O demônio ao meio-dia.

Eu vi o demônio ao acordar. Ele sorria. Eu sorri, mas não soube o que falar. Eu queria dizer-lhe alguma coisa, mas não sabia como, queria dizer que a vida não era mais a mesma, que os dias eram cinzas, e que tudo terminaria de uma maneira trágica, quer queira quer não. O demônio me observava, os olhos grandes e amarelos, a pele vermelha como fogo do inferno, e os dentes muito brancos. Ele não era muito grande, talvez menor que um anão. Estava sentado na minha cama, mas eu não sentia o peso de seu corpo. Eu observava-o e ele me olhava também em silêncio, como se quisesse dizer algo, como se dissesse que a hora chegou. Mas não havia chegado, talvez demorasse mais que o esperado para esta hora chegar, talvez nunca chegasse de fato. Mas lá ele estava, e por algum motivo ele estaria ali. Um demônio para sair de seu lar, o inferno, e ir até o mundo dos vivos é muito cansativo. Outro demônio me disse que precisavam-se de anos, muitos anos, para criar um caminho perfeito até o mundo dos vivos, e mesmo assim, o demônio não poderia ficar por muito tempo, a vida dos vivos não fazia bem para a saúde de um demônio, então se algum aparecesse, era porque algo de muito importante precisava ser dito.

Ele apenas me observava. O relógio disparou meio dia e tudo ficou em silêncio. Os pássaros pararam de cantar, os carros pararam de andar, o vento parou de soprar. O  universo parou de girar. Apenas eu e o demônio tínhamos vida naquele lugar, naquele cosmos, naquela dimensão. Nada mais havia importante, estava nas mãos daquele serzinho a vida de um incontável número de seres vivos, todos paralisados nos afazeres atuais, sem ter noção do que se passava. Ninguém notaria aquele tempo perdido, aquele meio dia que nunca mais tornaria a regressar. Todos olhariam nos seus respectivos relógios e se perguntariam por qual motivo o tempo passara tão rapidamente, e não haveria resposta, não resposta plausível, pois o responsável nunca mais tornaria a este mundo depois deste dia, deste meio dia.

O demônio levantou-se de minha cama e caminhou até a mim. Estendeu sua mãozinha frágil pedindo, em utilizar de palavras, que eu a segurasse. Era como segurar uma pedrinha morna. Ele me conduziu pelo meu quarto, me levando até a sala. Eu morava sozinho, há anos que eu morava sozinho, então todos os espaços eram incrivelmente vazios. Todos que iam me visitar me perguntavam sempre se eu havia acabado de me mudar, pois nunca tirei minhas coisas das caixas.

Há oito anos que tudo está assim.

O demônio segurava minha mão, me conduzindo, estávamos em silêncio até o momento que ele decidiu falar. Disse que havia chegado a hora de levar-me. Perguntei se eu iria morrer e ele sorriu, disse que não, disse que eu precisava me tornar um demônio semelhante a ele, que os demônios são conhecidos pelas maldades e pela punição das almas em martilho, porém, sua real função era equilibrar o mundo da alegria e o da tristeza, e tais seres que deturpassem o equilíbrio também se tornariam demônios, o que era o meu caso. Perguntei a ele o motivo deu deturpar este equilíbrio e ele sorriu, sorriu e gargalhou, gargalhou e me disse, me disse para que eu me observasse, me disse para me questionar se eu era equilibrado.

Dai lembrei das minhas brigas.

Dai lembrei dos amigos que deixei.

Dai lembrei dos meus dias de tristeza.

Lembrei dos meus vícios.

Lembrei dos meus erros.

Lembrei das pessoas que decepcionei.

Lembrei das pessoas que eu deixei para trás.

O demônio sorriu, ele disse que um dia, quando fora um homem, ele era casado, ele tinha filhos, mas o álcool acabou levando-o para o mundo de uma treva única, onde ele pode se sentir feliz mantendo o equilíbrio dentre o estar feliz e o chorar. Mas eu me perguntava, e perguntei ao demônio do porquê deste equilíbrio e se o mesmo fosse quebrado o que poderia acontecer. O demônio ficou pensativo, sentou-se no chão, explicou que o mundo dos homens o deixa cansado, disse que não pensava em como as engrenagens funcionava, ele estava feliz em apenas ser mais uma engrenagem. Agora ele se alimentava da decepção, se alimentava da tristeza, se alimentava daquilo que faz as pessoas chorarem. E, quando é encontrado uma grande fonte deste mal, o que é meu caso, eles apareciam e levavam esta fonte para ser mais um deles. Estes seres decepcionantes fazem muito mal para aqueles que o rodeiam, logo tudo isso desequilibra ainda mais a harmonia do riso/lágrima.

Perguntei se um dia eu tornarei a ver as pessoas que eu me importo. Ele disse que não, disse que nunca mais poderá regressar a este mundo, não por muito tempo, e mesmo se for ver tais pessoas, elas não o reconheceriam, apenas se assustariam pela forma que seu corpo tomara. E por fim o rejeitariam, fazendo-o acoar-se novamente no que chamam de inferno. No mais, sentiriam sua falta, porém, a vida sempre continuará e tudo se encaixaria nos grandes trilhos da vida.

E assim que terminou seu discurso ele se levantou, e me disse para dar a última olhada para o mundo que conheço. Quando menos pude notar, eu já tinha sido levado pelo demônio. O mundo estaria em equilíbrio e a tristeza que um dia eu causei seria sanada pelo grande tempo, senhor que tudo cura. O relógio voltara a andar e aquele minuto perdido, aquele meio dia não vivido passaria imperceptível para o mundo inteiro. Porém, eu nunca esperaria na minha vida que minha ausência fosse algo que o tempo poderia sanar. Convivi o resto da minha eternidade, agora como demônio, assistindo as lágrimas das pessoas que se importavam comigo escorrerem pelos seus rostos.

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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