O dia em que quase morri.

Baseado em uma história bem recente.

 

Estou na varanda do meu apartamento, cigarro acesso, vento leva a fumaça para além do mundo que consigo imaginar. Telefone toca, minha noiva, ignoro. Ignoro por ignorar, estou deliciando-me de um momento de solidão único, impar, serene. Talvez até raro. As buzinas dos carros se misturam com as vozes e os murmúrios. Cai a noite, seis horas e contando, nesta etapa da minha vida eu já havia desistido de muita coisa, nesta etapa da minha vida eu apenas esperava o desmaio primordial. Mas estou na varanda.

Do meu apartamento.

As seis horas da tarde.

Um crepúsculo febril, uma noite quente, cervejas jogadas nas calçadas juntando barata, milhões de mortes acontecendo, milhões vidas nascendo, meus pensamentos não conseguem parara em minha cabeça, o silêncio lúgubre que vem em lufadas do interior de meu apartamento, como pancadas desequilibradoras que ameaçam lançar-me do vigésimo segundo andar. A bocarra da morte entre os carros, os furtos, os gritos, e os chiados, as milhões de crianças chinesas, os chinelos esmagadores. Tudo em um versículo de tempo, um minuto compactado em um segundo, um milésimo formulaúnico. Um chiste, beirando ao caos de novo mundo. Lá estavam as distantes pessoas em suas vidinhas, lá estava meu cigarro pela metade, o gosto da morte única na boa.

Minha noiva novamente ao telefone.

O tremular do modo silencioso, um zumbido tremelicante em meio ao caos ditatorial de buzinas e gemidos. O celular move-se alguns milímetros, aceso, gritante. Eu apenas observo, observo e noto, noto e vejo.

Percebo.

Espere ai. Eu não moro em um apartamento!

Tudo fica negro. O silêncio agora é assustador. O desmaio primordial que tanto quis? A doença macabra que me afetara silenciosamente agora dá as caras, colocando um ponto final para todos os meus problemas passageiros? O não suicídio, a morte covarde, o deitar em uma cama de hospital, tendo a pena de todos, as lágrimas e o esperar para a morte heroica daquele que luta contra o mal e sucumbe. Eu diria a todos que fui o herói grego, o espartano, o valente.

Meu verdadeiro sonho é ser o homem que digo que sou para as outras pessoas.

Eles me empurravam em uma maca.

O médico dizia zumbidos para minha noiva.

Minha cabeça doía e descansava. Um hiato.

Eu estava novamente no apartamento. Não sabia que lugar era aquele, era tudo muito estranho. A varanda era separada da sala por uma grande porta de vidro. A varanda não era tão cumprida, mas podia-se debruçar tranquilamente no parapeito e ter uma belíssima visão do largo de uma avenida que eu não sabia qual era. Dentro do ambiente, uma penumbra, semelhante a escuridão de uma casas em dia de blackout. Eu não reconhecia os rostos nos porta-retratos, nem o cheiro estranho do ambiente. A televisão, grande porem antiga não ligava, e os outros cômodos estavam trancados. Tudo se resumia aquela sala e aquela varanda. Estava calor, mas o vento frio incomodava. Os zumbidos dos carros eram escutados como um micro enxame. Algo lá fora que me dava arrepios.

Novamente meu celular toca, minha noiva tentando falar comigo. Desta vez eu atendo. Sua voz parecia chorosa, como se tivesse chorado a noite toda. Ela me disse que falou com o médico, ela me disse que tive um desmaio por conta de estresse, ela me disse que eu teria que fazer exames, ela me disse que eu poderia ter morrido.

Morrido. Eu dei um sorriso sem querer.

O desmaio primordial.

Ela terminou a ligação dizendo que eu precisava acordar.

Tudo negro.

Abro os olhos. Não identifico o lugar, mas o cheiro de remédio e doença é conhecido. Minha noiva segura minha mão, eu a reconheço pelo calor e pela macies das pequenas mãozinhas de pedagoga. Ela sorri com os olhos inchados, sorriso de alguém que muito chorou. Minha cabeça estava dolorida e enfaixada, senti o peso das bandagens e o seu desconforto. Uma enfermeira entrou na sala. Magra e ranzinza, não perguntou como eu estava, apenas pegou meu braço, o perfurou om um soro e o manteve ali, quieto.

Ainda fiquei de observação. Eu entendi que um desmaio ocasionado por estresse em uma escada pode nos levar a quebrar o pescoço e morrer. Porém no meu caso só um pequeno ferimento e alguns dias de atestado. Também precisarei voltar ao médico, fazer mais exames etc. Os que saíram hoje não identificaram nenhuma bomba relógio, mas o doutor disse que eu precisava relaxar.

Sorri com desprezo.

Forma curiosa de encarar a morte, talvez uma forma covarde. Quando um médico diz que você quase morreu é uma boa forma de mensurar como somos suscetíveis a não estar mais aqui no dia de amanhã.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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