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A lenda de Alanis – Capítulo 01

Sem Título-1

 

Prólogo

Quebrem meu crânio com a pedra mais pesada e aguda que essa amarga e amaldiçoada terra tem. Deixem que meu sangue antes vivo escorra pelas rachaduras do árido chão.

Destrocem, destruam e queimem meu corpo e minha tortuosa e amaldiçoada existência, mas no fim, libertem ao menos o meu espírito, ele merece paz. Que a pedra mais pesada a seja a portadora de boas notícias, a libertação.

Sim, sim, terminem com a minha vida, deem um fim a esse sofrimento e tormento que atravessa as gerações de minha família.

Que os pecados de meu pai sejam jogados sobre meu cálido e frágil corpo. As chamas e o calor que vieram sobre nossas histórias agora consumam-me e finalmente tragam alguma honra para aqueles que ainda não nasceram.

Que Taranis receba o meu sacrifício de bom grado. Que minha soltura seja louvada pelo marchar de seus gloriosos cavalos no céu, e na terra os corações tremam, pois, uma inocente deixa de viver para encontrar a paz.

Nem mesmo a morte ocultará a honra que me acompanhou durante minha vida. Como palavra final, rogo que Sucellus crave o seu forte e longo martelo na terra e impeça que qualquer planta ou fruto floresça, e a época da boa comida se aparte de vocês que injustamente amaldiçoam o inocente e toda sua geração.

Que as chamas que consumiram um dia o meu antecessor agora me dominem e tornem cada um dos meus gritos motivos para ainda mais arder.

 

 

Capítulo 01 – As histórias nunca contadas

 

Você quer conhecer a minha história? Não seja um completo tolo Brayan. O que você me pede é uma completa loucura.  – Falo encarando-o bem de perto

Brayan nunca foi de amedrontar-se facilmente quando o assunto era obter uma boa história para sua coleção. Agora, ali diante da única mulher que nunca lhe contou uma única palavra sobre a vida, as frustrações e as aventuras de sua existência, ele me encara duramente.

– Não seja amarga Alanis. Você não quer ser eternizada nos céus juntos aos trovões que os bravos, brancos e gloriosos cavalos de Taranis* produzem?

– Você bem sabe que não. Pouco me importa os céus ou bravos cavalos místicos. E saia logo da minha frente moleque, não tenho tempo para aprendizes de Bardos.

– Moleque? Mas veja só. Temos a mesma idade. E saiba que ainda descobrirei sua história e escreverei na parede da caverna mais imunda dessa cidade para que seu espírito permaneça preso a ela.

– Ah claro. Faço isso pequeno palhaço do rei. E sim, temos a mesma idade, mas jamais a mesma mentalidade. Eu poderia facilmente ser uma.

– Uma Bardo? Não seja uma completa imbecil Alanis. Preciso lembra-la da luz e calor que consumiu a geração de seu pai e a sua?

Ao ouvir aquelas palavras meus punhos se fecham. Consigo imaginar socando-o bem cara e o sangue vermelho e vivo escorrendo por seu rosto pálido. A fúria toma minhas veias. Levo o braço para trás pegando impulso.

– Isso, me bata. Tire sangue de mim e termine de jogar na desgraça suas gerações futuras – Antes que eu possa acertá-lo suas palavras me desarmam.

Abaixo a cabeça e sigo para o bosque.

As folhas balançam de um lado para o outro acompanhando o leve e gélido vento da tarde. Os fracos raios de sol invadem os estreitos espaços entre as densas copas.

O chão parece um pedaço do céu durante o dia, pontos iluminados na escura terra da mata.

Decido fazer uma brincadeira. Imagino que tudo está cercado de Shides* com dentes afiados, olhos esbugalhados e pele verde como a água mais suja dos riachos e as os únicos lugares que posso pisar são os pedaços de luzes.

Saio saltando de um por um por, no início é simplesmente fácil demais, há vários espaços, mas quando vou avançando mata a dentro, a luz encontra dificuldade para transpassar as folhagens. Com o nível de dificuldade aumentando, minha aventura fica mais interessante.

