Era feroz a sua solidão.
Tal qual a angústia dos dias que se passavam, como uma paixão velada pelos dogmas do cristianismo, o sofrimento do mais puro mártir em explicar o que não poderia conceber. Restou rasgar as fotos do passado, mostrar as antigas e flamejantes línguas que seu fracasso era concebido e agora nada mais era que um moribundo errante. Solitário com o maior princípio da palavra, erroneamente tratava-se de ter motivo para que as pessoas o odiassem. Sentia-se só pelo próprio desprezo de ser a si mesmo. Derrotado pela inútil marca de tentar até exaurir-se.

Planejava a sua mudança para localidades mais ao sul. Com seus pertences já amarrados em uma mochila e algumas malas com mais livros do que roupas, tinha traçado o caminho para o abandono. Trabalharia como recepcionista de um hotel pouco frequentado em uma parte suja da cidade – está tudo arranjado – pensou ao olhar para aquela suja e velha bolsa jeans com pífios itens de higiene.

Em sua última olhada para o cômodo vazio pensou em como sua infância e adolescência fora perdida pela prisão imposta pelos pais. Imaginara o tanto que não pudera viver por causa de poucas regras autoritárias e pelo celibatarismo religioso que sua família assim o impõe. Era o único filho homem e fora prometido ser padre, porém no seu âmago sempre escondera o ódio que tinha perante a Deus e como achava inútil e antiquado os escritos bíblicos. Curioso pensar que nenhuma de suas irmãs seguiu carreira religiosa, e duas delas haviam engravidado antes mesmo de chegar a maior idade.

Solidão.

A velha madeira carcomida do solo e o fino rastro de cupins que devoravam em velocidade ínfima o seu velho e duro guarda-roupas. Com as estantes vazias e os móveis sem mais a marca de sua presença pensara em como era inútil naquele lugar, apenas um fantasma rondeando as decadências de cada membro. Não conseguia lembrar de amigos próximos e muito menos amores distantes. Fora conhecer o que era uma mulher já muito tarde, apenas aos vinte dois.

Solidão.

Talvez naquele silêncio inerte da perante despedida de um lugar que testemunhou todas as suas intimidades, tornara-se um amigo estranho aquele Quarto, quase como uma cripta. Sabia que haveria um pleno lamento em deixar para trás aquilo que não vivera de pronto, mas se animava em saber que agora poderia aprofundar-se na literatura sem o barulho incomodante dos entes de sua família.

Encarando como uma imbecil estatua o nada, veio uma zombeteira Barata a rir. Caminhara pela a fresta da porta, subindo pelos umbrais até a parte posterior e depois vindo a descer em grande velocidade até o centro da parede, logo acima da escrivaninha. Parou e balançou as pequenas antenas como se tateasse no escuro alguma coisa de real interesse. Quase como se o encarasse, como zombasse. Pensara como se fosse um secreto hospede, que quase como aquele Quarto testemunhava todas as dores e lágrimas de uma juventude perdida para inutilidades.

Era marrom com uma casca bem dura, um pouco maior do que seria uma Barata comum, o barulho das suas patinhas destruía o silêncio do Quarto e trazia um incomodo sobrenatural. Era impossível de não desgrudar os olhos daquele hospede secreto que bailava pela parede, indo até a escrivaninha.

Sua estação de trabalho, pensou nos diversos textos que escrevera e guardara, agora tudo jaz em cinzas em um cesto de lixo, junto com poucas fotos de faces agora irreconhecíveis pelo poder destruidor do fogo. A Barata, como se o encarasse de forma questionadora, o perguntava sobre seu talento perdido para a literatura, sobre o tanto que batera naquelas máquinas de escrever antiquadas quebrando o silêncio noturno. Tantas histórias, tantos contos que poderiam virar livros, tudo morto e cremado. A Barata novamente rodopiou pela velha estação de trabalho, quase como um cachorro chamando a atenção do dono.

Era algo lamentável, pensara em todo tempo desperdiçado e como a vida em vão se tornava um cemitério de desejos intoleráveis. Pensara em todos os vícios que gostaria de ter possuído, pensara em todas as perdições possíveis e nas histórias que teria que inventar para simular uma vida real. Tudo que sabia era de seu puro âmago e só aquela Barata e aquele Quarto eram testemunhas de quem ele realmente era. Claro que não poderia deixar para trás documentos tão formais sobre suas mentiras, sobre as histórias que contaria para angariar falsas amizades.

Mas qual o motivo disto tudo!?

– Qual o motivo? – disse em voz alta, quebrando a narrativa silente.

Aprofundou a respiração e ponderou. Precisaria mentir, de fato, para simular o que não era? E o que verdadeiramente era? Talvez tinha se perdido em tantas mentiras, em tantas rodas de inimizades dos quais possuía algum afeto. Tanto para sua família como para as irmãs que se foram, tanto para aquele ínfima Barata que ria, ria, ria e rodopiava como uma boba.

Sentiu uma dor.

Sentiu a mais direita razão.

