Textos

Black Friday.

Hoje é a Black Friday, mas as putas continuam com o mesmo preço.
Que merda, recebi meu salário com 50% de desconto.
A cerveja está o triplo do valor tradicional.
As garrafas de uísque estão vazias.

Só tenho meias palavras para comemorar dia tão fútil, tão vazio. Toneladas de pessoas saindo com caixas gigantescas de ilusões nas costas. Ah meus compatriotas, mal sabem que subiram os preços dois dias antes para vender tais produtos com uma diferença de cem reais. Ah meus compatriotas, irão comer ovo (a comida dos miseráveis) durante meses para pagar aquela geladeira duas portas com frost-free.

A cerveja, velha cerveja, tem 60% de milho em sua composição. Bebo álcool de farmácia com limão, um desconto para vida, um brinde para morte.

Os cigarros são falsificados, 50% de pureza.

Todos os dias da minha semana são black.

As meninas se reproduzem ainda na meia adolescência. Os homens doentios mal esperam elas sangrarem pela primeira vez antes de colocar os seus 16 centímetros de ignorância entre as pernas da juventude. Depois estes homens sustentam as famílias com eletrodomésticos, grande parte destas meninas mal sabem o valor da honestidade, mal sabem o que estão fazendo.

Mães vendem seus filhos nas esquinas, elas querem fumar uma pedrinha, só uma pedrinha. Suas mãos trêmulas e suas bocas secas, suas pupilas dilatadas. Elas querem vender os bebês, está com desconto, está uma pechincha.

Elas precisam pagar os traficantes.

Uma mãe de família, talvez classe média, talvez não, precisa subir o morro para pagar a dívida do filho. O menino vai virar carvão caso isso não aconteça. Vão estuprar o menino (dezenove anos) depois transformá-lo no Tocha-Humana, isso, sem pudor, isso sem valor, isso sem humanidade. É sexta-feira, ela deixou o salário do mês e a televisão comprada com um desconto de 400 reais.

Hoje é sexta feira. Black Friday.

Eu não sei o que quero comprar. Eu não sei o que quero vender.

Minha alma já não faz parte de mim, o noticiário só fala notícia velha.

Nosso tempo está acabando, não temos desconto.

Não haverá mercados que salvarão nossos pecados. Não existirá uma única moeda de troca na incongruência que se tornou viver neste país, neste mundo, neste tempo. Choverá cinzas, choverá sangue, choverá como nunca choveu antes. Eles se protegerão em caixas de papelão, caixas vazias, caixas de televisão, máquinas de lavar, geladeiras. Os eletrodomésticos de uns que se tornaram a moradia de outros.

Mas é sexta-feira, black friday.

Todos nós temos nossos preço.

Todos nós poderemos ser comprados com 50% de desconto.

 

Anúncios

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

0 comentário em “Black Friday.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: