setembro 29, 2017

O engolidor de sapos.

Ele precisava se conter. Talvez este, seu maior desafio, o destruísse por completo, mas era um trilha que ele mesmo criou, um caminho que ele mesmo abriu. Sua raiva ascendia pelo estomago, explodindo no peito. Sua garganta queimava junto com o resto de suco gástrico de uma doença a ser descoberta apenas anos mais tarde. Seus olhos brilhavam de ódio, um ódio puro, digno, motivado. Seus cabelos caiam imperceptivelmente, fio a fio, pouco a pouco, até o lustre de sua testa confundir-se com a coroa de seu crânio. Apenas uma nuvem de pensamentos misturado a uma ira, um pecado capital, uma trava de segurança para que ele não atacasse o ofensor. Tudo seria uma questão de segundos para que o mal fosse realizado, um punho viajante e um nariz partido, um saltar sobre o pescoço, um esganar e, por fim, a morte fria na face do sujeito.

Mas a trava moral estava lá, tudo que fizera foi engolir seco.

Ele precisava se conter.

Preciso me conter, pensou.

Sentiu saudade de casa, sentiu saudade da esposa, sentiu saudade do filho, sentiu saudade dos amigos, sentiu saudade dos pais, sentiu saudade de sua terra natal, sentiu saudade dos bons tempos, aqueles que nunca mais voltarão. Bons tempos, quando era apenas um adolescente, divertindo-se com seu pai ou perdendo o muito tempo disponível em alguma atividade sem fundamento. A velhice abateu sobre seus ombros com o peso da responsabilidade, moral, ética, transparência. A esposa e o filho como uma bagagem de responsabilidade ainda maior, vidas dependiam dele, pessoas que confiavam em sua capacidade e estavam ali, a mercê da vitória cotidiana. O que ele poderia fazer? Tudo estaria em jogo e se, por acaso, a trava não funcionasse, o soco brandisse no rosto daquele seu chefe falastrão, tudo estaria perdido.

Tudo.

Ele chorava de noite. Homem, velho, gordo, pai de família. Chorava de noite. Chorava mas escondia, sua esposa não sabia, seu filho não sabia, ele apenas chorava. Chorava baixinho, com a cara enfiada no travesseiro. Chorava até a garganta arder. Ele não estava bem, há muito não estava bem, engordara, o cabelo caíra, perdera a paciência que tinha, estava infeliz, mesmo nos momentos que queria estar feliz. As coisas do dia a dia não lhe agradavam mais: A comida era serragem, as piadas eram as mesmas, e o sexo era uma rotina. Seu filho crescia, tirava as boas notas e os seus sorrisos não eram sinceros, ele não sabia mais elogiar o filho de coração, apenas palavras vazias balbuciavam de sua boca, e tudo estava tão distante, tão longe dele mesmo que, enfim, notara apenas que sua existência era por aquele momento e nada mais.

Chorava no banheiro do seu trabalho, seus colegas não podiam ver, ele precisava manter a postura. Seu chefe não podia saber que ele chorava no banheiro do seu trabalho. Ele estava tentando, conseguira uma promoção que há muito estava tentando, mudou de cargo, mais dinheiro, mais status, porém os velhos amigos ficaram para trás, não os via mais. Sentia saudade das risadas da hora do almoço. Agora tinha que ter uma postura diferenciada, agora ele era um cargo acima, ele passou de nível.

Pra quê”. Pensou, estava infeliz.

Mas precisava do dinheiro, precisava do cargo, mais responsabilidade, muito mais. Acordava mais cedo, saia mais tarde, hora-extra, precisava entregar todos os relatórios no prazo, precisava correr atrás do tempo perdido, tinha que gastar dinheiro nas reuniões de trabalho que também levavam a coffe break, seu chefe faria aniversário, tinha que dar uma grana para a cota do presente, e não poderia faltar, mas era no mesmo dia do aniversário do seu filho, também tinha viagem marcada, também teve sua secretária que está de atestado, vai ser mãe, agora ele faz tudo sozinho, seu chefe cobra, seu chefe quer ver resultado, não vê seus amigos, não se sente feliz, ele precisa mostrar resultado, mas não consegue, é difícil, trabalhar com pessoas, não depende só dele, ele precisa ir para reuniões de uma, duas, três horas, e algumas são depois do expediente, vai ter corte, alguns serão demitidos, seu colega de trabalho foi demitido, ele tinha dois filhos, ele tinha um carro para pagar, ele tinha casa, ele tinha prestação, contas, igual a ele, igual a todo mundo, filho que vai para o colégio, material escolar, recuperação, aula de reforço, vida conjugal, não pode estragar o casamento, não pode se divorciar, o coitado do menino, coitada da esposa, precisa manter o padrão de vida, vida, vida, vida, vida, saúde, doença, morte, careca, o chefe, sim o chefe, entra na sua sala, diz que você tem o pior resultado, diz que não sabe mais o que fazer, diz que você precisa se esforçar mais, diz que muitos querem aquela vaga que você ocupa.

Pressão.

Ele imagina um soco na cara daquele homem. Um soco em câmera lenta, explodindo nariz e arrancando dentes.

Ele imagina as consequências.

Ele abaixa os olhos, ouve o esporro, e em silêncio se mantem. O chefe sai da sala, e fecha a porta. E ele fica sozinho, no silêncio de sua ascensão, no vazio do seu ser. De seus olhos brotam lágrimas, pesadas e salgadas. Ele se vê no espelho a chorar. Um homem grande, velho, careca, bigode e barba, roupa social, lágrimas, e cansaço. Sua garganta está queimando, ele sente o desespero esganar lhe com a corda invisível das dificuldades. Talvez ele precisasse desistir, talvez precisasse buscar um novo rumo, aquilo ali não fosse o tudo.

Mas e se fosse?

Não conseguiria todas as respostas, aliás, provável conseguir nenhuma.

Esse era o seu destino, a sua rotina. Um dia ele se tornaria o chefe, um dia ele gritaria com outra pessoa, poderia se dar ao luxo de ser um babaca. Talvez, mas ele não era assim, porém poderia se tornar assim.

Respirou fundo e continuou o trabalho, pensou nas pessoas que dependiam dele, pensou no que tinha deixado para trás, nos momentos bons da vida e nas saudades que sentia. Pensou que logo estaria em casa, quem sabe tentando sorrir, tentando resistir por mais um dia. Ele por diversas vezes pensou em desaparecer do mundo, pensou no pequeno pedaço do mundo que ele representa, porém as pessoas que se importam com ele logo vieram em sua mente, e por mais que ele realmente fosse este pequeno pedaço do mundo, sem ele, o mundo ficaria sem um pedaço.

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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