobre o caixão.

                Quando minha mãe entrou em depressão e parou de sair de casa, todos os vizinhos se afastaram. As professoras da escola pareciam não entender a nossa condição e a tragédia que estávamos passando.

                Muitas vezes o alimento foi escarço, as tarefas de casa pareciam ter o dobro do peso, e os amigos da nossa família, que antes enchiam a casa e davam altas gargalhadas que ecoavam por cada cômodo, foram sumindo.

                Nossas vizinhas costumavam passar a tarde lá em casa. Minha mãe fazia alguns aperitivos, elas sentavam no sofá, e durante horas falavam mal das amigas que não estavam presentes e faziam juras de amizades para as demais.

                Quando a tragédia veio sobre nossas cabeças e perdemos tudo, as pessoas sumiram. Quando encontrávamos alguma delas na rua, elas desconversavam, diziam que passariam qualquer dia desses para trocar algumas palavras, mas esses dias nunca chegaram.

                Agora, olho algumas dessas que choram, e declaram juras de amor com suas lágrimas, e aprecio o ridículo espetáculo que estão prestando. Respiro fundo, fecho os olhos e deixo as próximas horas passarem com a velocidade que desejam.

*****

– Sérgio. Sérgio. Acorda.

– Tô acordado, só estava com os olhos fechados – Falo despertando do sono

– O caixão já vai descer querido. Gostaria de falar alguma coisa, se despedir, ou algo mais? – Pergunta Dona Francisca, enquanto afaga meu ombro.

– Não. Obrigado. Pode descer.

Ela me encara durante alguns segundos me analisando. Logo depois, balança a cabeça e vai embora.

– Então você é o famoso Sérgio. Deveria se despedir garoto, essa será sua última oportunidade. Depois não adianta chorar sobre a gelada lápide que levará o nome da sua mãe – Fala uma mulher que não conheço.

– Quem é você? Te conheço?

– Ainda não. Que falta de educação a minha. Sou sua tia Amélia.

– Humm, então você é a nossa tutora legal agora.

– Exatamente.

– Não quero parecer desrespeitoso, mas nunca ouvi falar de você.

– Eu e seu pai não tínhamos um relacionamento muito ortodoxo. Brigávamos muito e nos últimos anos acabamos por nos distanciarmos ainda mais. Digamos, que meus negócios nunca foram bem quistos por ele.

– Entendi. Mas por que uma mulher que não nos conhece, e não falava com nosso pai durante anos, gostaria de ser nossa tutora?

– Olha querido. Isso se chama família. Você pode brigar com os seus, mas independentemente de qualquer coisa, eles sempre serão seus parentes. Não poderia deixá-los na rua, ou em uma instituição pública qualquer.

– Entendi. Obrigado, eu acho.

– De nada querido. Agora vá buscar seus irmãos, a viagem será longa, e precisamos correr.

– Para onde vamos?

– Para minha casa, claro. No caminho explicarei tudo. Agora vai pegar seus irmãos.

*****

O carro de Amélia é uma Tucson preta, com bancos de couro, e ar condicionado. Parece um daqueles carros caros de comercial com tudo dentro.

Estou sentado no banco da frente, com a cabeça encostada na janela. Minha respiração embaçando o vidro. Lá fora, os paralelepípedos parecem travar uma corrida com as finas listras amarelas da estrada, todos eles em alta velocidade, sempre acompanhando o ritmo do carro. As arvores começam a despir-se de suas folhas, o outono está chegando.

Júlio e Alice estão apagados no banco de trás. Eles nunca gostaram de viagens de carro, sempre que papai programava nossas férias, e ela seria de carro, os meninos reclamavam.  Demora demais pai, meu bumbum fica dormente e dolorido, a gente fica parando toda hora para ir no banheiro, eram algumas das reclamações constantes, até mamãe detestava. Ela sempre achou muito perigoso dirigir durante a noite, e principalmente, ingerir tanto energético e outras bebidas cafeinadas para manter-se acordado. No fundo, acho que o que ela mais detestava, era o fato de ter que ficar acordada tomando conta do papai. Coitada, ela não conseguia pregar os olhos, sempre sonhando e imaginando o pior.

Agora estávamos ali, ao encontro do desconhecido, partindo sem escolhas para uma nova vida. Quem fomos um dia, provavelmente, ficará para trás. Talvez seja melhor, às vezes, depois da tragédia, tudo que precisamos é a reinvenção.

*****

– Vocês vão gostar da nova casa de vocês. Ela é bem grande e espaçosa, tem uma sala de tv gigantesca, e pasmem, temos até TV a cabo, uma das pouquíssimas casas da região com esse privilégio – Fala Amélia, enquanto tira os olhos rapidamente da estrada e me encara.

– Nossa que ótimo. Uma casa com TV acabo. Sensacional – Minhas palavras saem mais ásperas do que esperava, mas não confio nem um pouco nessa mulher.

