Queria ser como você

O vulto no espelho era uma personificação sua

As longas privações eram setas que apontavam o caminho

O som do vomito era como o canto dos pássaros na primavera

O piar indicava o louvor da liberdade

 

A fraqueza nas pernas era sinônimo de força

O tremor nas mãos o fortalecimento

 

A cinta espremia e condensava tudo

Tudo que não deveria me pertencer era compactado

Meu corpo era modelado por cada peça

Cada tecido prendia e desaparecia com uma parte de que mim não fazia parte

 

Os números finalmente despencaram

A liberdade era leve

A liberdade era 42

A liberdade era P

 

As olheiras cresceram

No estomago um buraco negro se abriu

A matéria começou a ser sugada

Os tecidos modelados começaram a desaparecer

Cada detalhe se esvaiu

 

Um dia, diante da realeza despenquei

O som dos pássaros desapareceu

O impacto do leve corpo sobre o trono de glória estremeceu a estruturas

Do suave corpo uma baba esbranquiçada escorreu

 

O buraco cresceu, cresceu e cresceu

A escuridão do estomago tomou as células, os tecidos e os órgãos

A escuridão sugou a vida.

 

 

 

 

Anúncios