Paro e observo que o único lugar a salvo que posso pular é um minúsculo círculo próximo de um belo carvalho. Respiro fundo tomando fôlego, e salto com tudo. Meus pés tocam o chão, mas escorregam. Caio lentamente e bato no tronco da arvore.

Fico atordoada pelo impacto. Fecho bem os olhos, inspiro lentamente para afugentar a tontura.

Enquanto estou de olhos bem fechados, consigo escutar o barulho distante das aves. É uma melodia aguda. Minha avó costuma dizer que quando os pássaros estão fazendo muito barulho eles estão fofocando da gente.

Uma vez perguntei a ela por que os pássaros gastariam seu tempo falando sobre nós? Ela prontamente me respondeu que lá de cima eles conseguem ver tudo, até as coisas que fazemos escondido que ninguém mais deveria saber.

Abro os olhos esperando que a tontura tenha passado, e foi realmente o que aconteceu. Levanto e vou para o centro da mata fazer minhas preces.

Encaro o grande Carvalho, a arvore mestre, templo de adoração e comunicação com os deuses, mas especificamente a minha guia Epona*. Nos últimos dois anos as copas dessas arvores tem sido testemunhas diárias do meu sofrimento,

Todos os dias no mesmo horário me coloco em frente ao longo, grosso, amarronzado e gasto tronco. Começo calmamente agradecendo por abrir os caminhos de volta a tribo, por afugentar as trevas e guiar os meus torpes passos. Quando a melodia de agradecimento se acaba, meus olhos enchem de água. O fim do agradecimento parece um sino que desperta o choro em mim.

Instantaneamente lembro de meu pai. Um inocente homem purgado da amaldiçoada terra que cultivou.

Peço a Epona que finalmente traga paz para sua alma, que a aldeia decida esmagar seu velho e gasto crânio.  Ninguém deveria ficar preso a uma oca embalagem de ossos, exposta na mais alta prateleira.

Meu clamor de estende e pede que cada uma das pessoas que forma injustamente consumidas pelo calor da justiça possam ser liberadas. Que seus crânios sejam estraçalhados e enterrados ao lado de seu corpo e suas riquezas de direito. Um homem não merece chegar do outro lado sem as recompensas de uma vida ao seu lado.

O ouro, a prata, o bronze e suas armas são cartões de entrada para uma terra mais frutífera, para a casa dos sonhos, o que o homem conquista em vida, ele continuará tendo em morte.

Minhas lágrimas regam as longas e expostas raízes da arvore. Que cada gota do meu eterno sofrimento alimente Epona, e ela jamais se esqueça de meus gritos de tristeza pelos que foram injustiçados.

 

*****

Entro rapidamente em casa. O sol já está se pondo no horizonte e prometi a minha avó que não me prolongaria em minhas preces, mas fiz justamente o contrário.

– Vó me desculpa. Eu fiquei escutando os conselhos de Epona e acabei perdendo a noção do tempo.

Ela me encara com raiva – Alamis você precisa ter responsabilidade. Sabe que hoje a noite nosso pedido será julgado diante da tribo.

– Sim eu sei. Foi exatamente por isso que fui a floresta.  Queria pedir a interseção de Epona por nossa família.

– Você fez a coisa certa minha filha. Venha cá.

Ela me prende em seu abraço mais forte. Ficamos ali paradas por alguns segundos antes de sermos interrompidas.

– Alanis, Alanis – Entra Hilde gritando.

– Que susto garoto. Enlouqueceu? – Vocifera minha avó para Hilde

– Desculpe dona, Vaughan. Não foi minha intenção assustá-la. Só queria falar com Alanis.

– Ela não vai sair Hildebrando.

– Como assim vó? É rapidinho. Só vou conversar com o Hilde e volto – Falo fazendo um cara de triste.

– Rapidinho como ir a mata fazer as preces?

– Eu já pedi desculpas, e a senhora mesmo disse que foi uma coisa boa. Deixa, é rapidinho.

– Tudo bem Alanis, mas não demore, temos que esmagar o trigo para a cerimônia.

– Sua avó ainda esmaga o trigo? – Pergunta Hilde quando já estamos distantes de casa.

– Sim, mesmo sabendo que ninguém irá comer. Chega a ser humilhante. Em todas as cerimônias levamos a nossa melhor vasilha cheia de pães e ela retorna intocada.

