Textos

A sós no olho do furacão.

Seus gemidos ecoaram pela tarde. Estávamos tão a sós no centro daquele universo todo, como se ninguém pudesse chegar e atrapalhar toda a trama. Uma sensação única, de um domingo quente, de uma tarde lenta, parada, silenciosa. Não tão silenciosa assim, havia barulho, crianças brincando, vizinhos conversando, mil coisas. Domingão do Faustão. Porém nada mais importava, nada mais fazia parte, tudo era eu, ela, aquele momento, aqueles gemidos únicos, serenos, sinceros.

Aquela vontade de gozar reprimida.

Eu queria que aquilo demorasse o tempo que fosse necessário. Eu queria que aquele momento acontecesse diversas vezes, infinitamente.

Eu queria sentir o gosto do suor na minha boca, o macio e delicado gosto. Ver as pupilas dilatarem enquanto eu mergulhava em sua alma. Sentir o sabor de, o odor, a sensação, o toque.

Seus cabelo pregados em suas costas.

Minha calça Jeans com um rasgo no joelho. O retrato dos meus dezesseis anos. Uma rebeldia sem sentido. Eu estava ali, não era para eu estar ali. Nenhum de nós eramos para estar ali, porém o proibido estava acontecendo, apenas o Faustão como testemunha, nada mais. Eu sabia que sua mãe chegaria muito tarde, eu sabia que seu pai havia morrido. Não importava, na hora da foda deve-se concentrar-se apenas nos gemidos, nas sensações, e em reprimir a vontade de gozar.

Não se esqueça disto.

A dor das unhas rasgando minhas costas. O sorriso de meia boca. Eu paro por um instante, olho para aquela pessoa ali, embaixo de mim, entre meus braços. Ela me abraça forte como uma súplica para que eu continuasse. Uma súplica para que ela não lembrasse de quem ela era.

Nós começamos a beber muito cedo, uma maneira boba de esquecer de nós mesmos.
Também fumávamos as escondidas. Não ali, não naquele domingo, não desejaríamos nem em mil vidas o cheiro de cigarro impregnado na cama de sua mãe. Suas amigas perguntavam o motivo dela sair com um garoto mais novo. Era uma bobagem adolescente, ela era apenas um ano mais velha, nada tão grave assim. Quando ficamos velhos notamos que esta questão de idade é mera bobagem.

Eu a encontrei um dia desses, trabalhando como caixa de supermercado. Paguei uma bebida a ela e rimos.

Estávamos no olho do furacão, eramos o centro de tudo daquele universo. Na televisão o Faustão, crianças brincando lá fora, vizinhos conversando, carros passando, sua mãe trabalhando, seu pai sendo comido pelos vermes dentro do caixão e a gente trepando, trepando, trepando, trepando.

Estávamos no olho do furacão, tudo poderia dar errado, tudo poderia ser uma tragédia. O mundo estava acontecendo, sim, o mundo não estacionaria por causa de uma foda adolescente, mas lá estávamos e nada mais nos importava, nada mais seria importante. Naquele momento estávamos focados em foder e nada mais.

Gozamos, sorrimos e nos abraçamos.

Faustão como testemunha.

O tempo poderia ter parado naquele momento, eu veria sua pupila dilatada, seus cabelos grudados nas costas por causa do suor, seus seios pequenos, seu corpo magro, seu sorriso cansado. Minhas calças rasgadas, solitárias, perdidas ali, perto da cama. O nosso cheiro nos lençóis, cheiro que talvez sua mãe tenha notado, mas morreu sem perguntar. Morreu sem saber que a filha fizera naquele domingo.

O Faustão nada disse.

Estávamos a sós no olho do furacão.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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