Textos

Não seja o capitão.

 

A lista chegou tão cedo quanto se podia imaginar. Estávamos em viagem há tanto tempo, mal sabia eu que teria que tomar esta difícil decisão. Não conseguia dormir há muito tempo, os meus pesadelos se embalavam junto com o balançar do navio. A escuridão da minha cabine permeia sonhos terríveis, sonos fracos e dias cansados. Os mapas farfalham com o vento que entra na pequena escotilha, o cheiro do mar, um cheiro que hoje me enjoa. Olho o horizonte negro de uma noite sem lua, minha alma, perdida em meio à escuridão do oceano.

Com o primeiro disparo a noite se ilumina. O corpo cai na água fria e afunda, o sangue se mistura a escuridão e logo tudo se torna calmo e tranquilo. A fumaça do meu revolver se esvai enquanto eu o assopro. Meus olhos estão em lágrimas, era um bom marujo. Era um bom marujo.

Era um bom marujo.

Todos os outros estão chorando, ele era amigo de todos, ele também era o meu amigo. Não fazia muito tempo que eu tinha me tornado capitão. Fiz os testes, fiz as provas, fui indicado, e logo fui enviado para liderar um navio e realizar missões. Nunca foi e nunca será uma tarefa fácil, porém eu não imaginaria que beiraria o impossível. Lá estava eu, liderando um navio de desconhecidos. Pouco a pouco fui conseguindo a confiança de meus subordinados, fiz um trabalho diferenciado, buscando confiança e companheirismo para que todos nós atingíssemos o objetivo.

Agora o corpo do primeiro marujo afunda no oblívio do oceano.

Estou chorando na minha cabine.

Sinto saudade dos meus amigos, daqueles que eu deixei para trás, das risadas, dos momentos felizes. Sinto saudade de ser feliz, esta felicidade que era boba, que era simples. Eu busquei ser o capitão, eu queria mais, fui pego pelo meu egocentrismo de ser mais, de ser melhor. Minhas mãos tremem. Eu me sinto mal.

Colocaram-nos neste navio, não deram uma missão. No fundo eu sabia o motivo. No fundo eu sabia que nem todos os marujos voltariam para casa. Era assim que faziam. Uma correspondência chegava através de um corvo e eu executava os nomes da lista. Os marujos sabiam também como funcionava, alguns tentavam lutar, outros apenas aceitavam o destino. O capitão os executaria.

Eu sabia disto quando me formei capitão.

Eu pensei que não fosse tão difícil executar tal coisa.

O segundo nome chegou pela manhã. O homem andou até a prancha e eu atirei em sua nuca. Todos nós estávamos apreensivos para quem seria o próximo nome. Todos nós nos despedíamos, todos nós chorávamos. Mas era isto, sempre seria isto, sempre será isto. Eu não conseguia dormir direito desde que virei capitão. Eu não conseguia respirar direito, minha cabeça e meus olhos doíam. A pressão de realizar todas as tarefas com exatidão, de sobreviver em meio a este caos obliviante, em meio de atingir todos os objetivos. Eu me arrependia todas as noites, dormindo, solitário em minha cabine. Existe uma solidão única em ser o vencedor, você não poderá levar os seus amigos para o primeiro lugar do pódio, não poderá levar as pessoas que te importam, você estará lá, solitário, rodeado com pessoas que você não conhece. Seu peito desejaria explodir, seu sentimento de solidão e a vontade de morrer.

Ainda havia três balas em meu revólver.

Na mesma noite chegara mais dois nomes.

Todos os navios estavam executando sua tripulação. A desculpa que foi mandada pela central era que “não haveria comida o suficiente para todo mundo, logo algumas pessoas deveriam ser abatidas”. E sim, este era o meu dever. E ele estava sendo executado. O último homem me olhou com olhos marejados, ele me pediu para que eu dissesse para sua família que ele morreu em uma luta, para que seu filho não pensasse que ele foi executado, morreu sem honra, sem valentia. Ele fechou os olhos e eu disparei. O corpo inerte caiu nas frias águas e desapareceu.

Todos bateram palmas, era a despedida.

Todos batiam palmas.

Meu coração se perfurava com agulhas. Minha garganta queimava. Minhas mãos tremiam, eu chorava, chorava escondido porque não poderia mostrar fraqueza. Meus olhos gritavam por socorro, minha boca apenas ficava em silêncio.

Eu achei que aquilo havia terminado, mas um último corvo trouxe uma última correspondência. Mais uma execução.

Meu nome estava escrito.

Eu esperava isto há algum tempo, então não me surpreendeu. Outros capitães já haviam sido mortos, eu estava fazendo “hora extra” há algum tempo. Eu só consegui sorrir, sorrir e chorar.

Segurei o revólver, o mesmo pesava toneladas. Apontei para a têmpora direita e disparei. Apenas o brilho iluminou aquela cabine. Meu corpo pendeu para a esquerda e tudo se tornou vazio. No fim, apenas minha carta de despedida flutuando ao ar, manchada de sangue. Eu escrevi minha despedida a todos, disse que eles eram homens que nunca eu esqueceria, disse que minha tripulação irá navegar oceano adentro, porém o capitão os deixaria agora. Em minha carta escrevi em letras grandes “NÃO SEJAM CAPITÃES, senhores, não sejam, não vale a pena. Nunca valerá.”  E de fato, foi isto que aprendi.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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