Crônicas

A Busca por Sentido

– Você acredita em deus? – perguntei, surpreso. Daniel tinha uns 30 anos e estava de passagem pelo apartamento. Tínhamos conversado por certo tempo e assistido alguns filmes sem tocar nesse assunto e ele me parecia inteligente demais pra ser cristão.

– Sim, cara. Você não?

– Não.

– Por que?

– Nunca tive motivo pra isso.

– Você nunca acreditou em deus?

– Não, eu já acreditei… Já fui cristão, católico quando era criança… Depois acreditei em outras coisas na minha adolescência, estudei outras coisas…

– Tipo o que?

– Satanismo, Demonolatria, Goétia, Thelema, Caoísmo, Asatru, coisas desse tipo.

– Caralho.

– Eu achava que tinha motivos para acreditar, evidências… Mas quanto mais estudava psicologia e filosofia mais a minha fé diminuía.

– Mas também… Você queria que deus aparecesse com você evocando o demônio?

– Não, eu queria que qualquer coisa aparecesse: Deus, o capeta, Odin, formas-pensamento, Cthulhu, qualquer coisa… Mas não rolou. E você?

– Ah, eu tenho motivos pra acreditar.

– Ah é?

– Eu já tive cada experiência, vei… Um dia fui na casa da minha ex… O pai dela tava lá… Tava estranho… Eles são espíritas. Quando entrei ele ficou loucão, disse que eles tavam querendo entrar, que eles iam pegar a gente.

– “Eles”?

– Foi aí que eu passei mal e olhei pro portão, e deu pra ver… Eu juro pra você, cara… Um punhado de gente… Tudo podre… O corpo cheio de lama, sem dentes, deformados… Pareciam zumbis. Eles tentavam passar pelo portão, esticavam os braços… Eu não acreditava em deus, cara… Mas naquela hora eu pedi a ajuda dele, fechei os olhos e quando abri… Tinha uma espada de fogo do meu lado, eu juro pra você. Quando coloquei a mão nela eles sumiram.

– Hum.

– Outro dia eu fui falar com ela também… Ela viu… Cheguei lá, ele tava estranho, gritando. Disse que ia matar a gente, que ia levar a gente pro inferno. Que não ia deixar a gente sair, ficou na frente do portão. Eu mandei ele deixar a gente sair em nome de jesus e ele gritou e de repente voltou ao normal e não sabia o que tinha acontecido.

– Hum.

– E foi aí que eu soube que deus existe, cara. Quer ver? Deixa eu te mostrar um documentário.

E então eu assisti com ele um documentário de uns 40 minutos no Youtube sobre o vocalista da banda Raimundos e como passou de um drogado fodido e cheio de câncer à um crente sóbrio depois que uma religiosa que havia ido à sua casa orar colocou a mão na sua barriga e fez um milagre. Seu câncer começou a regredir e em alguns dias era como se nunca houvesse existido.

– Ok. Agora é a minha vez – disse e liguei a televisão. Coloquei para vermos um documentário chamado “Be Here Now – the Andy Whitfield History”* para ele.

– Então você me disse que o cara era um drogado fodido, que zombava de deus e tudo mais… Só comia porcaria e usava um punhado de merda, não procurou tratamento… Mas aí um dia deus foi e salvou ele. Bom, esse cara aí era um top-model, sex-simbol australiano com a saúde perfeita, não usava drogas e comia tudo certo. Merda, ele era a porra do Spartacus. Teve um câncer que 75% das pessoas que desenvolvem sobrevivem. Teve os melhores médicos e tratamentos e foi até a porra da Índia procurar medicina tradicional para ajudá-lo. E ainda assim morreu. Deixou pais, mulher e dois filhos crianças. Seu deus é meio cuzão, não acha?

– Mas em toda essa busca será que ele pediu a ajuda de deus?

– Cuzão e egocêntrico então… Tem que esperar pedir pra responder?

– Pode ser que a hora dele tenha chegado. Vai ver ele era tão bom que deus queria ele do lado dele, que a função dele já tinha sido cumprida…

Rolei os olhos e levantei.

– É claro… É sempre pra esse argumento que as discussões caminham… Quando os maus sofrem a explicação é que deus os está punindo… Mas aí quando alguém bom morre “é por que já deu o tempo dele” ou coisas do tipo. O sistema de logística divino deve ser foda pra conseguir planejar a morte de 300 pessoas num avião que cai… Ou das crianças na África… Ou de adolescentes em massacres escolares.

– Qual é a sua explicação então?

– Sorte. Ou falta dela.

– Então pra você estamos sozinhos.

– Yep.

– Como você consegue acreditar nisso?

Me sentei novamente, apagando o cigarro.

– Olha, cara… O ser humano está condenado a buscar um sentido pra vida, quer ele encontre ou não. Você tem que ir atrás daquilo que te traga um pouco de paz, que te faça dormir a noite e não se matar. Ou se você quiser se matar, você pode também – ele havia me contado em outra ocasião que já havia considerado o suicídio uma vez.

– Tá maluco?

– Não existem regras, cara, nem certezas… Se eu tivesse visto toda a merda que você viu – “ou disse que viu”, pensei – eu provavelmente também acreditaria – ou acreditaria estar louco, o que é mais provável – mas eu procurei por deus, procurei pelo diabo, procurei pelos anjos e os espíritos bonzinhos do Nosso Lar e o caralho a quatro e tudo o que encontrei foi o silêncio.

– Você não se jogou no chão e clamou por misericórdia… – aquilo já estava começando a me irritar.

– O cara do seu vídeo riu na cara da crente antes de ela “curar ele do câncer”. Minha tia em seus momentos mais sombrios de depressão e sofrimento que teve em sua vida disse ter sido salva pelo Arcanjo Miguel, que apareceu pra ela. A porra de um arcanjo! Não um anjo qualquer, não o arcanjo da cura, Miguel! Enquanto eu, em todos os meus momentos sombrios, tive que lidar com tudo por mim mesmo. Ele teve chances mais do que suficientes pra se mostrar e não o fez.

– Deve ter sido difícil.

– “Você tem que considerar a possibilidade de que deus não gosta de você. Ele nunca te quis, e é mais provável que ele te odeie”.

– O quê?

– É uma frase do Clube da Luta. “Não é a pior coisa do mundo”, ele diz.

– Não é?

– Nós não precisamos dele. “Se somos os filhos indesejados de deus, que assim seja”. Então obrigado pela sua misericórdia, mas eu vivo bem melhor sem ela.

 

*Ver resenha “Be Here Now – A História de Andy Whitfield”, do mesmo autor

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

2 comentários em “A Busca por Sentido

  1. Seu texto capta bem o pensamento de alguns religiosos: criam para si um deus na tentativa de dar um sentido para os seus sofrimentos e, com isto, um alívio. Eu respeito quem tem este tipo de crença, mas sei que é possível caminhar sem muletas e viver feliz assim. De qualquer forma, belo texto!

    Curtido por 1 pessoa

    • É, eu também não tenho problemas com gente que acredita em algo, mas quando ficam tentando te converter ou convencer de algo, enche o saco. Obrigado pelo comentário.

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