A escolhida

Assim que nasceu, a menina foi levada pelos velhos da aldeia. E como todas as outras que já tinham nascido antes dela, foi cuidadosamente examinada. Nua sobre a mesa, a começar pelos pequenos pés, ainda enrugados pelo líquido amniótico, até a cabeço, de onde foram raspados os poucos fios para que não ficasse nenhuma parte sem que mãos e olhos experientes apalpassem e esquadrinhassem. A busca estava se tornando cansativa. Anos a fio e a prometida não chegava. Os primeiros guardiões, jovens e destemidos que receberam a missão, agora anciãos, trêmulos, se agarravam numa profecia e tinham medo de começar a duvidar.
Mas, essa manhã, parecia diferente. O sol amarelado rompia as nuvens numa preguiça significante. A menina deixava-se examinar sem choro e sem protesto, como se aceitasse de antemão o destino que lhes impunham.
Atrás da pequenina orelha, um vislumbre de pele mais escura. Cochichos. Mãos nodosas apalparam, olhos neblinados de cataratas que nitidamente enxergavam o sinal. “É ela!”. E antes que pudessem se arrepender, e antes que o eco das vozes se perdessem, cobriram-lhe a cabeça para não expor o sinal divino e a levaram.
Cresceu pálida sem a luz do sol e desencantada sem a luz da lua. Sozinha no seu cubículo, tinha por brinquedo as pedrinhas que lhe ofereciam. “Brinque com elas. Ame-as. Toque-as. Brilhe-as.” Se chegassem e a encontrassem longe das pedras, não recebia as porções de comida. Aprendeu a reconhecer os ruídos bem antes que chegassem à porta. Rolava então os metais duros entre os dedos, esfregava-os na pele, lambia-os. Cheirava-os. Que mistérios teriam? Que mágica esperava que lhes fizessem? Notou que as mãos e os dedos foram se tornando calosos. Endurecidos começaram a dar formas às pedras. A primeira coisa que fez foi uma delicada bonequinha. Sua amiga. Mas tão silenciosa! Tão branca… furou o dedo num dos caquinhos e pintou-lhe a boquinha. A boneca sugou-lhe o dedo com força, corou as faces e sorriu-lhe agradecida. Naquela noite, quando chegaram os guardiões, falaram entre si entusiasmados. Rolaram a pedra vermelha nas mãos, tocaram a criança de modo imperativo, apontando-lhe o monte de pedras: Ao sair, levaram sua companheira.
Os dedos duros e ásperos da prisioneira lapidaram a noite toda. Na manhã seguinte uma fila de menininhas rodeavam-lhes os pés. Olhos abertos e faces pálidas voltadas para a translúcida menina, que sem medo, espetou os dedos e deixou o sangue cair sobre boquinhas sedentas.
Mas ao cair da tarde, entre risos entusiasmados, apertos de mãos e lágrimas de alegrias, as pequenas foram levadas embora, enfiadas em caixas e trancadas à chave.
A solidão é maior depois que se conhece companheiros. E a menina chorou pela primeira vez. E notou, então, que suas lágrimas também davam cor às suas pedras. Não vermelha. Um tom creme e suave que lhes tiravam a palidez e as embelezavam com brilho opaco. Assim chorou longamente sobre aquelas que dali a pouco teriam forma sob seus dedos fortes e ágeis.
Nos dias que se seguiram, não teve mais tempo de comer, beber e nem mesmo brincar com suas bonecas. Mal acabava uma leva, vinham-lhe roubar e presentear-lhe com novas pedras brancas e sem formas. A exaustão já estava tomando conta do seu corpo. Não vertia lágrimas e os dedos deformados clamavam por descanso. Foi então que lhe trouxeram algo diferente. Era um bloco inteiro. Duas vezes o tamanho dela mesma. Deixaram-no lá, não antes sem apontar-lhe o dedo de forma ameaçadora.
Estudou longamente o que tinha à sua frente. Pensou todos os poucos pensamentos que tinha acumulado em seus anos de solidão. E quando a decisão se concretizou, relaxou o corpo franzino e, com um sorriso pôs-se a trabalhar.
Começou pela parte de baixo e foi galgando a pedra enquanto lhe dava forma. Levou a noite toda. A manhã ainda a encontrou trabalhando. Quando finalmente desceu e contemplou sua obra, chorou. E desta vez foi de felicidade. Lavou-as com suas lágrimas quentes e salgadas, esfregando a nova forma vigorosamente. Foi doando a cor necessária e quando julgou pronta, furou mais uma vez o dedo.
Levou a gotinha aos lábios recém-formados e deixou ser sugada. Teria caído quando as forças a deixaram, mas braços fortes e maternais a apertaram contra o peito.
Quando a tarde a porta se abriu para a próxima visita e busca, uma figura poderosa os aguardava. Assim que tentaram se aproximar, mãos pétreas e dedos em ristes os afastaram. Lá fora a liberdade as esperava.

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Autor: Luana Minéia

Nasci e cresci em uma cidade bem pequena no interior do Paraná. Sempre gostei muito de ler e ainda muito pequena comecei a escrever minhas próprias histórias. O gênero que mais gosto de escrever é fantasia, inclusive tenho dois livros publicados com essa temática, um romance ‘Sete dias de Lázaro’ e um livro de contos ‘Contos de Quase Fadas’. Minha mente é povoada por inúmeros seres fantásticos, mas o meu preferido são os dragões. Escrever para o blog “Saco Cheio e Mau Humor” está sendo uma experiência ótima. Ter um canal para externar algumas das minhas inúmeras ideias que se acumulam dentro de mim. Abro meu mundo para vocês. Sejam bem vindos!

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