Textos

Alá Akbar

Um All Star preto de cano alto, com os cardaços em xadrez, uma calça rasgada no joelho e uma regata escrito Rock n’ Roll meio desbotada. Uma garrafa de cerveja em sua mão, na outra um cigarro aceso, e o revezamento entre nicotina e álcool fazia com que adrenalina em seu corpo atingisse patamares altíssimos.

O ambiente era escuro, só clareava pela luz dos holofotes do palco pequeno daquele rock bar famoso na cidade de São Paulo.

A banda que tocava se chamava Raimundos, e diretamente de Brasília tocavam um som pesadíssimo, as rodas de bate-cabeça se formavam enquanto à garota bebia e observava os riffs e toda aquela energia.

Fumaça aos céus, muita gente entorpecida por álcool e drogas, jovens demais para serem cobrados pela vida, imaginavam eles que seus casacos de couro o protegeriam do mundo e nada temeriam enquanto estivessem com os dedos para o alto em formato de chifres e berrando a pleno pulmões o refrão de quero ver o oco.

O mundo para ela não importava mais, enquanto sacudia a cabeça para cima e para baixo e seus cabelos esvoaçavam ao vento, enquanto o álcool e a adrenalina faziam seu trabalho, nada e ninguém importava.

Ao fundo só ouvia o som uníssono de mais de quatro mil pessoas catando;

Meu ódio por automotores começou cedo
Depois que eu tranquei os dedo na porta dum Opalão
Meu pai de dentro se ria que se mijava
Achou que o filho festejava, era dia de Cosme e Damião
Depois do dedo, foi o braço, a perna, as costa
Tu duvida, bate aposta
Pois muitos vão lhe testemunhar
Tanta fratura que deixou a doutora louca
É pino até no céu da boca
Tu cansa só de tentar contar

Eu quero é ver o oco
É pedir muito uma enfermeira vir me ajudar?
Eu quero é ver o oco
Ó enfermeira, gente boa, vem me medicar

Eu quero é ver o oco
Eu quero é ver o oco

Mais ela não percebeu que os gritos do refrão pararam de ser música e se tornaram berros de desespero, ela demorou alguns segundos para ver que a roda que se abria em vários pontos não era para bate-cabeça e que as pessoas que começaram a trombar em si não estavam no empurra empurra habitual de shows.

Algo estava errado. Bloom!

Havia sangue por todos os lados, choros, berros de agonia que transcendia as barreiras do som daquela banda, que agora era só um zunido distante o bastante para não ser reconhecido.

KABUM!
Era o álcool ? Caralho só podia ser o álcool. Que brisa era essa ? Eu vi pessoas explodirem sorrindo e matando milhares ao seu redor.

Bloom!

Cadê toda aquela energia ? Onde estão as rodas. Onde ela estava, só precisava acordar daquele pesadelo.

Mas era tão real, lembrava-se de ter se arrumado e de sair de casa para o show.

Sabia que beberá demais da conta, mas isso era loucura, as pessoas estavam mortas e o show havia se tornado um campo de guerra em uma fração de segundos.

Ela viu um homem se arrastar sem as pernas, e em outra ponta uma mulher desesperada sem o braço.

Ela só se deu conta que era realmente a realidade, quando um garoto de jaqueta de couro passou correndo e trombou nela, ambos caíram e ele disse;

– Alá Akbar.

 

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Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

1 comentário em “Alá Akbar

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