novembro 30, 2017

Briga.

– Seu merda! – A cadeira fez uma parábola no ar, uma parábola perfeita e espatifou-se tal qual as cadeiras do seriado Chapolin Colorado. Uma parábola certinha e o barulho da explosão do plástico velho no chão duro de cimento. A mesa girou no ar, as bebidas caíram. Martini, bebida de puta como meu pai diz, os pequenos copinhos brilhavam na baixa luz do ambiente, o jorro brilhoso do precioso líquido dos ébrios voava antigravitacionalmente pelo ar. A mesa tentou fazer um pequeno looping, mas o metal bateu no chão, mesclando-se ao som da carteira e ao xingamento. Ninguém sabe como uma briga começa, mas existem fatores do qual nos permite prever. Por exemplo, se, por acaso, existirem mais homens do que mulheres em um lugar apertado e parte deles estiverem bêbados, é certo que haverá briga. Daí, os gritos, xingamentos, mesas e cadeiras voando. Alguns entram em uma briga apenas pela adrenalina e diversão. Não existem Jackies Chan nem Bruce Lees, não existem regras, apenas socos desvairados para todos os lados, garrafas quebrando, dentes partidos e maxilares quebrados. Uma ou outra clavícula quebrada. Um ou outro braço deslocado. Sangue, lágrimas. Uns se empurram em cima dos outros, você pode tentar sair pela porta menor do que imagina. Quando começam a pegar pedaços de madeiras como armas e bater tal qual espadas medievais é que o evento começa a ficar um pouco mais sério, talvez possa até ser transmitido no jornal matutino, talvez até a polícia possa chegar e arrastar aqueles bandos de bêbados do lugar. Talvez um olho possa ser furado, um dedo partido, um nariz quebrado. Não existe como prever o que virá depois, seremos todos os soldados aportando na Normandia no dia D. Metralhadoras explodindo cabeças, viver é questão de sorte. Sair ileso de uma briga é questão de sorte. Vejo algumas mulheres correndo e pulando para trás do balcão, quase sempre a motivação da briga é delas, quase sempre. Uma tinha uma cicatriz enorme, alguém passou uma navalha no rosto dela. Uma vez vi um homem dar um soco em outro homem, só que ele errou e acertou a esposa do sujeito, ela caiu em cima de vários cacos de vidro. Uma merda só. Este dia terminou em tiroteio, mas não é comum uma briga terminar em tiroteio, é comum uma briga terminar em histórias, textos, risadas e lembranças. Uma briga nada mais é que o homem tornando-se primitivo de novo, indo até suas raízes ancestrais, indo até nosso primo Chimpanzé. Nos torna brutos, preparados e ignorantes. Nos torna pedra, retrógrados, até ímpios. Louvamos o deus da luta, o deus da guerra e o deus da procriação. Bebemos a bebida da deusa Ceres e levantamos nossos cálices para a morte, guerra, batalha e destruição. Eu digo na mesa, digo e repito que seremos imbecis, seremos idiotas se continuarmos assim e que o macaco é nosso irmão. Meu companheiro de birita me chama de merda e joga a cadeira para o ar, fazendo uma parábola perfeita.

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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