– É realmente triste. Você sabe que eu comeria tranquilamente, mas o mestre não permite que eu me aproxime da mesa.

– Eu sei Hilde. Obrigado.

– Não fica triste Alanis, você e sua avó não tem culpa.

– Eu sei, mas é ruim ser a família amaldiçoada da vila. Mas hoje isso vai mudar. Epona irá interceder por minha família e trará a libertação sobre nós.

– É sobre isso que eu gostaria de falar com você.

– O que foi? – Pergunto ansiosamente

– O conselho decidiu não libertar o seu pai.

As palavras de Hilde são como um soco que me acerta direto na boca do estômago. Fico sem ar e reação. Sinto a minha cabeça rodar e de repente me vejo encostando na parede ais próxima para não cair.

– Por que? Por que mais uma vez eles negaram meu pedido? – Falo com a voz embargada pelo choro

– Não sei. Recebi a lista agora a pouco para preparar os crânios para a cerimônia de libertação e o do seu pai não estava nela.

– Não sei o que dizer. Minha avó parece esperançosa, não sei nem como contar a ela. Ela provavelmente vai dizer que poderemos tentar uma vez mais ano que vem, que em algum momento a justiça vai sorrir para gente, mas ela ficaria arrasada.

– Desculpe se o portador de todas as notícias ruins, mas ainda não acabou. Quando recebi a lista fui tentar escutar o que eles estavam conversando na sala e acabei ouvindo que eles não pretendem mais aceitar os pedidos de libertação de sua família.

– Mas? – Começo a falar, mas o choro interrompe as palavras que desejam sair.

Hilde estica os braços para me abraçar, me desvencilho dele e saio correndo para a mata aos prantos.

*****

 

Olho para o escuro céu da noite tomado pelas estrelas. Meu coração está embriagado de raiva, ódio e rancor. Que direito uma vila tem de atormentar e aprisionar um homem? Não basta mata-lo da maneira mais humilhante, precisa continuar atormentando-o pela eternidade.

Onde está Epona agora? Me abandonou, me deixou largada na terra amaldiçoada regada a humilhação de minha família.

Encaro o carvalho com raiva. Pego uma pedra afiada no chão e atiro com toda a força contra o tronco.

– Que a maldição caia sobre cada um da vila. Que o calor de 1000 sois aqueçam o solo e queimem a plantação. Que a peste consuma cada folha verde do pasto. Clamo para que os carrapatos venham em multidões e se instalem nos animais, levando-os a morte. Que a riqueza seja consumida, e a miséria torne-se o companheiro da cada um que injustamente jugou minha família. Eu amaldiçoo a terra que um dia absorveu minhas lágrimas de tristeza e desespero. Já que não pode acolher minhas súplicas de libertação Epona, aceite meu pedido de vingança.

– Enlouqueceu?  – Uma voz ecoa logo atrás de mim.

– Quem está ai?

– Sou eu Alanis – Fala Hilde saindo de trás de uma árvore mais à frente.

– Estava escutando minhas preces?

– Jamais. Você sabe que eu não faria isso. Fiquei preocupa com você e vim procura-la

– Não precisa se preocupar comigo, não sou nenhuma criança.

– Alanis, todos nós somos crianças, temos só 14 anos. Mas isso não importa. Você enlouqueceu?

– Por que? Por amaldiçoar aqueles diariamente me destroem?

– Se qualquer pessoa escutar essas coisas e levar ao mestre você será punida.

– Que o ceifador, o juiz, o ditador dessa terra me julgue culpada.

– Eu sei que você está chateada.

– Chateada? Hilde eles querem deixar meu pai aprisionado pela eternidade.

– Eu sei. Mas o que podemos fazer? Se dependesse de mim essa decisão, já teria libertado seu pai. Mas sou um simples aprendiz de Druida, e ainda preciso de 8 escuridões totais para ter alguma autoridade de verdade.

– Isso não pode e não vai ficar assim. Meu pai merece ser livre.

– O que você vai fazer?

– Ainda não sei, mas farei algo em breve.

– Não pense nenhuma besteira. Agora vamos retornar à aldeia que sua avó deve estar preocupada.

 

 

 

 

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Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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