No estreito do qual não deveria ser.

Dos livros que carregaria consigo, mal lera metade. FARSA, pensava em que diriam em saber que mal sabia das coisas que dizia FARSA, pensava em sua imagem e sua reputação FARSA, mas qual? Era um solitário, um solteirão, um minúsculo ponto inconsequente diante ao tráfego dos milhares e milhares de automóveis e conduções. Era um urbanoide que trazia em suas costas a Elegia de sua pobre vida & juventude.

Não embriagara como todo os outros, mas dizia que sim.

Não caia nas perdições da vida boêmia, mas dizia que sim.

Quase fora padre, odiava Deus.

A Barata sabia disto tudo.

Olhou para aquele inofensivo e acusador animal. Ela estava inerte, na ponta da escrivaninha. Ela sabia de tudo, ela sabia de todas as suas mentiras, ela era a testemunha ocular de todos os crimes. Estremeceu. Havia deixado uma testemunha de sua vida inteira, havia deixado um rastro e aquela Barata era o rastro. Por mais que o Quarto soubesse tanto quanto ela, o Quarto não sairia dali, e quando estivesse longe, os únicos que adentrariam tal recinto seriam os entes de sua família e os mesmos não saberiam discernir as histórias reais das mentiras que tal cômodo contaria.

Porém a Barata era o mal.

A dor, a sapiência dos demônios.

Deus encarnado na mais pura punição.

A Barata sabia demais. Ela contaria para todos que ele deixou para trás sobre os livros que não lera, sobre as histórias que não vivera, sobre as mulheres que ele não deitara. A Barata sabia dos seus segredos, do que não poderia ser contado nem mesmo para o mais profundo sábio, ou inquisidor. A Barata sabia a quem ele havia prometido vingança, sabia para quem ele já havia traído a confiança, sabia quais eram os medos, suas repugnâncias, e o que se diferenciaria de verdade e ficção. A Barata, junto ao Quarto, fariam a dupla perfeita no ato difamatório de seu ser. Seria a eterna condenação a mais pura solidão (apesar que o mesmo já estaria condenado há muito tempo a esta condição) A Barata representaria sua morte, sua morte andante. Seria o delírio de Freud, a loucura de Nietzsche, a orelha decepada de Gogh. A Barata tinha o poder de uma arma atômica e poderia destruí-lo se ela desse com a língua entre os dentes.

E ela o faria, a Barata o odiava.

Ela o entregaria, tinha que pensar rápido.

Não poderia simplesmente matar a Barata, porque o seu cadáver já traria muitas questões e o objetivo de uma questão é ser respondida. As pessoas iriam esmiuçar o motivo do homicídio daquele inofensivo e repugnante animal. O porquê daquele homem sem fé ceifar a vida daquele incipiente ser. Cairia a bota sobre o seu corpo e o mundo saberia, num estalo, que os segredos não morreriam, pois o corpo estaria ali.

O Quarto era de menos, ninguém o daria ouvidos.

Muito menos credibilidade.

Mas Ba-ra-ta fora sua companheira de Quarto/cela, Barata sabia dos esquemas, das artimanhas e ela era insubornável. Tratou de simplesmente desejar a destruição do seu egrégio companheiro.

Barata iria falar para o mundo que ele era uma Farsa.

Novamente perambulou com suas esquisitas patinhas pela escrivaninha, por cima do tampo de madeira, como se o desafiasse. Não sabia o que fazer, mas ela não poderia sumir de vista, tinha que ser feito.

Aproximou-se lentamente para não fazer o seu nêmeses desconfiar de tão profano ato. Precisava silenciar o monstro, o minúsculo monstro, precisava dar fim antes de partir para que nada ficasse pendente. Não poderia haver pontas soltas.

Pegou em um movimento rápido e ágil a Barata pelas anteninhas. Eram tão frágeis que poderiam partir jogando-a em um inferno de sentidos loucos e destoantes, haja visto que é o sistema nervoso do pequeno ser. Segurando com firmeza e olhando com severidade, via tal inquisidora se debater entre os dedos daquele pesaroso e solitário homem. Ela não suplicou, ela simplesmente se debatia tentando trazer violência ao seu certo fim, quase como um grito sem súplica, apenas ódio, como se em sua face gritasse as frias palavras do “EU SEI”

Debatendo-se até o fim, ergueu o mínimo ser sobre a cabeça o analisado por inteiro, segurava com firmeza, pois em nenhuma hipótese poderia deixa-la escapar. Sabia que não poderia deixar vestígios e sabia como fazê-lo. Seu futuro estava em jogo, por mais que fosse um tanto quanto imbecil pensar, nesta altura, em algum grandioso futuro. Porém tinha que guardar o que restara e aquele asqueroso ser poderia fazer tudo vir a perder. Sabia o que precisava fazer e sabia que não poderia deixar rastros.

Abriu a boca e comeu a Barata, mastigando sua dura casca fazendo um barulho de crocância que, pela última vez, quebrara o silêncio do Quarto e, enfim, a engoliu

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