outubro 3, 2017

A Dor

Me arrastei para fora do metrô por 1km de caminhada com o baixo nas costas até o estúdio como fazia duas vezes por semana e cheguei suando feito um porco como de costume.

– Que isso, Conatus! Tá morto, hein? – o guitarrista mais animado disse.

– Só por dentro – respondi, e o baterista riu de maneira desconfortável.

Eu já a estava sentindo havia algumas semanas, mas achei que era apenas meu sedentarismo cobrando seu preço e que alguns alongamentos resolveriam. Tocamos por duas horas na mesma posição como de costume e, como de costume, assim que dei um passo a frente eu a senti novamente: Como se uma faca fosse enfiada em minha virilha e torcida para deslocar o osso da bacia. Eles perceberam minha expressão de dor e perguntaram o que eu tinha.

– Só aquela descolada básica do fêmur – eu disse, gerando mais risos desconfortáveis.

– Você tem que dar uma olhada nisso, cara.

– É, eu já falei com o cara, mas só mês que vêm.

Eu estava nos meus últimos meses em São Paulo, que acabaram sendo os piores da minha vida. Trabalhando apenas um dia por semana, os outros compostos apenas de erva e cama. Eu havia perdido 10 quilos em dois meses por que não comia e amaldiçoava o fato de ter de comer. Só quando as dores no estômago ficavam insuportáveis e as bolachas acabavam eu me arrastava para o restaurante mais próximo e mais barato, no qual podia-se comer à vontade. Seria ótimo, se qualquer coisa que eu pensasse em comer não me causassem náuseas e eu tivesse que lutar para manter o alimento dentro de mim. O próprio ar fora do apartamento ou o calor do sol me causavam enjôo e tontura quando eu tinha de pegar o metrô para o trabalho. Fora isso, eu só saía pra comprar erva, comida e cigarros.

Mas ficar dentro do apartamento não era isento de problemas: Havia um buraco no teto do banheiro de onde escorria esgoto do inquilino de cima na cabeça de quem quer que fosse tomar banho, mas que ninguém arrumava por que ninguém nunca faz nada direito e as coisas simplesmente vão apodrecendo. As casas, as pessoas, as relações sociais, a política e a sociedade como um todo. Não sei o que enxergam de tão bom em aumentar a expectativa de vida das pessoas, tudo o que conseguem com isso é fazê-las apodrecer mais devagar.

Pra piorar, eu odiava as pessoas que moravam comigo. Ninguém se importava com ninguém, não mais do que fosse conveniente a eles mesmos, como sempre. Ninguém tinha culhões pra falar o que odiavam uns nos outros e o método de “resolver problemas” era engolir a merda do outro quieto até que, quando ele próprio fizesse merda e o outro reclamasse, vomitar de volta na cara dele. Não há realmente muito o que se fazer sobre isso, por que como eu disse, a maioria das famílias, dos casamentos e da sociedade funciona assim, vão apodrecendo. Mas eu nunca quis fazer parte dessa merda toda, e estar preso a eles pela porra de um contrato e ficar ouvindo suas lições de moral hipócritas estava me fazendo mal pra caralho.

Mas claro, como nada disso era suficiente, veio também a dor para me fazer companhia.

Depois que tudo se acabou e pude voltar para o interior, consegui ir no fisioterapeuta: Problema postural, escoliose. A coluna estava torta e pressionando um músculo que passava pelo quadril e ia até a minha coxa, causando a maldita dor que me atormentava.

– O ser humano é tão sábio e evoluído que não sabe nem sentar direito – eu disse para Selene, que estudava medicina e também não tinha saco pra essas coisas religiosas – e o  corpo humano é tão perfeito, feito por um design tão inteligente que é só sentar errado pra você tomar no cu.

– Muito inteligente. Obrigado pelo apêndice, deus – ela respondeu.

Comecei o tratamento. Alguns exercícios diários, uma sessão por semana, nada demais. Eu sempre tinha achado o lema dos fisioterapeutas – “o médico devolve a vida, nós, a vontade de viver” – deveras pretensioso, mas confesso que depois da primeira sessão com o doutor eu estava pronto para fazer um culto ao nome dele. Aquilo parecia mágica.

Contei ao doutor – ele realmente tinha um doutorado, não só uma boca grande – de como desisti de minha carreira em São Paulo depois do tanto de merda que ouvi no consultório e que me fez desprezar ainda mais a vida humana e ele me contou de como seus primeiros anos em sua profissão haviam sido difíceis. Me contou de tumores descobertos por ele na coluna ou cabeça de mães de bebês, de mulheres abandonadas por seus maridos por que sentiam dor demais ao transar, entre outras coisas que não melhoraram minha visão de mundo.

Ele me contou também o exemplo oposto de sua esposa, mais semelhante ao meu, que havia se formado como enfermeira, mas assim que botou os pés em um hospital, decidiu que aquilo era demais pra ela e não quis seguir com a profissão. Enquanto ele estalava meus ossos e colocava algumas vértebras no lugar, aquilo me deixou pensativo, e, quando conversamos no final, eu disse a ele:

– As vezes eu penso se fiz a escolha certa… Agora que você disse… Penso se talvez eu não deveria ter aguentado um pouco mais, segurado a barra nos primeiros anos até que ficasse mais fácil com o tempo.

E ele respondeu na hora:

– Mas você tem que ver se você gosta realmente disso. Eu ficava mal, doente, não dormia a noite por que me importava com meus pacientes, queria ver eles melhorarem e achava que não estava fazendo o suficiente… Essa preocupação me fazia seguir em frente. No caso da minha mulher não era assim, ela realmente não gostava daquilo, não queria nem ver ou chegar perto, aquilo não dava nenhuma satisfação pra ela, só desgosto.

Me surpreendi com sua sabedoria naquelas palavras. Não gostava muito de médicos ou profissionais da saúde, a maioria que eu conheci era esnobe e não se importava realmente com seus pacientes, mas naquele homem eu vi uma paixão verdadeira por sua profissão, uma que nunca senti quando estava em seu lugar e não tinha esperança de sentir um dia se continuasse. Quando ele disse aquilo eu não pude deixar de rir e apenas respondi:

– É, acho que fiz a escolha certa.

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Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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Crônicas

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