* Impostora é o primeiro conto do livro “Contos de Quase Fadas”

O sol surgia cálido por entre as árvores após uma noite de chuva forte e barulhenta. Pequenos animais saiam de seus esconderijos e pássaros cantavam dando boas vindas ao dia que nascia. Ela percebeu que deveria continuar. Levantou-se, torcendo as roupas e os cabelos da melhor forma que podia, eao ver que continuavam encharcados, desistiu da tarefa e começou a caminhar. Um emaranhado de galhos, raízes e troncos dificultava o andar e ela tentou mais uma vez se lembrar de como tinha chegado naquele lugar.Não o conhecia, tinha certeza. Que poderia ela, uma mocinha, estar fazendo sozinha naquele lugar? Tinha a impressão de que estivera desacordada por muito tempo. Tentou se localizar observando os poucos raios de sol que penetravam ali. Sua casa ficaria no Leste? Forçou a memória. Casa… Um desfile dos mais variados tamanhos e modelos surgiram à sua frente, mas nenhuma específica.
Então, depois de alguns passos mal ajambrados, em que espantou um bando de pássaros, uma lembrança maravilhosa surgiu: Ela podia voar.
Sim, podia voar, tinha certeza. Mas não era só levantar os braços e flutuar. Precisava de alguma coisa. Olhou para as mãos sujas e unhas partidas. As roupas encharcadas e cheias de barro. E que dizer do cabelo? Mas a certeza do vôo não a deixava. Devia ser uma fada. E este pensamento a encheu de encanto e alegria. Com certeza estaria protegendo alguma princesa e tinha caído numa armadilha. Lembrou-se de alguns castelos. Sim, estivera em muitos. Via-os em suas belezas reais, mas não conseguia ver a si própria nem se lembrar de sua imagem. Mas se lembrava dos vôos. Vôos rápidos, vento no rosto, emoção.
Onde estaria sua varinha? Sem ela não conseguiria sair dali. Ajoelhou-se na lama e enfiou os dedos encardidos no barro procurando com insistência. Agora estava animada. Por seus ouvidos entravam sons de música em festas. Via as luzes, a riqueza das pratarias, sentia o cheiro das comidas sendo servidas. Percebeu que estava com fome. Fadas sentem fome? Desviou o pensamento. A varinha tinha que estar por ali… Voltou um pouco do que tinha andado. Teria sido uma brincadeira dos duendes ou algum ser maldoso? Fadas eram seres queridos por quase todas as entidades. Bateu com os dedos na cabeça, mas nada de concreto lhe voltava.
Viu outro castelo. Fechou os olhos para visualizá-lo melhor. Tinha um belíssimo jardim coberto de rosas brancas e um rouxinol furava o peito com um espinho e tingia a rosa de vermelho com seu sangue. “Que estranho… Onde estava eu nesse momento? Fadas não protegem os fracos de fazerem besteiras? E com certeza o rouxinol estava cometendo um erro.” Mas não se via nesse cenário e nem em nenhum outro que lhe voltava.
Concentrou-se na sua busca. Que tipo de varinha estava procurando? E com aquele barro não seria fácil identificá-la.
Imagens estavam lhe pregando peças. Não sabia dizer se eram remotas ou recentes. Princesas, muitas princesas. E alguns príncipes. Carruagens encantadas, torres altas quase tocando as nuvens, fusos enferrujados, maçãs envenenadas e até um espelho mágico…
E o que fazia ela nesses cenários? Apenas voava, voava, voava… Quis muito voltar a ser a fadinha a qual se imaginava antes. Tomar um banho, vestir vestidos brilhantes, amaciar os cabelos que agora estavam eriçados e grudentos. E que frio sentia. Sentou-se num tronco com o corpo tremendo. Começou a sentir medo. E se não conseguisse sair dali? Como seria a morte de uma fada? “Oh, deuses da floresta, iluminem minha varinha para que eu a encontre. E se for madrinha de alguém? Certamente estão precisando de mim”.
Resolveu caminhar mais um pouco para não enregelar. Então a viu. Estava meio escondida entre galhos e toda enlameada. Ficou olhando-a, com o coração aos pulos. E dos olhos um princípio de lágrima apareceu. Estendeu a mão e reparou então como os dedos eram curvos, magros e compridos. E lentamente ela apanhou a vassoura cujo cabo gasto acomodou-se perfeitamente ao seu toque.

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