A mulher do domingo.

Estou ficando velho. O espelho me diz isso ao amanhecer, ele me encara com meus olhos enrugados, com minhas olheiras, com minha boca seca, meus cabelos de palha, ele me encara com minha pança enorme e meus dentes amarelados, ele me encara, ele me diz que estou ficando cada vez mais velho. Não sou mais o mais novo da turma, para alguns empregos eu não tenho mais idade, minhas costas começam a doer, meu coração começa dar os primeiros sinais de falha, minha memória não é mais a mesma, minha visão já nunca fora tão boa. Minha alma já está tão decadente como nunca fora no passado.

Mas mesmo assim meu sorriso brilha, uma fonte de calor dentro de mim surge, um vulcão adormecido no peito do velho poeta. A voz sonolenta que me chama no quarto, a voz sonolenta que quer carinho, quer dormir junto, quer dormir no calor. Meu coração aquece, não estou bêbado caído pelas esquinas, não estou pedido em uma noite estranha, não estou nas esquinas tortas da vida buscando atenção. Eu tenho a atenção que eu desejo, ela está lá, me esperando para que eu deite novamente com ela, esperando que eu volte a dormir neste domingo de preguiça.

Depois de mijar deito-me novamente na cama desarrumada, está quente e mesmo assim ela se enrosca comigo como uma gatinha manhosa. Era um hábito meu dormir com alguém todos os dias, porém este novo hábito de dormir com a mesma pessoa me surpreende, o espelho se surpreende, minha alma suja se surpreende. Não sou mais o mesmo, permito-me apaixonar, permito-me ter medo de perder. Permito-me que ela se aproxime, que ela adentre meu castelo, que ela se sente ao trono, permito-me que ela toque minha alma, que questione meus erros, que sinta raiva de mim e me ame.

Nos domingos eu dormia sozinho sempre. As vezes nas ruas, as vezes acordando bem cedo para ir embora, retornar aos bares, retornar a vida maldita. Nos domingos eu não permitia estar com alguém, as vezes eu estava com alguém, mas não era para o domingo todo. Eu deixava a vida andar no domingo, o dia mais chato, o dia da ressaca, o dia onde ninguém morre de verdade. As mulheres que eu preferia, todas elas eram dos sábados, mulheres que eu encontrava nas festas, mulheres que eu encontrava nas bebedeiras, mulheres que eu encontrava no dia a dia, na vida antes da ressaca, na vida inconsciente. Mulheres que buscavam homens para um sábado. Eu era um homem do sábado, um homem que vivia o fim da sexta e o inicio do sábado para que vomitasse o domingo todo.

O homem que nunca sentou no sofá do dia de domingo.

Agora ela está aqui deitada comigo, sinto o suor da sua pele, sinto os seus cabelos cheirosos, sinto o palpitar do seu coração e acompanho a sua respiração. Estou entre os seus dedos, estou na sua carne, na sua pele, no seu amor. Agora sou responsável por parte dos seus sorrisos e você é responsável por toda minha felicidade. A mulher do domingo me guia na linha reta, a mulher do domingo não me permite voltar a ser um homem do sábado, a mulher do domingo é o arauto grego da sabedoria. A mulher do domingo também, um dia, foi uma mulher do sábado mas ela desistiu, não faz mais parte dela tal coisa, agora ela quer estar os domingos aqui  comigo.

Envelhecendo.

Dormindo.

Me permitindo ser o seu homem do domingo.

 

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