– David, você é a favor da preservação ambiental?

– Eu sou a favor da extinção da espécie humana.

– Ah, então tudo bem – Norman disse e então jogou a lata de energético vazia na rua.

Já fazia alguns meses que eu tinha voltado de São Paulo para minha cidade no interior e eu não tinha muita coisa para fazer. Além de ler, beber e assistir algumas séries, eu havia voltado a sair com Norman com certa frequência e em um dos finais de semana ele me convidou para ir a um bar de rock famoso na cidade que eu nunca havia ido antes. Eu estava acostumado a ir e tocar em shows que cobravam 10 reais a entrada, vendiam cerveja barata e normalmente acabavam com alguém sangrando e banhado de cerveja no meio de uma roda punk. Como aquele bar cobrava quatro vezes o valor e era frequentado pelos zumbis da minha faculdade eu nunca havia tido interesse de ir (e me perguntava que tipo de rock poderia tocar num lugar frequentado por zumbis universitários), mas Norman tinha um amigo que nos arranjou ingressos antecipados mais baratos e então aceitei.

Tomamos umas cervejas antes em um lugar mais barato como de costume e fomos a pé. Chegamos cedo para os padrões do bar e eu fui mijar em uma árvore enquanto os zumbis chegavam e formavam uma fila: Usavam camisetas polo e vestidos com brilho, e me perguntei mais uma vez que tipo de bar era aquele.

Por fim entramos, eu comprei uma dose da bebida de maior custo benefício (mais teor alcoólico por menos preço) e fiquei bebendo. Norman comprou um copo de uma bebida azul gaseificada que vinha com um canudo preto.

– O lance aqui é você ficar com um copo de bebida o tempo todo na mão.

– Por que?

– Ah, é o que dá status.

– Norman, eu já disse que te odeio hoje?

Fomos mais para o meio da pista. A banda ainda não havia chegado e ficamos ouvindo uma lista de músicas programada enquanto algumas imagens brilhantes apareciam no telão com um nome que não sabia se era do DJ ou simplesmente da marca de um pendrive que deixaram rodando, já que ambos poderiam cumprir a mesma função. Pelo menos era rock, de fato.

As pessoas naquele lugar eram estranhas, elas riam e sorriam de uma maneira idiota, mas sei que estatisticamente eu era o estranho ali. Haviam alguns garotos jovens com rostos desengonçados e penteados escrotos, homens narigudos, carecas, de topete, todos de camisa social, conversando entre si. Eles olhavam as mulheres com sorrisos sacanas depois comentavam algo entre si e riam.

Enquanto eu estava observando a cena, um cara de jaqueta chegou do meu lado e disse, rindo:

– Os caras chegam seco nas minas – ele disse gritando, tentando superar o volume da música do DJ.

– Ah é?

– É, chegam que as mina até assustam. Só levam fora.

– Ah.

E então saiu andando, continuando a fazer o que quer que estivesse fazendo antes. Norman se aproximou:

– Sabe quem era?

– Não faço ideia.

– O povo é meio estranho, né?

– Pois é. Vi um cara ali que achei que era um amigo meu, mas não sei se é ele ou só um cara com barba.

– São todos iguais, né?

Concordei. Ficamos mais um tempo ali. Eu havia terminado minha bebida, Norman continuava com seu copo com canudo na mão e me deu um gole. Eu estava relativamente bêbado por causa das cervejas do outro bar, mas continuava parado no meio da pista, com as mãos nos bolsos do moletom, observando.

– Queria te falar uma coisa, mas que você não considerasse uma ofensa – Norman falava gritando, do meu lado.

– Pode falar.

– Eu normalmente venho nesses lugares e fico bem mais solto.

– Ah é?

– É, normalmente eu já estaria pulando lá no meio e falando com todo mundo. Mas parece que com você aqui eu fico mais travado, como se você sugasse minha energia – ele disse rindo – mas sem ofensa, não quero que pense que quero que você vá embora.

– É, eu costumo funcionar como um superego portátil pras pessoas – eu ri – considero isso um elogio.

Nós rimos. Eu percebi que precisava de um cigarro.

– Vai falar com seu amigo então, vou no terraço fumar.

Subi as escadas e fiquei no terraço um tempo, fumando. Estava frio, eu fechei meu moletom e coloquei o capuz. O lugar estava mais tranquilo, com menos gente, então acabei perdendo a noção do tempo enquanto olhava pro céu e ficava perdido em pensamentos. Algum tempo depois Norman apareceu e disse que a banda já tinha começado a tocar, então descemos novamente. Enquanto descia as escadas um dos seguranças engravatados fez um sinal para que eu tirasse o capuz. Eu tirei e voltamos pra pista.

A banda era incrivelmente boa e, apesar de as músicas serem bem clichês, “carne de vaca” como costumávamos chamar, percebi a diferença da qualidade do som para os bares em que costumava ir e tocar. Quando tocaram Black, do Pearl Jam, eu fiquei realmente emocionado, e consegui ignorar todos os zumbis à minha volta com seus sorrisos e seus smartphones.

– Uma coisa desse bar é que mesmo que as bandas mudem, o repertório acaba quase sempre sendo o mesmo – Norman disse – nunca muda, só uma música ou outra.

