Crônicas

Carta de um Verme

Eu estou aqui. Eu estive aqui desde muito antes de você nascer, antes de qualquer um que pudesse se lembrar. Eu lembro de quando nós éramos pequenos, você e eu. Como um verme alimentado pela linguagem, nós crescemos, fomos nos tornando maiores e mais complexos em pouco tempo. Você se lembra? Todo mundo tinha tanto orgulho de nós, tudo era tão divertido. Nos sentíamos tão importantes!

Mas então nós crescemos. Mamãe fez seu melhor para nos educar, mas agora você sabe que ela tinha pouca ideia sobre o que estava fazendo. Nós a odiamos. Bom, pelo menos eu odiei. Você nunca sentiu nada realmente, não da forma como eu sinto. Você ficaria louco se sentisse, e é para evitar isso que eu estou aqui. Se isso faz você se sentir melhor, nós também a amamos muito.

Conforme envelhecemos, percebemos que o que mamãe e os outros da caverna haviam nos ensinado era insuficiente para sobreviver. O mundo era imensamente maior do que eles nos haviam feito acreditar. Nós tínhamos de nos adaptar. O problema é que eles não nos disseram que o mundo não era apenas maior do que nos haviam ensinado, como também mais assustador e doloroso do que poderíamos ter imaginado.

Toda vez que eu tentava entender o mundo, encontrar padrões e criar algum tipo de guia ou manual de instruções de como você deveria viver, a vida simplesmente mudava, e você me odiava por isso. Você me chamava de burro e inútil, e me perguntava por que eu nunca conseguia entender nada, sendo que os outros vermes pareciam conseguir viver sem fazer esforço algum. Bom, na verdade você estava xingando a si mesmo. Você sempre esquece de mim quando está triste, esquece das nossas memórias, nossas vitórias e nossas experiências passadas e aí você começa a cometer os mesmos erros de novo e de novo. Isso machuca.

O que eu quero que você saiba é que eu estou fazendo o melhor que eu posso por nós. Nós não queremos morrer, nós não queremos sofrer. Ou talvez nós queiramos, mas nós não queremos querer isso. Já as outras pessoas, pode acreditar, elas estão com tanto medo do mundo quanto você. Eu não conheço os vermes dentro da cabeça delas e nunca irei conhecer, mas basta olhar para suas vidas bem de perto pra perceber: O fato de os seus corpos estarem o tempo todo em movimento não quer dizer que eles saibam alguma coisa da vida, apenas que eles não conseguem parar quietos. Talvez se os forçássemos a parar e a escutar seus vermes, eles não iriam se mover tanto assim.

Então é isso, eu espero que ainda possamos ser amigos. Eu sei que você tem um histórico de cortar pessoas da sua vida, mas, felizmente pra mim, você não pode fazer isso comigo. Tá tudo bem, encha a cara com seus amigos, distraia a si mesmo, você merece. Eu estarei aqui quando você acordar, e nós poderemos continuar nossa jornada juntos.

O que me diz?

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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