Textos

ELA NO MUNDO DOS HOMENS.

homem ria.

O trem estava vazio.

Jornal aberto no colo.

O homem ria, ria e olhava para ela profundamente, ria e olhava para dentro de sua alma, ria e a encarava. Ela desviava o olhar, ela iria descer na próxima estação, ela evita olhar para aquele homem, mas os olhos estavam em cima dela, como dois pedregulhos, como duas bolas de aço incandescentes. Ela está de saia, passando o joelho, botas, camiseta manga cumprida, cabelos curtos negros, bem cortados. Batom não muito forte, combina com a blusa, ela se sentiu bonita ao olhar-se no espelho, havia emagrecido, havia feito dieta, havia entrado na academia, mesmo pagando o primeiro mês e nunca pisado no estabelecimento. Ela estava no seu trabalho, ela ia para o trabalho, mas o homem, o homem olhava profundamente para sua alma. Ela sentia-se nua, invadida. O homem, um gordo, usando trapos, ela não reparou bem, mas ele estava com jornal aberto no colo, com uma mão embaixo do jornal e o jornal pulando no colo.

Ela desceu uma estação antes.

Sim, ele estava se masturbando.

Ela sentiu vontade de vomitar, ela sentiu-se tonta. Ela sentiu raiva. Sua irmã bem que comprou um canivete borboleta, qualquer coisa e ela furaria a garganta do indivíduo, mas não, não teria coragem de fato, seria só para assustar. Suas mãos tremiam. Ela sentia uma angustia em seu peito, uma raiva explosiva, como se quisesse matar a todos, mas não, estava contido, estava dentro dela, e ela precisaria se apressar, agora que descera uma estação antes, para não chegar atrasada.

De novo.

Mas precisaria ir ao banheiro. Precisava lavar o rosto, esquecer, recompor-se. O banheiro da onde? Da estação? Teria que ser. E foi.  Nunca havia entrado. Sua bexiga era treinada para aguentar longos períodos de sofrimento, e claro, isto pautaria o quanto tempo de vida ainda restaria para ela.

No sujo espelho do banheiro ela se observava. Lavava as mãos e olhava de relance para o próprio rosto, magro, branco, batom, maquiagem, necessário? Tinha que ser. Sentia-se bonita. O banheiro imundo a suas costas, urinar de cócoras, para não encostar naquele vazo pútrido. O cheiro estranho misturado ao miasma do ambiente, as luzes fracas, e o seu reflexo, único, pálido, parado. Tirou da bolsa o batom, retocou como se quisesse perder tempo. Mas ela mesmo estava tentando limpar a mente, tentava ignorar aos próprios pensamentos.

O velho se masturbando e olhando para ela.

Outro dia, no ônibus, um homem encostou nas suas costas, a viagem toda, todos os trinta minutos, mesmo com espaço para locomover-se. Todo freio brusco lá estava ele, jogando a pélvis contra suas nádegas, e lá vai ele novamente. Ela se sentia incomodada, ela queria chorar, ela queria gritar. O rosto suado do homem encostado em seu cabelo, o cheiro de desodorante vencido, o machucar dos botões da camisa. Mais uma curva, e o peso em suas costas.

O peso do mundo em suas costas.

O medo de andar nas ruas sozinha, ela tinha que ter comprado o canivete, o medo de alguém agarrá-la, o medo do estupro. Não só levar os bens pessoais, mas a humilhação de ser invadida por um estranho. NOJO. O nojo toma conta de seu corpo, o medo, o medo de ser agarrada pelos dedos da maldade, lançada no chão e violada, a dor, o trauma, não é qualquer trauma, é o medo em seu coração…

Todos os dias.

Ela acorda de madrugada, toma banho e se arruma, precisa ir trabalhar.

Entra no metro, está cheio, todos vão para o mesmo lugar.

Todas aquelas vidas naquele único lugar.

Todos para o mesmo meio do caminho, um encontro e outra despedida, crianças, adultos, filhos, filhas e ela, que lá estava. Vivendo no mundo dos homens. Sozinha, indefesa. Não existem heróis salvadores que irão pegá-la nos braços musculosos e a levar para voar sob as nuvens, não existe, e se existisse seria errado, ela não gostaria de ser salva por um idiota destes. Ela gostaria que a respeitassem, que a a tratassem por igualdade, onde ela não precisasse viver com o medo.

Mas o mundo dos homens estava lá, e ela é refém deste mundo.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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