Conforme a noite passava o repertório ia ficando mais pesado. Uma hora começaram a tocar Fear of the Dark. Um casal à minha frente se juntou e ergueram o celular para tirar uma selfie e quando olhei para o lado, vi um grupo de umas cinco pessoas de costas para o palco fazendo o mesmo.

– Que caralho de gente que vem num show de rock pra ficar tirando selfie em grupo no meio da pista?! – eu disse para Norman. Empurrei os zumbis para fora do caminho e me aproximei do palco. O cara da jaqueta estava lá, dando em cima de uma mulher que usava uma blusa com as costas expostas. Ele fazia sinais para ela e tentava se aproximar, mas ela recusava. Do outro lado dela havia outro homem que mostrava algumas fotos no celular para os dois e olhando aquilo parecia que estava vendo duas hienas rodeando um pedaço de carne. Aquilo continuaria o resto do show, ela não parecia se incomodar, não saía do lugar, mas os dois não a deixavam em paz, e aquilo começou a me deixar enojado.

Mas felizmente não eram todos assim: Quando a parte rápida da música começou a tocar e eu batia cabeça, alguém colocou a mão sobre meu ombro e começamos a pular e logo eu, Norman e mais uns cinco adolescentes fizemos uma breve roda punk e eu logo acabei banhado em cerveja.

Depois que a roda se desfez eu continuei curtindo a música sozinho, mas quando virei para trás vi que algumas pessoas não haviam gostado de nosso entusiasmo. Um cara mais velho havia ficado puto e reclamado dos jovens e um dos seguranças engravatados e carecas apareceu reclamando e ficou parado ali no meio.

A banda disse que iria tocar sua última música e os barulhos de metralhadora e helicóptero de One, do Metallica começaram. Acho que era a primeira vez que eu ouvia aquela música tocada ao vivo. O careca não iria nos deixar curtir novamente a parte rápida em grupo, mas eu consegui aproveitar sozinho até o final.

Por fim o show acabou e eu me virei para falar com Norman sobre o que iríamos fazer. Vi que o segurança ainda estava lá, de braços cruzados e uma expressão séria. Ele deveria estar se achando muito poderoso, os adolescentes o olhavam com raiva mas ninguém encostava nele. Ele devia pensar “estão todos putos comigo mas não podem fazer nada” e é daí que vinha seu poder.

Eu sabia que ele estava fazendo apenas seu serviço, mas estava bêbado, com adrenalina no corpo e ele cortou nosso barato, então resolvi cortar o dele. Ele não era tão alto. Quando fui me afastar do palco dei um encontrão em seu ombro que o pegou de surpresa e ele teria caído se não fossem os zumbis à sua volta.

Andei até o meio da pista, me virei para esperar Norman e vi que o segurança estava me encarando com ódio no olhar. Pensei que aquilo havia sido bem infantil de minha parte, mas não importava, agora a situação havia se invertido e era ele que se sentia impotente. Norman veio até mim e disse a ele que iria fumar um último cigarro antes de irmos embora. Subimos para o terraço e sentamos em uma das mesas enquanto eu acendia.

– O segurança ficou te encarando quando a gente saiu.

– Eu vi. Fazer o que se esses roqueirinhos gourmet que ficam tirando selfie no meio do show não aguentam uma simples roda punk?

Ele riu.

– O cara da jaqueta que tinha falado comigo tava lá na frente do palco – eu disse – tinha dito pra mim que os caras chegavam nas mulheres e só levavam fora, mas ele ficou até o final do show enchendo o saco de uma delas lá na frente.

– É, é bem assim que funciona.

– Ela também não saía de lá. Tinha um outro do outro lado que ficava mostrando umas fotos… Isso realmente funciona com alguém?

– Ah, é o que eu tinha te falado… Aqui as mulheres curtem vir pra dar fora nos caras. Aumenta o ego delas.

– Que merda.

– É, você não viu aquela hora? Uma delas ficou dando mole pra mim, indo pra trás… Outro cara perguntou se eu ia, mas eu disse que não ele tentou e quando viu ela tava acompanhada. Isso aí é encrenca.

– Que merda. Tá cheio de allumeuse por aí. Coisa escrota.

– Pois é.

Terminei de fumar e descemos. As pessoas formavam uma fila pra ir embora, mas conseguimos pagar no andar de cima e saímos por uma porta ao lado. Quando estávamos na frente, vimos um homem caído no chão, sangrando pela boca, com outro segurando sua cabeça e algumas pessoas em volta olhando. Ouvi algumas comentando alguma coisa sobre uma briga com um segurança.

– Não, não, não precisa chamar ambulância não, ele tá bem – ele dizia pro povo, ajudando o amigo – eu quero a imagem daquela câmera ali! Eu quero todo mundo sabendo o que aconteceu.

Enquanto atravessávamos a rua do barzinho gourmet para ir embora eu senti o cheiro da cerveja nas minhas roupas, olhei uma última vez para o homem sangrando no chão, lembrei dos meus shows nos botecos e pensei:

“É, até que não foi tão diferente assim”.

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