Tudo é sempre mais difícil deste lado do muro. Sempre será mais difícil, até mesmo para respirar. Os remédios haviam acabado, sua mente começara a fragmentar novamente, pouco a pouco ela perderia o controle, pouco a pouco ela deixaria de ser ela mesma, se tornaria alguém irreconhecível, louca, perdida.

Sua mãe a abandonara.

Não havia esperança em seu coração, deste lado do muro nunca haverá esperança. Ela estaria perdendo o controle, novamente. Sua cabeça começou a esquentar, suas narinas dilatavam, seu coração começava a pulsar. Raiva, angústia, medo. Sua mãe, seu pai, seu irmão ficaram há muitas léguas atrás. Agora, ela estava lá, só, morrendo, minguante.

Os remédios…

Ela precisava, precisava para sorrir novamente, precisava para sentir algo, talvez para deixar de sentir as coisas ruins que estavam em sua cabeça. Cada pequeno demônio, ela nomeou cada um deles, deu um nome, um jeito, uma forma, e convivia, estes eram seus demônios. Mais uma vez lá estava ela, cercada deles, tremendo no chão, babando, sufocando no próprio vômito.

Talvez ela não sobrevivesse a esta noite.

O mundo não notaria.

Quando vi esta garota morrendo, nada pude fazer, meu ônibus já havia virado em uma esquina e desaparecido em uma longa reta. Tudo sempre será difícil deste lado do muro, talvez impossível para aquele outro lado. Não sei se ela sobrevivera, mais uma de minhas nenhumas respostas.

Ela perdeu o controle, novamente.

Sim, ela perdeu.

 

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