Ela parece ignorar completamente a ironia das minhas palavras e prossegue – Sim, somos também a família mais conhecida da região. Não sei se já te contei, mas sou a vereadora da cidade.

– Que ótimo, mas uma pergunta. De que cidade estamos falando? – Pergunto interrompendo-a

– Mil desculpas, as vezes fico muito empolgada e acabo esquecendo dos detalhes pequenos, mais importantes de uma conversa. Sou a representante legal do município de Encruzilhada, no interior da Bahia.

– Interessante. Estamos indo para a Bahia então. Não é uma viagem meio longa, sair de São Paulo para a ponta do nordeste de carro?

– Que foi, não gosta de viajar de carro?

– Não é isso, é só que vamos passar um dia e meio na estrada, é bem exaustivo.

– Um dia e meio? Já foi para Bahia de carro alguma vez?

– Sim, a mais ou menos 2 anos, fizemos uma viagem de férias, e fomos para Salvador

– Entendi, que bom. E quem sugeriu a viagem, seu pai? –

– Sim, foi ele mesmo. Disse que adoraríamos a cultura, a culinária e o carisma do povo baiano.

– E que lugares exatamente vocês visitaram?

Faço uma pausa e analiso as últimas perguntas que ela fez – Por que o interesse todo na nossa viagem?

Ela para um momento, seu rosto cora, mas ela retorna com uma explicação – Muito simples, estou triste em saber que meu irmão foi a Salvador, e não teve coragem de percorrer mais alguns quilômetros para me visitar, até mesmo, levar vocês, seus filhos adoráveis para me conhecer.

– É realmente estranho, até ontem, nunca tínhamos ouvido falar de você. Se me permite, por que você e o papai brigaram?

– Sinceramente…. Não te permito. É um assunto pessoal e muito delicado, prefiro não falar sobre isso.

O silêncio se instaura novamente. Minha cabeça volta a encostar no vidro, e seguimos o restante das muitas horas de viagem na completa taciturnidade.

*****

Vejo a distância, uma placa verde, gasta pelo tempo com a palavra, Encruzilhada escrita em letras metalizadas prateadas.

Quando entramos na cidade, logo reparo que é um pequeno município, sem pavimentação, ou grandes construções, na verdade, parece ser uma pequena vila com casas humildes, pintadas com uma mistura de cal e bisnaga.

Na frente das residências, brincam algumas poucas crianças, a maioria com brinquedos improvisados, como carinhos de garrafa pet, bonecas de sabugo de milho e até uma bola de futebol completamente revestida com fita crepe.

Quando o carro começa a percorrer a estrada, as pessoas vão acenando com a mão, em resposta Amélia sorri e acena. Chega a parecer uma cena clássica de filmes antigos, quando uma celebridade entra na calçada da fama.

Comecei a entender, porque ela era uma das poucas pessoas do município inteiro que tinham “o privilégio” de ter Tv a cabo. Uma pergunta então surgiu a minha mente. Por que uma mulher com uma Tucson, moraria no interior da Bahia, em uma cidade sem asfalto?

Seguimos pelo caminho esburacado por mais uns 10 minutos. Quando viramos a esquina, demos de cara com um gigantesco portão de madeira maciça.

O carro sacudiu um pouco e passou pelo portão. Já dentro da propriedade, avistei uma casa gigantesca. Uma clássica construção de fazendas do período colonial Brasileiro. Sei disso, porque uma vez fomos a ouro preto e papai fez questão de nos levar em todos os museus e apresentar toda a história local, basicamente um panorama extremamente demorado da história colonial do Brasil.

Júlio e Alice acordaram com solavancos. Seus rostos estão inchados de tanto dormir. Praticamente dormiram a viagem inteira, só acordaram umas poucas vezes quando paramos para comer e ir ao banheiro.

– Já chegamos? – Pergunta Júlio enquanto cossa os olhos.

– Já sim. É hora de levantar dorminhoco – Falo abrindo um sorriso, mas como resposta vejo a cara entediada dele.

Paramos na frente da casa em uma garagem coberta com várias vagas desenhadas.

– Bom, sejam bem-vindos. Na entrada tem um capacho, limpem bem esses pés de vocês.

Limpamos os pés e entramos na casa. Meus olhos precisam de alguns segundos antes de se costumarem com o ambiente mais escuro.

A sala é ampla, com um sofá vintage cinza, uma mesinha de centro e uma gigantesca televisão na parede, como prometido.

Nas laterais, duas abajures tentavam iluminar e afugentar a escuridão do cômodo.  Um calafrio me subiu a espinha, provavelmente fruto com frio.

– Bonita, não? É toda construída com madeira maciça.

– Vou mostrar o quarto de vocês, depois falamos sobre as regras e as tarefas diárias que precisaram desenvolver.

Subimos a escada até o segundo andar. Enquanto piso os densos degraus de madeira, fico me perguntando se pertenço a essa casa, a essa nova realidade.

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Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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