Textos

MÃES E FILHAS.

 

Talvez ela pudesse ter sido uma garota normal, com seus amigos, seus sonhos, sua vida. Vidinha. Teria seus namorados e teria seus filhos, a vida poderia ter sido normal para ela, tanto quanto para qualquer um. A normalidade é um estado estável da matéria, como um lago, onde nada de interessante acontece, diferente dos rios, onde correntezas carregam e assassinam. Mares e oceanos que escondem mistérios inimagináveis. Porém a vida é um lago, um grande lago. Para ela, poderia ser um grande lago, talvez. Ela poderia realmente ter sua vidinha, vidinha simples, sem graça, vidinha previsível. Mãe, pai, irmão, irmã, namorados, filhos. Talvez fosse lésbica, talvez fosse infértil, talvez morresse cedo, talvez não fosse nascer. Talvez fosse ideia de sua mãe um aborto, desistir daquela vidinha que se debatia em seu ventre. Mas não, ela não desistiu.

Mas ela nunca teria nenhum status de vida normal. Eu a observava de onde eu estava. Estávamos a sós no ônibus, eu ela (a garota em questão) e sua mãe. O rosto de sua progenitora estava desgastado pela idade e pelo cansaço; pequenas manchas, como salpicos em um chocolate, cobriam toda a pele da face, seus cabelos esbranquiçados curtos e mal cortados misturados aos grandes olhos escuros e as olheiras protuberantes. Os dedos magros mexiam-se, segurando-se para não desequilibrar no movimento do veículo. Os longos dedos com unhas curtas, sem anéis, também traziam as mesmas manchas do rosto. Era impossível deduzir a idade daquele mulher, talvez quarenta, talvez cinquenta anos. A amargura de sua vida agiu como alvejante em sua pele, em sua mente, em seu ser. Seus olhos estavam perdidos em algum ponto fixo na janela, ela balbuciava algo estranho para a filha, ela balbuciava algo para o motorista (estavam na cadeira mais próxima a ele), ela balbuciava algo perdido ao vento, como se a sanidade já faltasse aos cabelos e as ideias para a mente. Notei que ela olhou duas vezes de relance para mim, depois balbuciou algo para filha como se perguntasse se ela queria trocar de lugar.

A menina nada respondeu, apenas grunhiu algo. Seus olhos negros e vesgos, pupilas dilatadas, em sua testa uma marca, como se a pele estivesse saltado. Os cabelos longos escorriam pelos ombros. Tinha algo de animalesco naquela garota, ela balbuciava palavras incompreensíveis. No ombro uma flanela, onde ela assoava o nariz constantemente e chamava a atenção de sua mãe. Talvez alguma forma de paralisia cerebral, ou outro tipo de doença incapacitante, era notável o quanto a mãe sofrera no longo da vida da menina. Talvez tivesse cuidado dela sozinha, segurado aquele mundo todo nas costas. A garota parecia ter algo perto dos dezesseis anos, porém agia como um bebê. Era estranho, não nego, um certo desconforto como uma vontade de ajudar mas não saber como. A mente começa a viajar, pensar na dificuldade que a vida teve para aquelas pessoas que ali estavam, pessoas das quais eu não fazia a menor ideia quem eram, de onde vinham e o que iriam fazer. Era uma mãe e sua filha com necessidades especiais, seguindo algum rumo pelo horizonte desconhecido das estranhezas. O que seriam delas amanhã? E depois, e depois? Impreciso dizer, impossível dizer.

A queda quebra meu ritmo de pensamento. Eu não consegui agir por aqueles segundos, como se eu estivesse paralisado. A mãe tentou levantar a menina sozinha, porém, logicamente, a menina era muito pesada. Logo ela tombou ao chão do ônibus, sentada. Eu perdi o foco, como se meu cérebro houvesse desligado por alguns segundos. Apenas olhei para ela, e ela olhou para mim. Seus olhos negros e vesgos, a grande marca em sua testa, os cabelos caídos. Faltavam-lhe alguns dentes, tendo os caninos, pontiagudos e salientes, tal como um lobo.  A mãe estava desorientada, ela tentava erguer a menina, mas sem sucesso. O motorista olhou para mim, fazendo-me acordar do meu transe. Tive receio em encostar na garota e machuca-la. Não sabia como agir nesta situação, porém também algo dependia de mim, segurei no braço da garota com uma de minhas mãos e a levantei, acomodando-a em uma cadeira. Por uma fração de segundo eu acreditei que a garota iria me morder, pois sua mandíbula aproximou-se estranhamente do meu braço, porém nada aconteceu. A mãe nada disse para mim, como se a garota houvesse levantado sozinha. Talvez fosse tão costumeiro cair que ela já não soubesse mais agradecer algo que se tornara obrigação de quem estava em volta. Talvez a dificuldade e os problemas tenha minado a racionalidade daquela senhora, que estava ali como fiel da filha, fonte de sustentação, guia, guardiã. Abrindo mão da própria vida, abrindo mão de tudo que um dia ela quis, em prol da garota incapacitada.

A condução chegou em meu destino e eu abandonei aquela história, deixando a garota e a senhora seguirem o seu rumo sem um observador inconveniente. Os olhos negros da garota me observando ainda estão na minha mente, como uma penitência pelo meu ato covarde de não ser prestativo. Ela era uma criança presa no corpo de uma adolescente que nunca se tornará uma mulher, ela é a filha eterna daquela senhora, a filhinha que para sempre existirá ali. Uma criança presa na terra do nunca, onde nunca acontecerá nada. Elas estarão nos ônibus, indo e voltando, a mãe balbuciando coisas ao vento e a filha olhando para o vazio de minha alma.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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