– Garçom, me dá mais uma! – Eu estava decepcionado. Andei decepcionado a semana toda. Eu ando me decepcionando desde que eu nasci, o ano que eu nasci, o ano que eu fui adolescente, as músicas, a literatura. Sinto-me respirando um ar que não pertence a mim, da mesma forma que eu não pertenço a esta época. Um deslocado andando com furos nos bolsos e sapatos velhos. O garçom me ignora, estou na mesa há algumas horas, trabalhando naquela, já quente, garrafa de cevada amarela. Ao longe um grupo de jovens adentram o ambiente, fazendo muito barulho com suas risadas altas e seu humor politicamente correto.

– Garçom, me dá mais uma! – o garçom me ignora novamente. Começa a tocar Pablo Vittar ou outra merda e eu fico ainda mais rabugento. Os jovens na mesa do lado derramam cerveja e gargalham engasgando-se. Eu no meu profundo desejo que todos eles morram, mas este pensamento dilui com uma pequena discussão não muito longe da li: um cara, o dobro do meu tamanho, planta a mão no rosto de sua ficante, namorada, esposa, sei lá. A mulher dá dois rodopios no próprio eixo e cai sentada no chão. Uma pequena confusão orbita aquela constelação e logo todos estão rindo novamente e ouvindo música sofrível.

– Garçom! – ele me ignora, serve uma mesa logo a frente com bebidas sofisticadas. Eu não sou sofisticado, sou errado, na época errada. Falo boceta e não pepeca. Falo caralho em meus textos, faço piadas imundas e tomo cerveja quente e barata, aporrinhado com a música ambiente e adolescentes barulhentos. Aporrinhado com a merda que foi Star Wars. Aporrinhado com meu desemprego e minha falta de dinheiro. Eu sei que eu sou o errado da linha, o merda, o velho chato que gostaria de ouvir Bob Dylan ou Fleetwood Mac e tomar um porre de vinho barato. Eu sou a porra do velho escroto, os garotos nada fizeram, mas me aporrinha saber que eles existem e são tão felizes.

Não há motivo para a felicidade:

Temos guerra.

Temos doença.

Temos depressão.

Temos politicamente correto.

Temos terroristas.

Temos Jihad.

Temos fome.

Temos sede.

O Star Wars não foi tão legal.

E o garçom não me serve.

Mas eu estou do lado errado da linha, eu os invejo por serem tão felizes comendo estrume.

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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