Crônicas

O Amor pelos Homens e pela Natureza

Era um sábado a tarde e eu estava jogado na cama, entediado, pensando no que fazer até que John me enviou uma mensagem dizendo estar na mesma situação. Ele estava outra vez num período mais fit de sua vida, sem drogas, comendo e bebendo água na hora certa, fazendo dieta e exercícios e eu fiquei com medo de ele me convidar de novo para tomar um suco e comer uma panqueca vegetariana, mas fiquei surpreso quando ele me chamou:

– Também acabei de acordar, quebrei o meu código.

– Ih, já era.

– Foda. Vou me recuperar… Mas tô loucão.

– Fumou uma erva, né?

– Oh yeah.

Nós rimos e ficamos considerando nossas opções por um tempo, até que ele deu uma ideia inesperada:

– Bora pescar! O Bel me chamou pra pescar num pico brisa.

– Aonde? Pesqueiro mesmo?

– Não, numa lagoa mesmo, fita roots.

– Mas ele tem vara? No pun intended – ele riu.

– Tem sim. Vara, grelha, repelente, essas fita. Cê tem cadeira de praia?

– Não. Mas tenho aquelas de bar que dá pra dobrar.

– Dá hora. Se der, leva três. Vou levar uma grelha, uns temperos e lenha, o que a gente pescar dá pra comer. O Bel disse que limpa e prepara e tô botando fé.

– Beleza.

Arrumei minhas coisas e logo os dois chegaram e nós partimos. Bel Grills (apelido que demos a ele depois desse dia) era um porra louca que fazia faculdade com John no mesmo lugar onde me formei. Era conhecido por suas habilidades de beber e se atropelar com seu próprio carro e disse quase ter feito parte da maçonaria. Eu nunca havia saído com ele antes, mas achei que seria interessante.

O carro de Bel era impressionante: Um fusca caindo aos pedaços sem o banco do passageiro, onde ele havia colocado uma caixa de plástico cheio das tranqueiras que usaria pra pesca. Havia um par de galochas, repelente, inseticida, linha, anzol, um pote com terra, varas desmontáveis e uma enxada jogada no chão.

– Caralho, tem uma enxada aí.

– Pra pegar minhoca, caralho.

Fomos até um supermercado barato ali perto, compramos uma garrafa de cachaça e um galão de cinco litros de água e partimos para a aventura.

Chegamos no local, Bel parou o carro e se vestiu. Vimos umas crianças andando em uma carroça pela estrada de terra que não responderam quando as cumprimentamos e nos questionamos se seríamos mortos por elas mais tarde. Fomos para a margem do lago, Bel espirrou o inseticida no mato em volta de onde ficaríamos e tomou um banho com ele.

– O que cê tá fazendo, cara? Isso faz mal! – John disse.

– Se vocês não quiserem pegar carrapato, vocês passam isso no corpo. Mas só se não quiserem mesmo.

Espirramos um pouco em nossas botas e passamos repelente. John cuidou da fogueira, Bel começou a preparar os anzois e me encarregou de procurar minhocas com a enxada. Foi mais difícil do que pensei que fosse: Ele disse para eu procurar em terra úmida e coberta de folhas, mas o tempo estava terrivelmente seco naquela semana. Por fim achei um ponto mais úmido perto de uma árvore e depois de abrir um buraco no chão com a enxada consegui pegar 8 seres rastejantes. Minhas mãos e costas começaram a doer por causa do pouco esforço e me senti um bosta por ter tão pouco preparo físico.

Bel preparou as minhocas nos anzois e eu ajudei John a colocar a grelha sobre apoios feito de gravetos. Ele colocou alguns pedaços do frango que havia trazido sobre ela e esperamos enquanto eles assavam e os peixes não vinham.

Acendemos uns cigarros e começamos a tomar a cachaça e falar merda. John reclamou alguma coisa que não lembro sobre os zumbis da faculdade de psicologia e eu disse que era por isso que havia largado.

– Você largou? – Bel perguntou, surpreso.

– Aham.

– Mas não terminou?

– Terminei, trabalhei, aí decidi que não queria mais.

– É uma merda, né?

– É.

– Por isso que eu larguei também, não aguentava mais. Mas não terminei.

– Tá fazendo o que agora?

– Porra nenhuma. Mas vou começar outra de biologia.

Ficamos mais um tempo ali e acendemos um beck assim que começou a escurecer. O fogo começou a apagar e John foi recolher alguns gravetos.

– Não fica andando muito no meio do mato ou vai se encher de carrapato, hein! – Bel disse.

Bebemos mais um pouco, até que o primeiro peixe mordeu. Era um muçum, um tipo de cobra d’água, ou enguia de água doce. Sua pele era lisa e gosmenta e tinha várias manchas, como a pele de uma onça. Eu estava bêbado e chapado e só conseguia dizer repetidas vezes para Bel cortar a cabeça dela, mas ele estava fascinado pelo animal.

Ele realmente gostava daquilo, daquele lugar. Se sentia realizado ao pegar aquele peixe e os outros que pegaria durante a noite. Quando ouvíamos barulhos vindo do mato ele ia atrás apenas para ver qual animal os fazia. Ele demonstrava uma verdadeira paixão que fazia tempo que eu não via alguém ter por qualquer coisa, muito menos pela natureza.

Eu conhecia pessoas que admiravam “a natureza”, vários espiritualistas e humanistas, mas sua admiração era tão falsa quanto seu “amor” pelo ser humano: Eles não amam o ser humano, assim como não amam a natureza. Eles adoram a natureza vista de seus chalés de 2000 reais por semana (e nunca ficam mais de uma semana), em seus passeios de carros 4×4 com ar condicionado por estradas abertas e bem iluminadas, em suas vivências feitas em locais de grama bem cortada, com tapetes coloridos que levam para não sujar a bunda de suas calças brancas recém-compradas enquanto comem seus sanduíches de peito de peru e cottage no pão integral de baixa caloria.

Da mesma forma, o humano que eles amam é aquele do qual não sabem nada. Aquele de seus ideais, humilde e bondoso, trilhando seu caminho até a iluminação onde serão purificados de sua ignorância e perdoados por toda a desgraça que causaram ao mundo e aos seus semelhantes por culpa não deles mesmos, mas da sociedade, do capitalismo, da alienação. Os humanistas constroem seus chalés com ar condicionado e café às 9h da manhã e assim conseguem amar ao seu próximo, mas nenhum deles se propõe a cortar a cabeça de uma enguia para o jantar em meio aos insetos.

Lembrei-me que havia trazido minha gaita e, enquanto o peixe era assado e Bel preparava mais um anzol, comecei a tocar a única música que havia aprendido a tocar com ela. John checou uma última vez os frangos, que estavam demorando para assar e então se sentou ao meu lado, bebendo mais da cachaça enquanto eu terminava.

– Pois é – disse – agora você acabou de ver David, o lorde das trevas, tocando Hallelujah em uma gaita.

– É mesmo. Dá hora.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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