-Por que simplesmente não me mata agora da maneira mais dolorosa e repulsiva que consegue imaginar? – Ela vocifera

-Você sabe a resposta querida. Te matar agora seria fácil e simples demais, quero que você sofra, que suas lágrimas se transformem em rios e no fim você se afogue nele.  Sou um poeta e até minha maneira de matar produz versos que se transformam em arte viva querida.

– Você é um monstro, um monstro grotesco e tirano – Ela fala enquanto cospe em Vince

– Não minha cara, eu sou um poeta, um escritor e nada mais. Só presenteio esse mundo insipido com poesia e morte. Agora se me permite, tenho outras coisas para fazer.

*****

O tempo da seca finalmente acabou…

As doces ondas do mar da inspiração tocam a minha pele calmamente, sinto um arrepio, é tão profundo que os pêlos do meu braço se arrepiam. A cada grito de dor e desespero que ele dá, mais as águas me tocam e mais ideias surgem em minha mente.

Sinto como se estivesse saindo do meu corpo e adentrando no nirvana, como se o céu não fosse o limite, e estou subindo, subindo e subindo cada vez mais, sendo inundado de uma felicidade sem igual. Paro um minuto e respiro fundo, deixo o doce aroma do sofrimento desse homem inundar as minhas narinas, e as súplicas pela sua vida agraciarem meus ouvidos.

Como pude demorar tanto para suprir essa minha sede por sofrimento?  Já estava quase enlouquecendo, mas hoje encontrei esse pobre desgraçado que encontrou no seu sofrimento um propósito, o de me inspirar e trazer de volta as ondas.

Devo ter no máximo 10 minutos antes que ele perca a consciência e pare de me alegrar com seu sofrimento, posso me deliciar com esse tempo, quem sabe até me tocar, toda essa tensão e sofrimento está em excitando profundamente ou posso simplesmente me presentear com um grand finale.

Pego Izabel em minha bolsa, ela está perfeitamente amolada e tão reluzente a clara luz da lua que entra pelas frestas do velho barracão, não poderia finalizar essa noite com perfeição sem minha amada foice.

Calmamente chego perto do homem, seus olhos me encaram em suplica, seus lábios contraem-se e novamente uma onda de suplicas invade o lugar.

– Por favor, eu imploro, não me mata. Eu não quero morrer!

– Qual o seu nome? – Calmamente pergunto enquanto encosto meu indicador em seus lábios.

– O que?

– Qual o seu nome homem? – Pergunto mais uma vez

– Fernando Raiz. Por favor, não me mata.

– Fernando meu caro, na vida todos temos um propósito, existimos, vivemos e morremos por ele, muitos como você só enxergam o motivo de terem nascido quando a morte bate na sua porta.

– Eu não quero…

– Silêncio, ainda estou filosofando – encarei-o advertidamente

– Você por exemplo, nasceu para me inspirar, melhor dizendo, para que o seu sofrimento me levasse ao mar da inspiração meu querido, mas não se preocupe, o seu nome será eternizado no meu próximo best seller, como personagem principal.

Aproximei meu rosto do dele, senti de perto o doce aroma do desespero misturado com suor e logo em seguida passei a foice no seu pescoço, o sangue jorrou como uma cachoeira de vida, passei o dedo em uma gota que escorria pelo seu peitoral e levei a boca, que sabor agradável, melhor que o mel.

Peguei meu telefone e liguei para Luiz, meu amigo de longa data e encarregado pela limpeza após cada momento de inspiração.

– Boa noite, Luiz.

– Boa noite Vince. Em que posso ajudá-lo?

– Sei que está tarde meu bom amigo, mas preciso que você faça aquela boa e velha limpeza.

– Sem problemas. Qual o endereço?

– Você já conhece o lugar. O velho galpão de grãos.

– Perfeito Vince, pode ir para casa descansar que cuidarei de tudo.

– Muito obrigado Luiz, vou escrever, as ondas voltaram a me tocar – Disse e desliguei.

*****

Ser um escritor é um dos ofícios mais inventivos que existe, a possibilidade de comandar vidas, construir universos fictícios, e principalmente fazer pessoas reais curvarem-se diante da história que você decide contar, entretanto, não é nenhuma dessas garantias que me inspiram a escrever e criar, mas a sensação, melhor definindo, o tesão de terminar algo formidável a ponto de ser considerado uma obra de arte para os críticos.

Ah os críticos, para muitos o pior pesadelo, os tiranos que fazem duras e insensíveis críticas, mas acredito que são simples expositores de escritores medíocres, que publicam qualquer besteira que lhes vem à cabeça. Minha relação com esses requintados senhores da leitura sempre foi exemplar, arrisco-me a dizer que glamorosa, afinal é a crítica sempre positiva de cada um deles que me motiva a escrever.

Tocar meus pés no oceano da inspiração da escrita não teria sentido, ou mesmo sentir as ondas em minha pele não traria o mesmo prazer sem as críticas positivas, melhor dizendo, sem o endeusamento que recebo tudo isso seria vago.

A glória é o que me move, na verdade a glória é o que me excita a sentar na mesa e começar a criar uma história, é tão libidinoso quanto sentir uma boca quentinha encostar em sua glande.

*****

 

 

 

 

 

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Sobre Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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